JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana


Amós Oz: “Entre Amigos”

 

[ publicado no Haaretz em 15/03/2012 | traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR - www.pazagora.org

>> caso não consiga ler na íntegra, clique em http://www.pazagora.org/2012/entre-amigos-between-friends-novo-livro-e-entrevista/


Entrevista
de Amós Oz por Niva Lanir

Entre os personagens do novo livro de histórias curtas de Amoz Oz, aparecem Zvi Provizor, um jardineiro pessimista; David Degan, professor e marxista devoto, que reserva seu amor para a chazanut(canto litúrgico) e mulheres; Henya Kalish, cujo rico irmão quer bancar estudos na Itália para seu filho Yotam, enquanto este se pergunta se teria coragem para deixar o kibutz e partir para o mundo de mãos vazias; Nina Sirota, jovem de opinião, que não suporta ficar com seu marido nem por mais uma noite; e Martin Vandenberg, sobrevivente do Holocausto e sapateiro, cujo orgulho e alegria é o esperanto.

Alguns dos personagens de Entre Amigos (lançamento Keter Books, em hebraico‏) são reformistas crônicos do mundo, ainda que alguns deles entendem que tal tarefa está além de suas capacidades e apenas remendam  o que aconteceu de errado nas suas vidas. Outros, como Nina, esperam que “nos próximos 10 ou 20 anos, o kibutz irá se tornar um lugar bem mais tranquilo. Agora, todas as cordas já estão esticadas até o limite e a máquina toda ainda está se agitando com muito esforço”.

Enquanto isto, no Kibutz Yikhat, ao final dos ‘50s, pessoas vagam pelas trilhas e suas vidas ficam emaranhadas e se partem. Amós Oz os observa – seus medos, agruras, esperanças e anseios com um olhar sóbrio, com toques leves e delicados, com empatia. Oferece aos seus leitores uma forma de homenagem ao seu próprio passado, ou talvez recordações e despedidas vindas de longe. Afinal, a máquina há muito parou de se agitar.

Em 1965, 47 anos atrás, Amós Oz publicou seu primeiro livro – Where the Jackals Howl [Onde os Chacais Uivam] – uma coleção de histórias tendo como cenário a vida de kibutz. Eventos sérios aconteciam nos campos da comunidade coletiva e por trás das portas fechadas das suas casas. Havia pouco folga, se é que havia alguma, no Jackals. As histórias de Entre Amigosforam escritas num tom diferente e com um tipo muito diverso de olhar.

“Fazia uns 40 anos que tinha escrito Where the Jackals Howl, diz Oz, que fará 73 anos em maio, “mas lembro que as histórias eram sobre paixões fortes. As histórias em Entre amigos são sobre renúncia e ansiedade. O kibutz é o mesmo kibutz. Existe uma cerca. O que está dentro da cerca é iluminado, o que está de fora – os pomares, os wadis[riachos secos] e as ruínas da aldeia árabe – ficam no escuro. No primeiro livro, o olhar era mais pelo lado de fora, enquanto aqui o foco é mais interior”.

 

1ª parte - Vida no kibutz

Yikhat é um nome estranho para um kibutz. Por que Yikhat?



Escolhi este nome por causa da associação distante [em hebraico] com algo preciso e enfadonho. O primeiro ideal do kibutz era preciso: transformar instantâneamente a natureza humana. Efetivamente, eles [os fundadores] assentaram-se como num acampamento de jovens, na crença inocente de que teriam para sempre 18 ou 20 anos.


Um acampamento de jovens que haviam se libertado dos pais, de todas as proibições e inibições do shtetl[aldeia de judeus na Europa Oriental] e da religião judaica – um acampamento no qual tudo é permitido, inundado por um êxtase permanente, onde a vida está sempre num pico. Você trabalha, discute, ama e dança até perder as forças. Era infantil, claro.

 

Amos Oz com o amigo Oded Kotter - Kibutz Hulda 1974

 

Com o tempo, tornou-se tedioso. E então, o que aflorou foram as constantes da natureza humana. A vulnerabilidade, o egoísmo, a ambição, o materialismo e a ganância. Foi um sonho abandonado, imaginando que seria possível triunfar sobre todas aquelas forças, renascer e criar um novo ser humano sem as limitações do velho.

Como em tudo que escrevo, a fonte de Entre amigosé a curiosidade. Levanto todas manhãs às 5 [em Arad], caminho por meia hora pelo deserto, volto para casa e tomo uma xícara de café, sento à mesa e me pergunto o que diria eu se fosse ele, o que faria se fosse ela.

Acho que uma pessoa curiosa é um pouco mais moral do que uma que não é, porque às vezes entra na pele de outra. Acho que uma pessoa curiosa é até uma melhor amante do que uma que não o seja. Mesmo a minha abordagem política para a questão palestina, por exemplo, saltou da curiosidade. Não sou um especialista em Oriente Médio, nem um historiador ou estrategista. Apenas me perguntava, desde muito jovem, como eu seria se fosse um deles.

Então, é isto o que faço – levanto de manhã e me pergunto: E se…?  É assim que vivo e assim que escrevo. E é assim que também nasceu este livro. Da curiosidade que saltou em mim, sobre pesonagens que vêm de não sei onde e começa a me coçar.

 

O livro foi escrito como uma despedida do kibutz?

A verdade é que eu nunca deixei completamente [o kibutz] Hulda. Muitos dos meus sonhos acontecem ali, refletindo uma relação não resolvida com o kibutz.

Eu não saí abruptamente. Saí por causa da saúde do meu filho Daniel. Havia algumas coisas que não me agradavam na vida do kibutz. Mas sinto a ausência das coisas de que gostava. E neste livro procurei voltar e olhar para elas. Especialmente para a solidão de uma sociedade na qual (supostamente) não havia espaço para solidão. Em algumas das histórias, é retratada uma situação de “quase toque”. As pesoas quase que se tocam, mas algo as bloqueia. Como na pintura de Michelângelo onde as pontas dos dedos quase se tocam.

Tenho muita curiosidade sobre a solidão e o encanto, ou por momentos de encanto em meio à solidão, porque descrevem a condição humana. As histórias se desenvolvem num kibutz, mas falam de situações universais, sobre as forças mais básicas da existência humana. Sobre solidão. Sobre amor. Sobre perda. Sobre morte. Sobre desejo. Sobre renunciar e sobre ansiar.

Na verdade, sobre as questões simples e profundas familiares a qualquer pessoa.
Conheci um velho kibutznik– Ephraim Avneri. Eu gostava muito dele. Ephraim Avneri costumava dizer: ‘Durante os primeiros dias do kibutz, eu era sozinho como um dedo’. Eu não entendia isso. Afinal, o dedo é parte de um grupo. Até que entendi: quando um dedo está ereto e os outros dobrados, a solidão é dobrada.

É muito difícil escrever sobre gente boa. É muito mais fácil escrever de pessoas que são perversas, perturbadas ou depravadas. Este livro é sobre gente comum que perdeu alguma coisa. Que não sabe o que, nem onde, mas está procurando. Também há histórias sobre a ambição que muda o mundo. Sobre os que querem reformar o mundo e sobre a tragicomédia de reformadores do mundo. Gente que acredita que se apenas  segurassem um cordão de sapato e o puxassem, seriam capazes de mudar o mundo.

No enterro de Moshe Hess, um dos veteranos de Hulda, com o túmulo cercado por ‘gente velha’ dos ’60 e ’70, rostos com as cabeças cobertas, um dos jovens explodiu – ‘Vocês tem de saber que são os judeus mais maravilhosos que produzimos desde a destruição do Templo. Nenhum judeu antes carregou em seus ombros o que vocês carregam e nenhum o fará despois de vocês’. Em Entre amigos, olho para essa gente mais uma vez. Não apenas para a carga que carregaram. Também para o seu fanatismo, seu dogmatismo e sua devoção quase-religiosa.

 

Em Um Conto de Amor e Escuridão você escreve: ‘Aí, na idade de 14 e meio, alguns anos após a morte da minha mãe, matei meu pai e todos de Jerusalém, mudei meu nome e fui sozinho para o kibutz Hulda para viver ali sobre as ruínas’. Como um menino de 14 anos e meio toma uma decisão tão complicada? E como lembra sua chegada a Hulda?


Fui para Hulda para me rebelar contra meu pai. Queria ser tudo aquilo que ele não era e não ser o que ele era. Ele era um estudioso, decidi ser motorista de trator. Ele era de direita, tornei-me um socialista. Ele era baixo, decidi ser muito alto. Esta não funcionou.
Cheguei sozinho, com uma grande mochila que eu mal conseguia carregar, e fui procurar Ozer Huldai, o diretor da escola. Era assustador morar num quarto com dois estranhos e sair da cama às 5:30 da manhã para trabalhar

Havia um campo de beterrabas em Hulda, e tínhamos que arrancá-las da terra. As beterrabas eram grandes e eu era pequeno. Imaginava que seria duro vencer um dia de trabalho, mas não tanto. Perigo de vida. Martírio. Após 10 beterrabas, sabia que não ia conseguir, mas eu me dizia: tenho que fazer. Ficava atrás da linha [dos trabalhadores] porque todos eles eram grandes e bronzeados e robustos, enquanto eu era fraco e pequeno. O mais duro é que eu ficava atrás até das meninas. É difícil em qualquer lugar ser o menino fraco, mas é ainda pior numa sociedade que exalta a resiliência e a resistência. Foram tempos duros. As pessoas caçoavam de mim. Faziam graça, me agrediam.


Você era o que se conhece na linguagem do kibutz como ‘garoto de fora’…

Eu era um garoto de fora, mesmo antes de chegar a Hulda. Ser um garoto de fora é uma condição existencial, não uma condição no kibutz.

 

Como você escolheu o nome “Oz” [no lugar do sobrenome original Klausner] ?

Aos 14 anos e meio, Oz [“força” ou “poder” em hebraico] era exatamente o que me faltava. A escolha do nome foi um assobio no escuro, para me encorajar.

 

Foi correta sua decisão de viver em Hulda “sobre as ruínas”?

Não me arrependo disto nem por um segundo. Lamento algumas das experiências que meus filhos tiveram no kibutz. Houve algumas ocasiões duras, mas deixei Hulda sem raiva. Para mim, o kibutzfoi a universidade mais avançada sobre a natureza humana. Passei 30 anos com 300 pessoas numa proximidade íntima.

Eu via tudo – eles e suas vidas – e conhecia seus segredos. Se eu tivesse passado 30 anos em Tel Aviv ou New York, não teria tido a menor chance de me tornar tão intimamente ligado a 300 almas. O preço é que eles sabiam sobre mim mais do que eu gostaria que eles soubessem. Mas este é um preço razoável. Em termos do que escrevo, ou aprendi no kibutzmuito do que sei sobre a natureza humana.

 

Existem algumas descrições impiedosas em Entre Amigos. A culpa é do kibutz?

Alguém que vive numa sociedade comum e tem uma infância nojenta culpará os pais. A mesma pessoa, se viver no kibutz com as mesmas crianças nojentas, culpará o kibutz. Alguém que viva numa sociedade regular e não satisfaça suas ambições culpará a si próprio ou o patrão. Se viver no kibutz, irá culpar o kibutz.

Diferentemente de outros, eu não mato mais vacas sagradas. Houve um tempo em que o fazia. Não hoje. Em qualquer estábulo existe uma velha vaca doente cercada por um rebanho de animais exultantes.  Eu fico sempre do lado da vaca. Não é por que eu não saiba do fedor que a vaca põe para fora. Tampouco porque eu a cultue. Mas entre a vaca e e os açougueiros que ficam em volta – eu prefiro a vaca. Eu estou falando de sionismo, de kibutze de movimento trabalhista.

 

Em seu livro de memórias Um Conto de Amor e Escuridão, Oz descreve suas ansiedades como escritor novato. Ler Hemingway e Remarque elevou seu espírito, mas também o encheu de receio. Não havia tido as suas experiências tumultuadas de vida, de guerra e de luta pela liberdade. “Ninguém que não tivesse experienciado aquele mundo poderia receber nem meia autorização temporária para escrever histórias ou romances”, escreveu. Mais ainda, um escritor precisava viver num “lugar de verdade” Paris, Madrid, New York, Monte Carlo. “Mas aqui, no kibutz, o que havia? Um galinheiro, um celeiro, casas de crianças”…

Oz encontrou a solução para este problema em Winesburg, Ohio, uma coletânea de histórias de Sherwood Anderson publicada em 1919. Em Um Conto de Amor e Escuridão, Oz observa que o trabalho de Anderson “era uma sequência de histórias e episódios que nasciam umas das outras, conectando-se entre si, particularmente porque todas elas se davam numa única pequena cidade provinciana, pobre e esquecida. Era habitada por gente simples: um velho carpinteiro, um jovem sem compromisso, um dono de hotel e uma camareira. As historias também se conectavam umas às outras porque os personagens passavam de história em história: Os personagens centrais de uma história reapareciam como coadjuvantes em outra”.
Os personagens e eventos em Winesburg, Ohioeram o que Oz “supunha não terem lugar na literatura”. Eles ficavam, pensava até então, abaixo de uma faixa de aceitabilidade”.

 

2ª parte – Escrever no kibutz 

Agora emerge que, em Um Conto de Amor e Escuridão, Oz oferece uma descrição precisa para as histórias de Between Friends, que ele publicaria 10 anos depois daquela obra monumental. Anderson, escreveu Oz, “abriu meus olhos para escrever sobre o que estava à minha volta. Graças a ele, percebi que a palavra escrita não depende de Milão ou Londres, mas sempre revolve em torno da mão que escreve, onde quer que seja: O lugar onde se está é o centro do universo”.

Assim foi que naquele distante studio de Hulda ele colocou um caderno simples sobre uma mesa, junto com uma caneta e um lápis com uma borracha, um garrafa térmica e uma xícara de plástico. E ali, no centro do universo, sentava-se para escrever suas primeiras histórias. Temos todos um grande débito com Sherwood Anderson.

 

Isso era difícil?

Não era fácil escrever no kibutz. Após publicar algumas histórias, fui à mazkirut (comitê que tomava as decisões do coletivo) e pedi um dia por semana para escrever. Uma grande discussão. ‘Um precedente’. ‘Qualquer um pode dizer que é um artista. E se todos forem artistas, quem ordenhará as vacas’? Um dos membros da mazkirut, ‘veterano’ de 45 anos, disse: ‘O jovem Amós pode ser o novo Tolstoy, mas o que conhece ele sobre pessoas? Deixem-no trabalhar no campo até seus ’40, e aí ele escreverá’.

Recebi um dia da semana para escrever – desde que trabalhasse a mais nos outros dias. Publiquei um livro e mais outro e voltei hesitante à mazkirut: ‘Quem sabe vocês possam me dar mais um dia para escrever?’ Grande disussão. ‘Um precedente. Quem ordenhará as vacas?’ Discussão na assembléia geral semanal. Deram-me dois dias. O que foi seguido por uma aumento suado para três dias. Quando começou a entrar dinheiro dos meus livros, o coordenador do kibutz chegou e me perguntou, após balbuciar, se o resultado poderia ser aumentado caso um ou dois aposentados me ajudassem.

A verdade é que eu tive um público leitor ali mesmo em Hulda – gente que dizia direto na minha cara o que gostava e o que não gostava. Claro, era proibido que eu usasse pessoas de Hulda como modelos. E eu realmente não o fazia. Havia um membro do kibutz, Meir, que me contou – ‘Antes de passar sob sua janela, paro para me pentear para que, se eu entrar em uma de suas histórias, pareça arrumado’.

Mas não havia razão para ele parar. Não coloquei nenhum deles nas minhas histórias, pelo menos numa forma em que alguém pudesse se reconhecer. E mesmo que isso acontecesse, eles não se ofenderiam, porque as pessoas geralmente têm uma opinião tão boa sobre si mesmos que, mesmo que você os descreva com precisão, não se reconhecerão e não ficarão ofendidos.
 Você tinha consciência da preocupação que a monumentalidade de Um Conto de Amor e Escuridão paralisaria sua escrita?

Não existirá nenhum “Um Conto de Amor e Escuridão – A Continuação” ou “O Filho do Conto de Amor e Escuridão” . Ao longo de todos esses anos eu procurei – com sucesso, espero – não escrever duas vezes o mesmo livro.

 

Qual a diferença entre escrever histórias curtas e romances?

Para alguém que escreveu alguns romances, escrever uma história curta é um desafio muito difícil. É como alguém acostumado a viajar de país em país com grandes malas, e de repente lhe dizem. ‘Esta vez você vai viajar só com uma bagagem de  mão’. Você precisa ser bom em preparar bagagens para escrever uma história curta.

 

3ª Parte – Reconciliação

Em O Mesmo Mar (1999‏), você escreve sobre si próprio e seus pais. No capítulo “Minha mão na trava da janela” você fala com eles e pergunta se ambos estão descansando em paz. “Pelo menos, vocês não podem brigar por minha causa” você lhes diz: ”Sou bem arrumado, trabalhador e bem sucedido. Trago para você mais e mais orgulhos e alegrias, um bom aprendiz de feiticeiro. Estou cansado, mas nunca desisto”.

Foi ali que você plantou as sementes de aceitação e conciliação para Um Conto de Amor e Escuridão e Entre Amigos?

Por muitos e muitos anos eu fui furioso com a minha mãe por ela ter cometido suicídio, como se ela tivesse fugido com um amante e nos abandonado sem deixar um bilhete. Com o meu pai, por tê-la perdido e por aparentemnte ter sido uma pessoa horrível – pois se não o fosse não a teria perdido. E comigo, por certamente ter sido uma criança terrível pois, se não o fosse, eu não a teria perdido.

“Porque quando vocês viviam não conversávamos. O que quero dizer ao falar que não conversávamos? Nós falávamos sem parar – sobre Ben-Gurion, Stalin, o Livro Branco e imigrantes ilegais – mas não conversávamos sobre coisas importantes: sobre sentimentos. Sobre de onde viemos, quais eram as nossas esperanças e o que encontramos. Então, venham tomar uma xícara de café e conversemos. Depois, sigam os seus caminhos”.

Não quero que os mortos fiquem na minha casa, mas apenas que me visitem às vezes em encontros rápidos para falar sobre coisas importantes.

Nas histórias de Entre Amigos fiz o mesmo, convidando personagens à minha casa, vivos ou mortos e dizendo-lhes: “Sente, vamos falar sobre renúncias, sobre sonhos. Falemos de perdas. Falemos de procuras. Falemos do esforço humano para tocar outro ser humano, tocar o outro. Conversemos sobre coisas sobre as quais normalmente não falamos”.

 

4ª parte – Ativismo Político

Oz publicou suas primeiras histórias no jornal literário Keshet em 1962. Uma delas era sobre um paraquedista que morreu numa demonstração de paraquedismo no Dia da Independência de Israel, outra sobre um ataque de represália israelense no anos ’50. Em maio de 1962, Oz já estava entre aqueles cujos trabalhos foram publicados na primeira edição de um jornal publicado pelo Min Hayesod, um grupo de ativistas dentro do Mapai [partido trabalhista, então no governo]. Entre os demais colaboradores estravam pensadores famosos como Nathan Rotenstreich, Shlomo Grodzensky, Dan Horowitz e Eli Schweid, além do ex-ministro da defesa Pinhas Lavon.

O “Caso Lavon” foi um decorrência do “caso podre” no qual judeus egípcios que espionavam para Israel foram pegos, e deixados ao seu próprio destino. Gerou batalhas titânicas. Israel foi bombardeado por campanhas eleitorais, demissões e comissões de inquérito. O Mapai, precursos do Avodá, foi dilacerado por lutas pelo poder entre David Ben-Gurion e seus apoiadores e a liderança do partido sob Levi Eshkol e Golda Meir.

Lavon, ministro da defesa à época do debacle de espionagem, foi removido do posto de chefe da confederação trabalhista. Recusou-se a desaparecer e criou o grupo Min Hayesod. O grupo teve seu encontro de fundação no bosque de Hulda. Foi a primeira aparição de Amós Oz como ativista político.

 

Por que você não abordou nos seus escritos o Caso Lavon e o Min Hayesod?

Meus dias de escritor ainda não se acabaram. Talvez escreva sobre isso. Por enquanto entendo que, para mim, a revolta contra Ben-Gurion foi a continuação da minha revolta contra o meu pai. Ben-Gurion era onipresente. Sua figura era completamente dominante.

Hoje, quando as pessoas falam sobre o primeiro-ministro e o ministro da defesa, não têm idéia de quão esmagadora era a figura de Ben-Gurion no início dos anos ’60. 

Ele era, de fato, o pai da nação. E Lavon – em nome de algum ideal de voluntarismo e a centralidade do indivíduo – criou caso com ele e contra o culto ao Estado como ferramenta. Àquele tempo, havia algo de libertário na luta de Lavon. Hoje vejo Ben-Gurion, com todos os seus defeitos, como um gigante político. Naquela época, só via os seus defeitos”.

Por mais de 50 anos, Oz publicou ensaios e ficções no Davar ‏(o hoje finado órgão da Histadrut – Confederação Sindical‏), Shdemot ‏(revista literária do movimento kibutziano), Emdá ‏(órgão da esquerda, publicado entre 1974 e 1999‏), os grandes jornais Yedioth Ahronoth e Haaretz, assim como em veículos líderes na Europa e Estados Unidos. Em 1967, foi um dos moderadores das conversações que viriam a ser publicadas como O Sétimo Dia, coletânea de reflexões de soldados sobre a Guerra dos Seis Dias.

 Em 1961, Oz teve a coragem de enviar uma resposta a um artigo que Ben-Gurion havia publicado no Davar. Alguns dias após sua publicação, Ben-Gurion respondeu-lhe no jornal, na forma de um longo ensaio. 

 Houve grande agitação no refeitório comum do Kibutz Hulda. quando uma chamada telefônica de suprema importância foi recebida: Amós Oz estava sendo convidado a se reunir com David Ben-Gurion. A história da reunião marcada para o início da manhã no complexo de defesa em Tel Aviv, é suculenta (foi recontada em Um Conto de Amor e Escuridão ). Seus leitores pareciam como moscas no muro do escritório de Ben-Gurion, onde o ‘pai da nação’ parecia extenuado sob os olhos espantados de Oz. Ainda que Oz ocupasse apenas uma pequena parte, a história contém uma boa pista do nascente envolvimento político do escritor.

Em 1970, no auge da Guerra de Atrito, foi realizado um simpósio no Clube Tzavta de Tel Aviv [ainda hoje um reduto da esquerda) para marcar o 3º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Entre os participantes estava a primeira-ministra Golda Meir. “Com o que você sonha?”, perguntou-lhe Oz. “Eu não tenho tempo para sonhar”, respondeu ela com uma carranca. “Não posso dormir, porque o telefone toca o tempo todo com notícias sobre baixas”.

 A reação rabugenta despertou furor na mídia e marcou o início de um caloroso debate politico sobre o futuro dos territórios que Israel havia conquistado em 1967 e como Israel deveria atuar no front diplomático. ‏(Após a morte de Meir, o líder do partido esquerdista Mapam, Yaakov Hazan, disse que ela lhe havia admitido que a pergunta de Oz a tinha tomado de surpresa e a tinha ferido. Isto, explicou ela, “foi a razão de eu ter ‘gaguejado’ na minha resposta, porque eu não queria responder”.

 Em 1973, antes da erupção da Guerra do Yom Kipur, Oz anunciou seu apoio ao partido Moked, liderado pelo ativista pacifista Meir Pail. Em 1977 apoiou o pacifista Aryeh “Lova” Eliav e, após – exceto por uma passagem pelo Avodá sob Shimon Peres – apoiou o Meretz, cujas plataformas defendem direitos civis e paz. Às vésperas das últimas eleições, declarou: “O partido Avodá concluiu seu papel histórico”. Essa observação irou o então líder do partido, Ehud Barak, que reagiu depreciando a capacidade de Oz como historiador.

Golda Meir e Ehud Barak visivelmente tiveram dificuldade em reagir a uma simples verdade: Amós Oz é um homem e escritor corajoso. Em seu espírito, no que escreve, no protesto e na persistência. Por muitos anos – 50 para ser exato – ele combate por crenças e opiniões.

 

5ª parte - PAZ AGORA

Por mais de 40 anos, ele tem instado pela divisão da terra em duas nações. Escrevendo, falando e trabalhando contra a ocupação, a tirania e a força bruta. Defendendo que nosso domínio sobre outra nação põe em perigo a existência de Israel no Oriente Médio. Nenhuma platafora de mídia, em Israel ou no exterior, rejeita um artigo seu ou uma entrevista com ele.

Pode não surpreender que o garoto que foi para o Kibutz Hulda aos 14,5 anos para viver “sobre as ruínas” e publicou 27 livros traduzidos em 41 línguas, também se tenha comprometido com uma luta teimosa sobre as ruínas da nossa vida e não tenha vacilado quanto a isso. Ainda assim, ele poderia se ter concentrado no seu trabalho literário, se afastado de questões politicas  e se poupado da raiva daqueles que perguntam “Quem lhe deu o direito de se manifestar?”

E a crítica daqueles, tanto na direita quanto na esquerda, que dizem que ele fala demais ou de menos. Mas Oz mantem-se decidido. Talvez ele não estivesse apenas assobiando no escuro quando, ainda adolescente, mudou seu nome.


Você tem publicado menos ultimamente …


Por anos, escrevi não apenas para os ‘convencidos’ ou os oponentes, mas precisamente para os hesitantes. Estou escrevendo menos agora, porque tenho a sensação de que o hesitante tornou-se indiferente e apenas os convencidos me lerão.

Não vejo sentido em escrever para aqueles que concordam ou para os dissidentes. Não tenho interesse em denunciar meus opositores ou em fazer troça deles. Não tenho interesse em ventilar nuances em nome de uma comunidade dos convencidos que já se tornaram arejados por tanta ventilação.

 

Mas assim você não está ajudando a indiferença?

Continuo a fazer minha voz a ser ouvida e a expressar minha opinião em palestras, outras aparições e assinando declarações públicas. Na esperança de que, apesar de tudo, minha voz tenha ouvintes.

 

Hoje se fala sobre “paz morta” e a remoção da agenda de um acordo com os palestinos...

A paz de que falo tem estado sobre a mesa por muitos anos e está esperando por nós. Tudo o que devemos fazer é agacharmos e pegá-la. Ou, mais cautelosamente, é possível ainda reduzir o conflito israelense-palestino a um conflito entre Israel e Gaza. Todos sabem o preço: dizer adeus aos territórios. Concordar com duas capitais em Jerusalém e a existência de um Estado Palestino na Cisjordânia. Na verdade, não vejo isto como um preço, mas como um valor adicionado ao futuro de Israel.

Colocando de forma simples: se não houver dois Estados aqui, haverá um Estado único. E se houver o Estado único, desaparecemos.

Os apoiadores da paz receberam um golpe potente após a evacuação de Gaza. Por anos, nos disseram que se deixássemos os territórios haveria paz. Deixamos Gaza e vieram os foguetes Qassam. Este foi um golpe muito difícil, embora possamos argumentar que era necessário deixar Gaza, mas não devíamos tê-la entregue ao Hamas numa bandeja de prata. Mas este é um argumento do tipo ‘se tivéssemos...’

O fato é que, por todos esses anos, dizíamos que, se saíssemos de Gaza, iriam acontecer coisas boas. Saímos e se seguiram coisas ruins. É difícil lidar com isto. Posso dizer que não tenho dúvida de que, se tivéssemos ficado em Gaza, o preço em sangue teria sido muito maior do que pagamos desde que saímos. Posso afirmar isto, mas não ajuda face ao simples argumento  de que ‘saímos e veja o que aconteceu. Saímos como tontos’.

Netanyahu e Barak - alegres covardes

A maior parte dos israelenses ainda concorda em deixar a Cisjordânia com modificações de fronteiras. Mas não estão dispostos a sair como tontos. [O primeiro-ministro Benjamin] Netanyahu e [o ministro da defesa Ehud] Barak obteriam uma grande maioria no Knesset se declarassem, amanhã, sua disposição a deixar os territórios. O que os impede é seu medo – o medo de lidar com os fanáticos e o medo de que aconteça o mesmo que em Gaza.

Netanyahu e Barak são covardes. Eles sabem o que deve ser feito mas não se atrevem. Também têm medo de parecerem tontos.

Enquanto isto, abandonaram a questão palestina e alertam o mundo para o desafio iraniano…

Em vez de se mover rumo a um acordo com a Autoridade Palestina, estão se chicoteando freneticamente para um ataque ao Irã. Tal ataque não seria de muita valia, porque não se pode bombardear o conhecimento nem a motivação, e os iranianos têm ambos para fazer armas nucleares. Mesmo que um ataque ao Irã possa postergar a manufatura de armas nucleares por um ano ou dois, ele aumentaria ilimitadamente  a motivação de usar tais armas.

Durante a primeira Guerra do Líbano, [o primeiro-ministro Menachem] Begin falava de ‘Hitler escondido num bunkerem Beirute’.  Escrevi naquele tempo um artigo intitulado  ‘Hitler Já Está Morto, Sr. Primeiro-Ministro’. O que está escrito naquele artigo, agora dirijo a Netanyahu. Qualquer um que comparar o Irã de hoje a Hitler, e Israel a Auschwitz, está cometendo um ato anti-sionista e demagógico, estimulando gente a emigrar de Israel e semeando a histeria.

Você me pergunta se estou preocupado? Não estou apenas preocupado. Estou com medo. Vejo processos e tendências que estão ameaçando tudo o que me é caro. Até mesmo a existência do Estado de Israel.

 

[ publicado no Haaretz em 15/03/2012 | traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR  ]


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