Afinal, o que é “ser judeu”? É professar uma religião, ou cultura/ civilização? Marx Golgher

Afinal, o que é “ser judeu”? É professar uma religião, ou cultura/ civilização? Marx Golgher

Pergunta fundamental de nossos dias: O que significaria ser um dos 13 milhões de indivíduos que se identificam no mundo como judeus?

Se debruçarmos sobre a indagação no momento atual constataremos que o povo judeu está dividido em duas concepções bem distante uma da outra, assumindo uma preocupante forte tendência de entrechoque entre os que vivem na Diáspora- 7 milhões de pessoas e os que vivem em Israel- 6 milhões de habitantes.
Partindo-se da evidencia de que apenas 25% de todos os judeus são religiosos que crêem que judaísmo é a observância de preceitos religiosos advindos da Tora, como englobar dentro da concepção de “ser judeu” dos 75% restantes seculares que não observam os preceitos religiosos, mas os fundamentos históricos da religião judaica? De fato, como reconhecer como judeu o mais empedernido materialista judeu a quem repulsa quaisquer liturgias, rezas e mitsvot, mas se curva diante o relato histórico da Tora, do discurso político-ético dos profetas, para compor o seu judaísmo?
Essa convergência de religiosos e não-religiosos judeus à mesma fonte de identidade a Bíblia Sagrada, o Tanach, provoca uma intensa ambigüidade na concepção do judaísmo de nossos dias. Mesmo no avaliar com segurança o que é “ser judeu” nos nossos dias, as dúvidas reais nos assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis, a tal ponto de diferenciar bem nos dias de hoje acepção de “ser judeu” em Israel inextricavelmente subordinada à ortodoxia religiosa judaica em nítido contraste com relação à liberdade conceitual da Diáspora a gerar um preocupante distanciamento com viés de confronto entre um e outro grande segmento do povo judeu.
Desse modo, para se conhecer o que é judaísmo como um todo, impõe-se descartar a identidade puramente religiosa e tratar de recorrer à concepção de cultura: “ (do latim colere, que significa cultivar) é um conceito de várias acepções, sendo a mais corrente a definição genérica formulada por Edward B. Tylor, segundo a qual cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.
Cultura judaica seria, segundo o intelectual judeu, Dujovne, “ al coherente repertorio de convicciones sobre el cual se asienta la vida de un grupo humano con sus creaciones y valoraciones. En nuestro caso se trata de determinar lo persistente y duradero de la cultura judía a través de diversos períodos de su historia. En comparación con otras culturas de Occidente, la judía es la cultura propia de un único pueblo, pero ha habido una simbiosis entre judaísmo y cultura europea, en extremo fecunda para la humanidad”.
Semeada, no nosso entender, durante o período reconhecido como Emancipação, pós a Revolução Francesa de 1789, processo interno e externo de libertação dos judeus da Europa, incluindo o reconhecimento de seus direitos como cidadãos iguais e a concessão formal de sua cidadania como indivíduos.
A Diáspora Ocidental de 1813 anos de vivencia “sem-Estado” passou assim a gozar a liberdade de “ser judeu” no Ocidente com ampla e garantida pelos Estados nacionais modernos e democráticos, oferecendo às comunidades todos os direitos civis, inclusive do casamento civil desfrutado pelo judeu agnóstico ou ateu. O judeu da Diáspora ocidental, se observante religioso- uma minoria esmagadora do povo judeu, poderá no entanto desfrutar da escolha das linhas religiosas das sinagogas conservadoras, reformistas, progressistas, etc.
Já a concepção de “ser judeu” em Israel em 1948, paradoxalmente, invés de libertar de vez o judeu a praticar a sua cultura com apoio total do Estado, colocou grilhões do judaísmo ortodoxo, tornando a condição de “ser judeu” no pais identificado na condição de ser um judeu ortodoxo, imprescindível para obtenção da cidadania israelense no território de Israel, excluindo a possibilidade da conversão ao judaísmo rabinato conservador, reformista, progressista, embora estas linhas religiosas judaicas sejam seguidas pela a maioria esmagadora dos judeus da Diáspora.

Efeitos de um equivoco histórico catastrófico:- o socialista Ben Gurion ao invés separar a religião do Estado, primeiro passo fundamental tomados por todos os Estados modernos democráticos, persistiu com o regime político-social arcaico e obscurantista do medievalismo islâmico implantado a partir de 1517 na Terra Santa sob o domínio do império turco-otomano, a dividir a população em segmentos religiosos diversos sob a égide do Islã. Sim , inacreditavelmente, Ben Gurion cedeu em Israel ao rabinato ortodoxo o monopólio ao exercício da religião judaica com efeitos civis, a restringir severamente a liberdade de a livre prática judaísmo religioso não-ortodoxo. Se Israel na área tecnológica ocupa ainda o topo do avanço no mundo, no que tange à parte social está bem atraso, na Idade Média, ao impor ao judeu convertido em Israel só pode seguir as interpretações e ritos do rabinato ortodoxo....
Na Idade Média, o individuo nascido na França, dever-se-ia sentir, antes e acima de tudo, vinculado à Igreja, depois à província em que nasceu , borgonhes, e só por último, francês. Com o surgimento do nacionalismo, quando o Estado moderno democrático deu o seu primeiro passo, separando-se da religião, foi invertida a ordem das lealdades. O sentimento de pertença à Nação de uma força incontrastável sobre qualquer outro de fundamento, seja religiosa, seja ideológica.
Ou seja, com o surgimento a invenção do nacionalismo na Europa nos século XVII, já foi invertida a ordem das lealdades do individuo no Ocidente. A referência à Nação, os seus fundamentos surgiram no decorrer da Revolução Francesa, 1789, com intensa militância do povo judeu em torno de seus ideais de “liberdade, igualdade, fraternidade”, como atesta a clássica obra do antissemitismo “Os protocolos dos sábios do Sião”, 1904, que atribui a autoria desse “horrendo” movimento democrático à conspiração internacional do povo judeu...
De fato, o mainstream da Diáspora ao se bater pela implantação dos ideais da Revolução francesa no mundo se transformou “ipso fato” em uma das comunidades mais importantes na formatação e avanço do comportamento humano na esfera política e social de nossos dias, como os direitos civis, os direitos do homem, da mulher e dos povos, o regime de governo democrático com as liberdades democráticas

Em contraste vivo com Israel que se pretende ser “único pais democrático no Oriente Médio”, mas que esta na contramão do processo de criação todos as nações democráticas modernas ocidentais, cujo primeiro passo para o seu primeiro passo foi a separação da religião do Estado, separando-o da crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada como criadora do Universo, e que como tal deve ser adorada e obedecida por todos os indivíduos do Estado.

De fato, embora se auto- defina como democrático, é em Israel que o judeu sofre dupla implicação entre uma proposição de “ser judeu” e sua severa restrição à ortodoxia, que caracteriza uma contradição insolúvel. Em Israel, o judeu SÓ goza de direitos civis, QUEM FOR ORTODOXO. Não sendo, excluí-se-lhe do direito de se casar, viver e morrer como judeu, se seguir preceitos denominações progressistas, conversadoras, reformistas, etc. É nada mais nada menos excluído da sociedade judaica israelense...Cerca de 350 mil judeus não-ortodoxos já sofrem essa dramática exclusão social, com o viés de aumentar cada vez mais Um preocupante apartheid interno...
Ser judeu” , pois, é entender o judaísmo, não como uma religião, mas como uma cultura Sim, “ser judeu” é pertencimento não a uma religião, mas a uma cultura explicitada como um conjunto complexo dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico, e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de comportamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais, etc. É o pertencimento a uma civilização, processo pelo qual os elementos culturais concretos ou abstratos de uma sociedade (conhecimentos, técnicas, bens e realizações materiais, valores, costumes, gostos, etc.) são coletiva e/ou individualmente elaborados, desenvolvidos e aprimorados. É esse processo cultural do judaísmo característico da Diáspora , mormente no pós Emancipação, pos a Revolução Francesa de 1789, que dirigiu o mainstream do povo judeu, lançando-o na vanguarda dos avanços culturais em todas as áreas do conhecimento humano.
A nossa esperança é que Israel se libere dos grilhões da ortodoxia e finalmente ingresse na cultura judaica....

Tags: identidade, judaica

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Respostas a este tópico

Senhor Noel,

Se, como o senhor mesmo diz, no primeiro parágrafo, a questão é mais complexa, por que, nos parágrafos restantes, apresenta soluções tão simplórias? Afinal, na escala das aberrações, a sua lógica, se já não for a mesma, parece estar a apenas um passo da lógica nazista. O senhor quer mandar os palestinos "para outras terras". Os nazistas mandaram seis milhões de judeus para o outro mundo.

Tolerantemente,

Jaime Leibovitch

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