JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

                                           

                                    Deus nos Livre da Filosofia do Hitlerismo

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                 À memória de meu avô, Guershon Goldenfan,

                   morto  no gueto de Lodz.

 

                                                                                                                                                           Até hoje Hitlerismo e Filosofia parecem dois termos que não poderiam conviver numa mesma frase. Mas, em 1933,quando o mundo ocidental brincava de cabra cega cultivando a idéia de que Adolf Hitler era mais um louco que atravessaria rapidamente pelo palco da história, um jovem filósofo que passara o ano anterior como aluno de Martin Heidegger, ousou escrever um artigo onde denunciava o hitlerismo como uma filosofia de vida e Heidegger como um pensador em ressonância com aquela visão. O jovem, que tinha menos de trinta anos, chamava-se Emanuel Lévinas e a sua ousadia em chamar hitlerismo de filosofia chega até nós com a força de uma reflexão que nos chama a olhar o mundo em que vivemos a partir daquele grito de alerta. Já então Levinas percebia o hitlerismo como um projeto que negava aquilo que o mundo ocidental construiu como valores humanistas com os tijolos e as pedras retirados de Atenas e Jerusalém.

            O que são estes valores senão os mesmos princípios que geraram a idéia de que seres humanos se juntam e se separam livremente a partir de decisões que são tomadas dentro de uma liberdade de pensar e expressar este pensamento marcando diferenças e fronteiras que devem ser respeitadas. Aquela frase que dizíamos na juventude para impressionar a namorada, por mais que eu discorde de tuas idéias lutarei ate a morte pelo direito de você dizê-las, frase boa para conquistar garotas encantadas com jovens libertários, era, no fundo, a essência de um humanismo iluminista que implicava na liberdade de escolha, mesmo que isto incorresse na expulsão do paraíso da não necessidade de escolher. Sobretudo, ela implicava na idéia de liberdade de estar juntos a partir de uma consciência do que estaríamos fazendo e praticando. Levinas percebeu bem cedo que o Hitlerismo era o avesso deste projeto.

            Na medida em que o humano é definido como pertencendo a um grupo pelo seu sangue, este sangue se transforma nos elos de uma cadeia da qual ninguém mais consegue escapar. Não é mais a razão, mas os corpos irracionais e o sangue que corre em seu interior que determinariam quem pode pertencer a determinado grupo. Não haveria mais pensamento, escolha, avaliação, arbítrio, tudo já estaria definido de antemão.  Todo o edifício mental que o judaismo ergueu e o cristianismo acompanhou, baseando no arrependimento e no perdão a visão de um tempo que se transforma e do qual é possível, portanto, escapar, ruía frente à idéia de um determinismo que amarra a todos numa cadeia de elos inseparáveis. Em qualquer lugar do mundo, o alemão definido pelo sangue pertenceria à raça eleita como quem trás dentro de si uma centelha divina que junta os dispersos num mesmo balaio de gatos iguais.

            Num Abraão nômade e Arameu, o judaismo transmitiu ao ocidente a idéia de que é possível fugir do determinismo da historia pessoal e grupal e transformar o destino num texto sempre possível de ser reescrito. A consciência individual,mensagem facilmente percebida se lemos com olhar adulto na Torah  a Parachá Lech Lerra,indica o caminho de um viver onde o homem rompe com a sua herança,abandona a casa paterna e sai em busca de si mesmo. Ao destruir os deuses de Terach, pai de Abraão, este deixa para o seu pai a tarefa de acreditar que foi o deus mais forte que quebrou os outros, menores, Abraão personifica um judaismo que não faz acordos com a idolatria tornando-se, neste sentido, uma religião que comporta o “risco do ateísmo”. Ateísmo que se manifesta na recusa de sempre considerar como falsos os candidatos a messias que se apresentaram em nossa historia. Ateísmo monoteísta que arranca o homem da natureza onde o pagão esta prisioneiro. Prisioneiro na totalidade de um mundo total e pleno onde cada um dos deuses é uma força com quem se negocia e junto a eles, todos os humanos estão encarcerados em lugares sabidos e acertados. Prisioneiro da forças telúricas o pagão esta algemado em sua concretude.Tanto Emanuel Levinas quanto o pensador católico Jacques Maritain perceberam esta prisão. " O telurimso racista e antissemita é anticristão" dizia Maritain em seu livro "Os Judeus Entre as Nações". Mistura de sangue e terra santificada o Hitlerismo,  não passava de um paganismo moderno onde o lugar do estranhamento e da busca nao podia existir porque ser do mundo já estava predeterminado e o homem se encontrava amarado à terra e ao sangue do mesmo modo. santificar a terra,lugar das forças teluricas, será sempre um ato pagão e porta aberta para o aprisionamento.

            Na mesma década em que Levinas escreve os eu artigo outro judeu, já no final da vida, escrevia A Psicologia das Massas e a Analise do Eu. Sigmund Freud, Shlomo para os íntimos, conclui em seu estudo que as pessoas colocam no lugar do eu uma identificação com o líder comum a todos. O que os faz, a todos eles, um corpo comum e unificado. Freud nos ensina que as massas manipuladas pela adoração ao líder perdem a consciência de si e se transformam numa fantasia de um corpo único. Um rebanho guiado pelo pastor, imagem tão cara as religiões. E, ao encerrar o seu estudo, Freud-Shlomo, como se fosse um grito de alerta a uma Europa que não soube fazer frente à filosofia do hitlerismo, insisite em dizer que o ser humano não é um HERDENTIER, um animal de rebanho, mas, sim, um HORDENTIER, um animal de Horda.

            Horda, como tão bem exemplifica Elias Canetti em seu brilhante Massa e Poder ,obra que levou quarenta anos escrevendo,trabalho de ourives indispensável para quem quer entender a vida dos grupos e escrito com uma leveza que só um grande autor consegue, hordas, pelo que vemos em seus textos, existem muitas. Hordas são variadas e comportam dentro de si a variedade que é a tônica de sua organização dinâmica. Hordas se unem ao redor de um objetivo,uma escolha portanto,e,uma vez executada a tarefa cada indivíduo toma o seu caminho.Hordas são o ideal da vida humana.rebanhos,são a realização da vida desumana.Vida de destino traçado. Dos grupos rebanho não há saída, escapatória, conversão ou desconversão. E, no entanto,sejamos humildes e reconheçamos,somos todos um pouco de cada uma destas tendências das quais nos falaram Levinas, Freud e Canetti. Se assim for, a filosofia do hitlerismo, pensada a partir desta idéia de conflito entre forças diversas que nos habitam e determinam pode nos ajudar também a nos protegermos dos hitlerismos que nos acompanham em nossas vidas diárias? Creio que sim.

            Se colocarmos todos estes pensamentos como forças humanas a que se dão diferentes nomes ideológicos em diferentes tempos e contextos, isto nos levaria a poder supor que hitlerismo e outros ismos são modos do humano que triunfam ou não de acordo com o projeto humanista que queremos construir. Mas,triunfo não quer dizer que eu apago aquilo que não se manifesta.Ao contrario,só quer dizer que eu controlo e busco superar o que não quero que se manifeste no projeto humano que desejo construir. Dentro desta visão de um campo de forças, qual é a força que representa o judeu no mundo ocidental? Deixarei a resposta a Jacques Maritain que citei antes, pensador católico que expressou esta idéia em uma conferencia em Paris em 1938 em um trecho que ele intitula de “L’essence spirituelle de l’antissmitisme” (a essência espiritual do anti-semitismo) vejam o que nos diz Maritain " Se o mundo odeia os judeus é porque sente bem que eles lhe serão sempre sobrenaturalmente estrangeiros” É o próprio autor que grifou o sobrenaturalmente. O que quer dizer Maritain com esta idéia? No meu entender, ele nos fala que na cultura ocidental cristã o judeu encarna de maneira radical o lugar do OUTRO. O mesmo estrangeiro que aparece nas preces hebraicas  nos relembrando sempre que Arameu nômade foi Abraão nosso pai.

            Ser outro, ser estrangeiro por excelência, direito e eleição, é ocupar um lugar a partir do qual se é sempre a voz que anuncia a diferença dentro do mundo que se quer UM. Um mundo de uma só raça superior e unificadora do sangue somente poderia querer destruir aquele que em sua presença anuncia a diferença e a impossibilidade de apagar a diversidade dentro do UM. Há algo de sobrenatural, de além do natural, de incomum, neste lugar que ocupa o judeu no imaginário ocidental e, voltando a Maritain “é esta vocação de Israel que o mundo execra.” Sobrenatural porque o natural parece ser apagar a diferença e buscar um mundo UMnificado? Vocação como quem diz escolha? Pode ser. Mas, voltando a minha proposta: num campo de forças "judeu", seria o nome da força que marcaria a multiplicidade e a impossibilidade de um SER que tudo abarca e unifica dentro dele. Seria a força porta voz da radicalidade da diferença. Lugar privilegiado.Combatido.Negado.E sempre presente em qualquer intento de construir um modo onde não haja nada fora do ser total e totalizador.

            Bem, se falamos de forças e bom lembrar que no concreto do mundo real, nós, aqueles que se querem judeus, também somos formados por este mesmo campo de interações, um mundo sistêmico onde nunca se é uma só e única força. Somos todas.Um mundo humano. Demasiado humano. Então, se abandonarmos o conceito de raça deixando de lado a idéia de sangue, mas mantendo o conceito de uma unidade que se faz antes da decisão que alguém toma de pertencer a um grupo e que esta decisão não pode ser revogada, os hitlerismos se transformam em uma possibilidade concreta que nos afeta e acompanha sem que a gente se de conta do que esta fazendo.

            Olhemos com coragem e com a devida responsabilidade pelo que estou dizendo, responsabilidade que não esquece as diferenças entre o Hitlerismo real e a filosofia que o alimentouOlhemos para poucos anos atrás quando o Rav Ovadia, rabino chefe da comunidade sefaradi em Israel, declarou que os seis milhões de mortos eram almas pecaminosas, o que estava nos dizendo? Quando os Lubavitch consideram os judeus como portadores de uma centelha originária do criador ou, quem sabe. do Adão cósmico do qual foram criadas todas as almas, excluindo desta herança todos os outros seres  o que este raciocínio nos ensina? Quando um rabino liberal pede a uma jovem que se dis judia que ela precisa converter-se porque não nasceu de ventre judáico, em que límite o seu liberalismo esta tocando?Ovadia não estaria dizendo que há uma essência que chama de alma que qualifica e condena a morte seis milhões de inocentes independente do que sejam como humanos reais, ou, pelo avesso, os Lubavitch não estariam glorificando e tornado especiais os outros que têm a centelha do primeiro Adão. Um adão judeu,é claro ao qual é possivel converter-se segundo propunha o rabino liberal.

            Nestes casos, o judeu portador radical da diferença se apaga em nós como uma vela frágil e o que sobressai para nosso desgosto, é a força que nos reduz ao um que nos habita como humanos e quer apagar tudo que não é igual a si mesmo através da pertenência , Sela dentro da regra do ritual ou da crença mística em almas e centelhas.

             Reflexões que aqui terminam por que o texto já vai longe e Yom Há Shoá se aproxima. Dia de lembrar todos os nossos mortos que foram destruídos porque como judeus arcavam com esta responsabilidade grave de encarnar a diferença em um mundo que se desejava sem asperezas e diversidades. Cuidado que devemos ter de, como judeus que somos não assumirmos nunca, por mais que seja uma posição que produz um falso sentimento de força e poder,este lugar macabro e sedutor daquele que não reconhece o outro e suas necessidades. Que não sejamos nós, aqueles que se dizem judeus, uma vez aprisionados pelas forças da terra e do paganismo, os criadores de homens que não podem ser o que são e ter o que lhes é de direito enquanto humanos e diferentes de nós.

 

           

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Respostas a este tópico

Caramba Paulo, esse Seu texto eh super forte! abalou os pensamentos!
O Que achei importante neste seu texto, foi uma outra forma de ver esse tema do Hitlerismo, e nos fazer pensar nesta grande debilidade humana de saber aceitar as diversidades e as diferencas do outro. Esse seu texto me faz pensar nesta continua e macabro possibilidade ainda existente nos dias de hoje do perigo que pode levar a grupos, nacoes de seres humanos a se tornarem bestas humanas sedentos de odio aos outros pelo simples fato de serem diferentes.
Paulo li o seu texto na revista Nosso Jornal Rio !
Gostei muito da linha combativa desse jornal
Parabens pela a iniciativa comunitaria.
Te vejo em Israel Amanha
Boa Viagem
Caro Paulo, me perdoe o atrevimento de comentar sobre seu texto, apenas agora tomei conhecimento de algumas de suas citações e de seus autores, tive mesmo dificuldade em determinados pontos, mas me permita este atrevimento. Entendo que todo pensamento quer se materializar. Não é a toa que toda a criação foi elaborada sobre Palavras. São estas mesmas Palavras que sustentam, deram e dão força ao judeu e ao judaísmo, que mantém esta santa teimosia de viver e resistir. Entendo o que disse sobre a inversão do hitlerismo, pois cada pensamento quer ser real, independente de sua natureza. Primeiro desejamos, depois pensamos, depois falamos em busca de apoio para realizar o que desejamos. Não é a toa que o mal buscou e se alimentou dos mesmos princípios humanos que tantos defenderam, alguns até a morte, ou seja, a palavra; ou melhor, neste caso, para aqueles, a mentira, que é a antítese da Palavra criadora do Eterno. O Hitlerismo, como você registra, materializou as mentiras ditas por séculos. E a perseguição preferencial pelo judeu não é gratuita. O judeu e o judaísmo representam aquela porção do cristianismo amalgamada com os deuses da terra (Europa), aquela interferência incomoda, aquela Palavra que convive com a mentira, que quer se “libertar” da Verdade. As palavras de ordem não foram criadas por ninguém, estavam lá desde o começo, como deixar que aquele povo que resistiu a Roma, sobreviver, se este povo e sua religião é o lastro da pouca verdade que sobrou de uma religião cooptada pelos deuses romanos, que por sua vez competem com os deuses germânicos. Toda esta mística ansiava por materializar-se. Minha preocupação é que há muitos pensamentos baseados na mentira e amplificados pelas facilidades deste nosso mundo, que nunca encarnaram, mas estão ai, pairando no ar, esperando “seu momento”. O que os resiste? A Verdade, o humanismo, a ética. A mentira só pode triunfar se estas forem negadas. E só serão negadas se seus depositários, aqueles que não se omitem, forem eliminados. O desconforto é o mesmo que o do segundo templo, é o mesmo do pangermanismo da primeira metade do século passado. E sua sombra se projeta hoje, para muito além da questão racial e geopolítica, não por que somos desejosos do mal, mas porque simplesmente toleramos a mentira, porque a sociedade convive com pequenos deslizes, pequenas intolerâncias e constantes omissões. O que a mentira consegue é um grande e terrível espetáculo e seu memorial de sangue e horror, mas resta um consolo, a teimosia da Verdade, começa com alguém, com uma voz fraca, mas vai incomodando, sempre irá incomodar, que vai ressurgindo das cinzas, até ficar clara e condenar a mentira, definitivamente. Eu tenho esperança, não de escapar do mal e de sua materialização, mas esperança de saber que a mentira é autofágica. Um grande abraço.
Parabéns pelo texto. Estou descobrindo o judaismo e suas palavras que me levaram a refletir.
Olá Bárbara,obrigado por ter lido o texto.A descoberta do judaísmo é um processo sem fim,eu não cesso de descobrir e estou nesta brincadeira desde os 18 qdo dei as minhas primeiras aulas e nunca mais larguei.Sinto enorme prazer e poder compartilhar com vc estas descobertas.Aqui no blog tem vários textos meus e algumas aulas em video.Nao entendo bem como funciona,mas com o tempo eles migram para o blog q cadaum tem e nâo sei se è preciso ter permissâo
Querido Paulo, Trabalhei com esse seu texto" Pessach com Leibowitz e Lévinas" numa de minhas aulas essa semana, saiu uma discusao incrivel com os jovens sobre o conceito "liberdade".
Na verdade adoro esse seu texto, ele abre muitas portas para o pensamento humano, eh uma tentativa corajosa de definir essa "dificil liberdade" humana.
Eu sei como educador quando o texto eh bom no sentido pedagogico, sao textos que conseque despertar a necessidade da curiosidade intelectual dos Jovens, despertando perguntas e um dialogo direto com o texto.
O Mais importante de tudo eh quando termina a aula o espaco e tempo pedagogico nao termina , eles querem ler e saber mais sobre o judaismo de levinas e Leibowitz e o dialogo com os alunos continua depois da aula e ainda mais me cobram os materias por e-mail.
Acho que quando isso acontece me traz a tal procurada felicidade do educador , e me faz sentir util no meu papel pedagogico de construir seres pensantes, formadores de opiniao.
Te agradeco por nos proporcionar esse seu texto cheio de portas e encontros com a sabedoria.
Um Forte abraco e Bem Vindo de novo ao Site!

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