JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

O Humanismo do Sionismo Socialista de Moshe Hess – Jayme Fucs Bar

Quem estuda história e cultura judaicas descobre que o judaísmo é um livro aberto, e segundo os sábios judeus “ Quando você descobre um segredo, um novo segredo é aberto e esse processo é sem fim”.
Sou judeu sionista socialista e vivo num kibutz em Israel. Nos tempos atuais, muitos me chamam pejorativamente de "esquerdista" ou “esquerdopata”. Embora eu perdoe, sinto certa tristeza, pois sei que essas pessoas não têm a mais vaga ideia das várias facetas dos sistemas ideológicos, sejam capitalistas sejam socialistas. Para mim, uma coisa é certa: D´us criou tudo que existe nesse mundo, menos a imbecilidade humana .
Na juventude, quando eu ainda vivia no Brasil e era parte da liderança do movimento estudantil no Rio de Janeiro, eu me definia como trotskista. Essa era uma ala que combatia o sistema capitalista e também o stalinismo da Rússia e de Cuba e o maoísmo da China e da Coreia, entre outros.
Quando cheguei a Israel ainda jovem e fui viver no kibutz, descobri um pensador socialista que me encantou: Moshe Hess. Não somente por ele ser pai do sionismo socialista, mas principalmente por suas ideias humanistas que têm como base as teorias do socialismo moderno. Por ser um grande estudioso das fontes judaicas, ele entendeu que conceitos como igualdade e justiça social são essenciais no judaísmo e, portanto, muito mais antigos e anteriores aos que foram criados por Karl Marx.
A mensagem dos profetas de Israel, especialmente de Amos, deixa claro que as leis sociais da Torá para a humanidade são as leis de igualdade e justiça social.
Uma das descobertas arqueológicas mais interessantes dos últimos tempos foram os pergaminhos do Mar Morto, local onde viviam os essênios, que, por sua vez, eram uma corrente judaica do período do segundo templo. De acordo com as informações que temos, eram comunidades altamente socializadas, não existia propriedade privada.
Cada membro que se integrava à comunidade, depois de passar por um processo de absorção, teria que doar todos os seus bens à comunidade. Eles trabalhavam juntos e comiam em um refeitório comunal. O lema deles era de que um é responsável por todos e todos por um. Trabalhavam em função das suas possibilidades e ganhavam em função das suas necessidades.
O nome dessa comunidade era Yachad (Juntos), que por si só define o tipo de vida que escolheram.
Pelas informações que temos, essa era uma comunidade de sobrevivência, uma forma coletiva de garantir o sustento e a segurança material de todos. Dessa maneira, poderiam dedicar grande parte de seu tempo à vida espiritual. E para quem não sabe, Jesus e seus discípulos levavam uma vida assim totalmente comunal.
Os ideais de igualdade e justiça social são inseparáveis da Torá e estão no DNA do judaísmo, não é coincidência que judeus como Karl Marx, Leon Trosky, Rosa de Luxemburgo, Moshe Hess e outros foram os grandes teorizadores dessas ideias socialistas no período da modernidade.
Moshe Hess é um desses ideólogos socialistas, porém pouco conhecido. Suas ideias humanistas foram inclusive de grande importância na criação do Estado de Israel. Infelizmente apesar de ter sido um pensador incrível , brilhante, polêmico, ele continua pouco entendido nos dias de hoje.
Moshe Hess nasceu na Alemanha em 1812, foi criado por seu avô, o rabino Tuvia Hess, que deu a ele uma educação judaica tradicional religiosa. Em 1830, ele começou a estudar Filosofia na Universidade de Bonn. Posteriormente em Paris, tornou-se amigo e colaborador de Karl Marx e Friedrich Engels. Nessa época, ele era partidário da assimilação dos judeus aos movimentos comunistas como forma de solucionar a “Questão Judaica” e acreditava, como seu amigo Marx, que “a religião é o ópio do povo”.
O que mudará sua vida serão seus estudos sobre Filosofia e o panteísmo de Baruch Espinoza, que servirão de base para o seu primeiro livro, escrito em 1837. Depois vieram outros e uma das suas obras mais importantes foi “História sagrada da humanidade por um discípulo de Spinoza”. Ele baseou sua visão socialista em uma interpretação dos pensamentos de Baruch Spinoza, que ele viu como um avanço para uma concepção revolucionária que seria a de criar uma base moral e ética para a vida política.
Essas ideias de Hess estão totalmente inseridas na visão da tradição Judaica. Até mesmo por sua formação, ele não abandonou as leis sociais da Torá, onde encontrou os pilares para uma interpretação moderna e revolucionário dos fundamentos do humanismo judaico.
A partir desse momento, ele começou a divergir das ideias de Karl Marx, tanto na questão do determinismo histórico quanto na forte critica à visão economicista de Marx. Hess via o socialismo como uma ideia primordialmente humanista. O ser humano deveria estar no centro, e por isso ele não aceitava o “socialismo científico” e materialista de Marx.
A partir de então, Hess se tornou um pensador socialista independente e tentou divulgar suas ideias socialistas humanistas em jornais sociais. Rapidamente surgiram opositores e um deles foi o amigo Karl Marx. Em consequência disso, ele foi expulso da Internacional Socialista, da qual havia sido um dos fundadores.
Esse isolamento politico ajuda Hess a voltar às suas raízes judaicas. Em 1861, ele escreveu o livro “De Roma a Jerusalém”, uma sugestão clara para os judeus voltarem para a terra de seus ancentrais. Ele propunha a criação de um estado judeu que correspondesse aos sonhos dos profetas, um estado judeu socialista humanista:
“Lembrei-me de que sou filho de um povo humilde e perseguido… E depois de vinte anos afastado de meu povo, volto a ele, compartilhando de suas festividades, alegrias, dores,esperanças e recordações… Tomo parte de uma luta espiritual e intelectual de nossos dias dentro da casa de Israel... Existe um sentimento que vem acordar novamente o pensamento da necessidade de me unir aos meus antepassados na terra santa, a cidade eternal, o lugar onde nasceu e crescerá a unidade divina da vida e a esperança da irmandade de todos os homens”.
Hess teve dificuldade de encontrar um editor para o seu trabalho. Porém em 1862, ele conseguiu publicá-lo. Poucos nessa época souberam desse livro e suas ideias só se tornaram conhecidas com o surgimento do Movimento Sionista de Theodoro Hertzl que escreveu o livro “O estado judeu” em 1896. Ao ler o livro de Hess, Theodoro Hertzl declarou que “Tudo o que eu pensei e escrevi já estava escrito nesse livro”.
Hess não somente é considerado o pai do socialismo humanista, mas um dos precursores do sionismo moderno e pais do movimento sionista socialista.
Hess morreu em 1875 em Paris e, a seu pedido, foi enterrado no cemitério judeu em Colônia, na Alemanha.
Em 1961, com o do estado judeu já existente, os ossos de Hess foram levados para Israel e enterrados no famoso Cemitério Kinneret ao lado do Mar da Galileia. Foi realizada uma cerimônia que contou inúmeras presenças ilustres, entre elas o primeiro-ministro David Ben-Gurion. Em sua lápide, está escrito:
“Moshe Hess, um dos pais do socialismo mundial e idealizadores do Estado de Israel.”
Fonte: http://www.daat.ac.il/encyclopedia/value.asp?id1=1591

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