JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

A criação do Estado palestino não trará a paz Escrito por Marcelo Treistman da Conexão Israel

A criação do Estado palestino não trará a paz”.

Consigo identificar dentro da sociedade israelense duas linhas majoritárias de pensamento que acabam por moldar os segmentos políticos no país. Algumas pessoas dividem estas diferenças de percepções em pensamentos de “esquerda” e de “direita”.

Uma das vertentes (eu diria a principal) que define o que é um pensamento “de esquerda” e “de direita” em Israel, se dá pela postura em relação ao conflito e a relação com seus vizinhos árabes. É certo, que se analisado de perto, cada segmento possui uma gama variada de ideologias – mais extremas, mais moderadas, facistas, anti-sionistas, etc… Não existe uma única direita ou uma única esquerda no país. No presente artigo cometo uma pequena indelicadeza: para fins exclusivamente retóricos, reunirei características genéricas de cada um deles tratando cada segmento (com posturas tão plurais) de forma singular.

A frase que inaugura o texto – “A criação do Estado palestino não trará a paz” – é apenas um, entre inúmeros exemplos, em que há uma interseção entre estes pensamentos. Aliás, trata-se de algo evidente para a maioria das correntes da política israelense no que tange o fim do conflito. Explico:

O discurso da esquerda é que a criação deste Estado é uma pré-condição para a paz. Existe a crença de que a paz só virá através de um processo e o mesmo não poderá ser alcançado sem a criação do Estado Palestino. Considera como legítimas as aspirações nacionais do povo palestino e indica que a sua criação seria o início de um caminho que possibilitará um futuro mais calmo nesta região. Além disso a criação deste Estado impõe-se pelo seu imperativo moral: seria a única forma de mantermos o caráter judeu e democrático de nosso país (leia mais sobre este ponto no artigo do Claudio Daylac). A esquerda sionista reconhece a existência de uma mentalidade fundamentalista que objetiva “varrer Israel do mapa”, mas acredita na legitimidade e força do povo palestino em seu próprio Estado para dizer “não” à ideologia de ódio aos judeus.

O discurso da direita é que a criação do Estado palestino colocaria em risco a segurança do país e legitimizaria os atos terroristas que visam aniquilar a existência de Israel. Existe o sentimento de que o futuro seria mais sombrio com a criação de um Estado palestino do que sem ele. A direita sionista afirma que os palestinos criminalizam qualquer normatização da relação com o povo judeu e isto seria um impedimento claro e manifesto para toda e qualquer negociação. Além disso, a sociedade palestina não demonstraria explicitamente a sua contrariedade com a escolha do terror como estratégia política ou a sua vontade de resistir aos fundamentalistas islâmicos.

Uma análise rápida do discurso de cada segmento nos levaria a uma conclusão inexata. A primeira vista, temos a impressão de que estamos diante de pensamentos profundamente antagônicos e que não poderíamos encontrar nenhum ponto em comum. E isto não é correto. Senão vejamos:

  1. Eu reconheço no discurso de ambos os lados o desejo pela paz;
  2. Eu reconheço no discurso de ambos os lados que a criação do Estado palestino, por si só, não alcancará este objetivo.
  3. Eu reconheço no discurso de ambos os lados que a paz virá através de um processo e que existe a necessidade de inciá-lo.

Entretanto, é possível apontar, sem muito esforço, a questão na qual estes dois segmentos se dividem.

É comum entre a ala dos esquerdistas, o sentimento de que a responsabilidade da solução do conflito repousa – primordialmente – nos ombros de Israel, por tratar-se do polo mais forte desta relação litigiosa. A esquerda denuncia que a falta de apoio israelense a líderes palestinos moderados contribui para a formação de um ciclo vicioso de guerras. O sentimento é de que estamos projetando uma realidade insana. Não fortalecer os moderados palestinos seria o mesmo que a prática de um auto-boicote: Israel estaria alimentando os seus inimigos e a paz que os direitistas “dizem” desejar jamais seria cristalizada.

É comum entre a ala dos direitistas o sentimento de que a responsabilidade da solução do conflito repousa, primordialmente, nos ombros dos palestinos, por tratar-se do polo que historicamente atacou e se opôs ao Estado judeu. A direita denuncia que não há parceiros moderados para o diálogo. Se é verdade que na sociedade Palestina há apenas aqueles que almejam a destruição de Israel, então todo governo palestino eleito pelo voto majoritário não reconhecerá Israel como o Estado Judeu. Esta realidade torna qualquer negociação impossível. Desta forma, estaríamos projetando uma realidade insana. Dialogar com quem quer nos destruir seria o mesmo que praticar um auto-boicote: Israel estaria apenas fortalecendo os seus inimigos e a paz que os esquerdistas “dizem” desejar jamais seria cristalizada.

Enquanto para a esquerda a solução do conflito se inicia com condutas diferenciadas do governo israelense, a direita não tem dúvidas de que condutas diferenciadas do povo palestino seriam o início do fim de décadas de guerras. Enquanto um pensamento põe a culpa em pessoas que formam a liderança israelense, o outro põe a culpa em pessoas que elegem (ou suportam) as lideranças palestinas.

Identifico entre estas linhas majoritárias de pensamento pontos extremamente relevantes. E não creio que se deva ignorá-los.

Como acredito que a sociedade palestina não é formada por terroristas islâmicos, reconheço que Israel erra profundamente ao não fazer o máximo que está ao seu alcance. É necessário o imediato congelamento de todas as construções em assentamentos. A insistência em continuar com a expansão nos territórios é a nossa forma de dizer ao povo palestino que nós não reconhecemos a possibilidade da existência de um Estado para este povo, da mesma forma que os acusamos de não reconhecerem o Estado de Israel como o Estado do povo judeu. É necessário um esforço e trabalho inequívoco para transformar a nossa nação em um país para todos os seus cidadãos com igualdade de direitos não apenas na letra fria da lei, mas também na realidade das políticas governamentais. Desta forma, reconheço o acerto do discurso da esquerda israelense.

Como acredito na existência de uma ideologia fundamentalista, que deseja aniquilar tudo o que não é islã, afirmo que os palestinos erram ao não fazer o máximo que está ao seu alcance para demonstrar o seu desejo em uma convivência pacífica ao lado de um Estado judeu. O insistente mantra que foca na vitimização e no sofrimento imposto a um povo por um “governo israelense invasor” deve cessar imediatamente. Não é possível que o povo palestino ignore a responsabilidade de suas más escolhas no passado e nas suas más escolhas no presente. É necessária uma mudança de postura inequívoca dos palestinos para que eles nos ajudem a fortalecer os defensores da democracia na sociedade israelense, na exata proporção em que eles nos pedem para fortalecer os moderados na sociedade deles. E desta forma, reconheço o acerto no discurso da direita sionista.

Sou um orgulhoso eleitor do Meretz e não me vejo mudando o meu voto nas próximas eleições. No cenário político atual, é um dos poucos partidos que exige o fim da construção e expansão de assentamentos judeus nos futuros territórios que formarão o Estado Palestino e que ocasionam tantos prejuízos morais a toda sociedade israelense. É o único partido que não condiciona condutas necessárias a serem realizadas por Israel a condutas necessárias a serem realizadas pelos palestinos. Mas fico extremamente decepcionado com o meu partido quando me deparo com a insistente acusação de que a ausência de paz nesta região é uma consequência direta de ações ou omissões do governo de Israel. Não é. 

Não creio que o povo palestino seja incapaz de construir um governo democrático e moderno ainda que todas as civilizações construídas sob os auspícios do islã representem a maior força antidemocrática no mundo atual. Para que os palestinos se tornem uma nação disposta a construir a paz com Israel, serão necessárias mudanças estruturais profundas em sua sociedade. Exigirá a aniquilação das leis que estabelecem regras autocráticas e a sujeição à submissão, que enfatiza a vontade de Deus acima da soberania do povo e encoraja a ampliação de suas fronteiras e o extermínio de infiéis. Mais do que isso, privilegia de forma não democrática os muçulmanos sobre os não-muçulmanos, os homens sobre as mulheres e os indivíduos livres sobre os escravos.

E por fim, a conclusão.

Como israelense, não tenho como influenciar diretamente nas escolhas dos caminhos a serem trilhados pelo povo palestino. Esta responsabilidade não me cabe e não está em minhas mãos. Eu não creio que Israel possa intervir de forma incisiva na sociedade palestina para “curá-la” de suas inúmeras lideranças que defendem um mundo anti-democrático e com a negação de liberdades. Este é um processo, uma luta e um entendimento que deverá surgir dentro desta sociedade e não há muito que podemos fazer para ajudá-los neste sentido.

Como israelense, é minha responsabilidade alertar para o perigo de se ignorar aquilo que os lados e os pensamentos antagônicos internos possuem em comum: os dois lados, esquerda e direita, precisam reconhecer que estão juntos neste local por um único objetivo – a existência de Israel como um Estado democrático do povo judeu.

E a partir do momento que devemos decidir juntos o futuro de nosso país, torna-se extremamente importante que possamos perceber que a nossa maior riqueza é a possibilidade do exercício de nossas diferenças. É justamente através de nossos diferentes pontos de vista que podemos compreender o outro pelas suas razões e não apenas pelas suas atitudes. Para que não exista dúvidas, eu afirmo que há excelentes razões nas atitudes da esquerda e da direita israelense. Esta percepção é a única forma de nos elevar como sociedade.

A criação do Estado palestino – certamente – não trará a paz. O reconhecimento da necessidade da existência do diferente, sim. E isto vale para os dois povos.

*foto de capa: Banksy

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Concordo que "É necessário o imediato congelamento de todas as construções em assentamentos" e que "É necessário um esforço e trabalho inequívoco para transformar a nossa nação em um país para todos os seus cidadãos com igualdade de direitos ...". Porém, caro Jayme e caro Marcelo Treistman, qual será a solução senão nem um estado palestino separado nem a ocupação eterna? No Haaretz de 2 de Fevereiro, Gideon Levy perguntou "Por que é tão duro para Judeus viver num estado que mantem esse estandarde judeu basico" quer dizer o mandamento: "Terás uma lei para estrangeiro e nativo” (Lev 24:22)? Gideon Levi assim como o advogado palestiniano Muhammed Dahla, o escritor Ali Abunimah e o empresario Tsvi Misinai favorecem a solução de um estado para os dois povos, enquanto o Judeu Misinai explica que 85 porcento dos Palestinianos são quase "Anussim", cujos ancestrais Judeus eram forçados a converter-se primeiro ao Cristianismo e depois ao Islão, para poder ficar na terra propria, e não poucos deles ainda ficam praticando costumes judaicos. Não é que o estado unico e democratico para será a solução natural? Claro que será dificil manter a definição de "Israel como um Estado democrático do povo judeu"...

Pensamento lúcido. Se a resiliência não for exercitada por ambas as partes, o impasse se perpetuará ; acirrando cada vez mais os ânimos.
Ceder e conceder exige desprendimento mútuo para não permitir que o fundamentalismo sepulte a paz.

Obrigado, Sérgio, para o seu comentário concordante. Percebi que no meu texto deixei uma frase incompleta: "Não é que o estado unico e democratico para ... será a solução natural? O erro aconteceu porque eu não sabia como chamar os Palestinos/Judeus: Os dois irmãos? Ou povos parentes? Ou filhos de Abraão? Ou que?

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