JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

MARTIN BUBER:Uma Terra e Dois Povos KALMAN YARON 


- traduzido pelo PAZ AGORA|BR -original no site “Relações Judaico-Cristãs”

O problema Israel-Palestina está ancorado no fato trágico de que a “Terra Prometida“ foi, no fundo, prometida duas vezes: uma vez, segundo a Bíblia hebraica, a Isaac, e outra vez, segundo a tradição islâmica, a Ismael, os dois filhos de Abraão. Um dos meus amigos árabes até redigiu um filme com o título “A terra duas vezes prometida” (‘The Twice Promised Land”). A terra prometida duas vezes, que segundo a Bíblia, devora os seus habitantes, está no centro do conflito judaico-árabe de cem anos. Ambos os povos reclamam ao mesmo pequeno pedaço de terra. Ambos os povos amam esse país, ambos partem de que só eles - e não o outro - têm direito a esta terra, e não estão claros que os seus direitos têm limites ali onde o direito do outro começa.
O primeiro presidente do Estado de Israel, Chaim Weizmann, disse uma vez: “A tragédia do conflito judaico-árabe jaz em que ambos os povos têm direito, mas nós temos mais direito.”
O dilema de um único país para os dois povos estava no centro da atividade política de Buber. A vida e trabalho de Martin Buber estão ligados mais estreitamente à renovação de Israel, e sua luta por Israel se estende sobre mais que seis decênios. No seu engajamento político, Buber discutiu questões que apontavam naquele tempo, como hoje, para os problemas urgentes e não resolvidos na convivência entre judeus e árabes.
Ainda antes da sua imigração à Palestina, Buber chegou a ser membro da “Brit Shalom” (Aliança de Paz), uma organização para promoção do entendimento judeu-árabe. À ela amigos íntimos de Buber pertenciam, como Hugo Bergmann, Hans Kohn, Gerschom Sholem e Ernst Simon. Desde a sua imigração à Palestina no ano de 1938, trabalhou com grande engajamento pelo entendimento entre judeus e árabes.
Segundo o ponto de vista moral-político de Buber, a questão árabe fazia parte essencial da questão intra-judaica. Partiu de que o comportamento dos judeus em relação aos árabes representava parte constitutiva integral do judaísmo, da mesma forma como o anti-semitismo patológico põe em questão a credibilidade dos princípios cristãos. Com a fundação do Estado de Israel, a questão árabe se mostrou de fato como crítica para os valores do Judaísmo.
O Sionismo Crente e a Política Real
O sionismo crente de Buber está em contraste agudo com a assim chamada “política real” (ou ‘política de poder’, como Buber a chamava), a qual ignorava a presença árabe na Palestina. Numa discussão sobre o sionismo e a Bíblia, Buber disse que o Livro dos Livros iria existir eternamente, inclusive sem o sionismo; seria, porém duvidoso se o sionismo, que se apóia na Bíblia pudesse sobreviver sem ela. A Bíblia hebraica impõe, segundo Buber, a maior exigência sobre Israel: “O que ela tem a nos dizer é que há verdade e mentira, e que o sentido e a consistência de ser humano jazem em se decidir pela verdade e contra a mentira; que há o certo e o injusto, e que a salvação da pessoa humana depende de que ela escolha o correto e rejeite o injusto.” Buber referenciava o humanismo hebraico especialmente aos árabes palestinos.
O movimente de renascença judaico, o sionismo, deveria, segundo Buber, estar ancorado no humanismo judaico, este que designava como o “caminho da santidade”, ao contrário do “egoísmo santo” do mundo como um todo. A posição de Buber quanto ao sionismo e a questão árabe encontrou a sua expressão em 1921, no XIIº Congresso Sionista em Karlsbad, onde a questão da atitude sionista perante os árabes foi discutida. Buber se dirigiu nesse foro ao mundo árabe com o seguinte discurso: “Nesta encruzilhada histórica, quando voltamos à terra dos nossos pais, o povo judeu proclama o seu desejo de viver com os árabes em paz e fraternidade, e de poder desenvolver livremente a pátria comum para uma comunidade de povos, na qual ambos os povos se possam desdobrar livremente.”
Buber podia distinguir entre “política de longo prazo” e “política pouco inteligente”. O seu prognóstico político aos relacionamentos futuros entre os dois povos se reflete numa carta que escreveu em 1929 (mais de 60 anos antes da intifada), depois da onda de ataques árabes aos judeus na Palestina, ao seu amigo Hans Kohn: “Depois da insurreição, o movimento nacional árabe se conseguiu organizar pelo primeira vez de forma abrangente mobilizando o povo inteiro. O nosso dever seria terminar a situação aberta de guerra, tão rápido como possível, com propostas de paz, mas não fazer todos os sofismas possíveis. Qualquer impedimento no caminho a um acordo de paz aumentará o abismo entre os dois povos ainda mais.
Os seus pronunciamentos cortantes referentes ao Ishuv (a minoria judaica na Palestina), tornaram Buber impopular em seu próprio povo. Costumava-se dizer que, no começo, os conhecimentos de Buber da língua hebraica não eram suficientes para se fazer entendido.
Um amigo íntimo de Buber, Gershom Sholem, disse ironicamente: Buber, o velho judeu polonês, que foi testemunha do Holocausto, se identificava mais com os vencidos, ou seja os árabes, do que com o vencedor. Temia que, pela nossa vitória, perdêssemos a nossa imagem de Deus que os nossos inimigos nos ensinaram a guardar dentro de nós e a respeitar dentro dos outros. Por causa da sua atitude crítica referente ao judaísmo ortodoxo, foi também designado como “anarquista religioso”.
A aspiração de Buber por uma Confederação do Oriente Médio, que abrangeria ambos os povos da Palestina, provou-se, com o tempo, uma concepção utópica. Sob o ponto de vista político, Buber foi condenado ao isolamento por ambos os lados. A sua atitude crítica ao sionismo e ao judaísmo tradicionais justificaria que a fama de Buber é maior no estrangeiro do que em Israel, sendo que a sua influência no mundo cristão é muito mais forte do que em círculos judaicos.
Teólogos cristãos designam Buber como intérprete principal do judaísmo para o mundo não-judaico. O judaísmo ortodoxo o culpa de ter minado a consciência judaica, acelerando assim a assimilação. Simultaneamente, entre judeus liberais, é considerado como o grande porta-voz do judaísmo no nosso século.
Deve, todavia, ser enfatizado que a oposição de Buber ao sionismo oficial foi designada, dentro do sionismo, como uma “solidariedade crítica”. Em contraste à “política real” de Theodor Herzl, mas de acordo com Achad Haam e Chaim Weizmann, Buber enfatizava o nível cultural do sionismo com a afirmação de que, sem renovação espiritual, não existiria chance para a ressurreição nacional.
Apesar do “respeitoso isolamento”, Buber encontrou correligionários nos círculos socialistas, os quais pertenciam ao “Ichud” (a “União para Aproximação Judaica-Árabe”), da qual chegou a ser o presidente, tendo participado em seus encontros e publicações. O objetivo político do Ichud era elaborar uma forma de governo com base em direitos políticos iguais para ambos os povos na Palestina e, com isso, alcançar a fundação duma confederação. Mas havia também membros na União que preferiam uma solução binacional para a Palestina.
Com a fundação do Estado de Israel, o Ichud pasou a editar uma revista mensal com o nome de “Ner” (vela). Num editorial na primeira edição da Ner, Buber descrevia o Estado de Israel como ligado ao cumprimento do anseio milenar do povo judeu por independência. A ambição por justiça na relação entre a outras nações, dizia Buber, seria, porém, a maior exigência ao Estado de Israel.
A Questão Árabe Buber não era o único que se ocupava com a questão árabe. Toda uma lista de amigos e adversários de Buber ocupava-se do dilema moral-político provocado pela presença árabe na Palestina. Na véspera do XIVº Congresso Sionista em agosto de 1925, o colega de Buber, Robert Weltdsch, escreveu um artigo muito discutido na “Jüdische Rundschau”, no qual dizia: “Há um povo sem terra - mas não há terra sem povo. A Palestina será sempre habitada por dois povos - judeus e árabes. A realização do sionismo é impensável, enquanto não se conseguir enquadrar a obra sionista no quadro do mundo do Oriente Próximo.”
David Ben-Gurion, o fundador de Israel, que chegou a ser acusado de ser cego à questão árabe, disse no Congresso Sionista Mundial realizado em 1930 em Berlim, que grande número de árabes viveu durante séculos na Palestina, que os seus pais e ancestrais nasceram e morreram ali, e que a Palestina é um país em que desejavam também viver no futuro, e deveríamos dar a esse fato um entendimento amigável, tirando disso todas as conseqüências necessárias.
Zeev Jabotinsky, fundador do partido revisionista e mentor de Menachem Beguin, declarou no ano de 1921, que “se nós fossemos árabes, certamente não concordaríamos com as ambições sionistas”. A diferença entre Buber e os seus adversários políticos consiste, não na sensibilidade moral como tal, mas sim nas conseqüências políticas que esta exige. Enquanto os objetivos sionistas essenciais não eram dependentes do consentimento árabe, Buber imaginava que a realização da obra sionista dependeria do consentimento dos árabes. Chegou até a sugerir a restrição à imigração de colonos judeus à Palestina para acalmar os árabes.
Já em 1918, Yitzhak Wilkanski, um dos diretores do Ichud, afirmou que, para alcançar os fins sionistas urgentes, seria preciso causar injustiça aos árabes. “Não é segredo” - - disse ironicamente, “que os árabes não concordam com os empreendimentos sionistas, e que lhes dói quando um corpo estranho entra neles”. “Por que” - Wilkanski pergunta, “os nossos moralistas não enfatizam esse ponto? Ou somos vegetarianos completos, ou comemos carne. Semi-vegetarianos, ou de terceira ou quarta parte, não existem.”
A Linha de DemarcaçãoA verdade, para Buber, não era utópica nem ingênua. Estava consciente de que não vivemos no paraíso, onde o lobo habita junto à ovelha, que não é possível no nosso mundo realizar justiça plena na vida, e que estamos, por vezes, forçados a fazer injustiças. Mas advertiu, porém, a não se fazer mais injustiça do que a nossa existência exige e a interpretar o “impulso de poder” como um “impulso de vida”. Enfatiza que, caso as circunstâncias nos forcem a transgredir os mandamentos divinos, o deveremos fazer não com alegria, mas sim com tormentos de consciência. A luta desesperada de Israel para sobreviver no Médio Oriente faz a linha de demarcação de Buber especialmente compulsória.
Em consideração às contradições dos dois movimentos nacionais, Buber disse que seria a nossa obrigação entender as exigências árabes, também quando estivessem opostas aos nossos próprios objetivos. Deveríamos nos esforçar para sintonizar ambas as reivindicações. Aí, onde existirem fé e amor, se encontrará finalmente uma solução que se baseia em compromissos.
A realização do programa sionista, segundo o pensamento de Buber, estaria inevitavelmente ligada a certa medida de injustiça com os árabes domiciliados ali. Mas tinha a visão de reduzir esse mal tanto quanto possível pelo convívio judeu-árabe. Buber sofria no dilema entre a necessidade de salvar os sobreviventes do Holocausto e a obrigação moral de reduzir a desgraça dos árabes. Por isso, exigia do governo sionista fixar limites que não poderiam ser transgredidos.
O estado judeu não se deveria desenvolver a custa dos palestinos, nem pelo deslocamento deles. Buber nos lembrou de que não deveríamos voltar à terra dos nossos pais para expropriar ou dominar um outro povo. Apesar de todas as dificuldades, Buber exigia de ambos os lados abrir um caminho comum. À aplicação de violência pelo lado árabe, Buber externou que mesmo, quando ‘homo homini lupus est’, não nos deveríamos associar à alcatéia de lobos.
Apesar da condenação constante ao uso de violência por judeus (que, na maioria dos casos, era lançada como reação ao terror árabe), ele não era um pacifista radical. Acreditava que existiam circunstâncias, nas quais estamos forçados a usar a força. Ironicamente, a sua primeira tarefa na Palestina consistiu em responder a um pronunciamento anti-sionista de Mahatma Gandhi, o líder indiano da resistência não-violenta. Na sua revista semanal “Harijan”, Gandhi aconselhou os judeus a não se mudarem para a Palestina, mas que ficassem na Alemanha sob o domínio nazista e realizssem o ato do “satyagraha” (perseverar na verdade), ou seja, realizar resistência não-violenta até à morte...
Em “Uma Carta a Gandhi”, um dos grandes documentos sionistas, Buber escreve entre outras coisas: “Não quisemos a violência. Não temos - como Jesus, filho do nosso povo e como você - proclamado a doutrina da não-violência, porque achamos que um ser humano, às vezes, para salvar a si ou até as suas crianças, precisa praticar violência. Anunciamos desde tempos primitivos a doutrina da justiça e da paz, ensinamos e aprendemos que a paz é o objetivo do mundo e a justiça é o caminho para alcançá-la. Não podemos, portanto, desejar o uso da violência. Quem se puser nas fileiras de Israel, não poderá desejar violência. Mas sou forçado a resistir ao mal no mundo, assim como ao mal em mim mesmo. Não gosto da violência. Só posso aspirar a não usar violência nenhuma. Mas se não houver outro caminho de impedir que o mal destrua o bem, então usarei a força, pondo-me nas mãos de Deus.”

Com a fundação do Estado judeu no ano de 1948, Buber traçou uma fronteira clara entre a existência do Estado de Israel e do esboço metafísico “Sion”. Buber define o Estado judeu agora como meio - uma faixa estreita de terra que podia oferecer segurança ao povo disperso e a possibilidade de uma vida normal. Buber associava o conceito “Sion” com a percepção judaica do divino, como a experimentada pelos profetas. “Sion será salvo por direito, e os que voltam a ele, pela justiça.”
A volta a Sion é, segundo Buber, não só uma necessidade existencial, mas também a mensagem bíblica do povo judeu, a saber: ser uma luz dos povos, para que a salvação de Deus chegue até ao fim da terra (Isaias 49,6). Buber cria que a volta a Sion fosse transformar fundamentalmente tanto a terra como o povo, produzindo a renovação de ambos. A volta para casa do povo judeu será justificada somente se “estiver a serviço do espírito”. Buber cria que a existência do povo judeu não teria sentido se não levasse à Humanidade uma mensagem importante.
Só se o povo judeu em Israel guardar o espírito de Justiça dos seus profetas, Buber escreveu, poderá esperar produzir algo maior que somente mais um país no mundo. A obrigação de Israel é “melhorar o mundo no Reino de Deus”, conforme a tarefa de Abraão: “Em ti todas as nações na terra sejam abençoadas.”
Diálogo e Paz Num tempo em que inimizade aos estrangeiros, presunção nacional e recusa de diálogo crescem, o humanismo bíblico de Buber ganha importância especial. Lamentavelmente, a mensagem de Buber de aceitar o ser diferente vem sendo negada por ódios atávicos ao estrangeiro e arrogância nacional. A recusa do diálogo com o “outro” se baseia no medo de que nós – Deus nos livre! –descobramos o lado humano do nosso adversário, e que o encontro com o outro, com os estranhos, e especialmente com os nossos inimigos, possa despertar sentimentos indesejados (como empatia) em nós, cujo preço moral devemos pagar.
O relacionamento de confiança com o outro se pode de fato provar inquietante, e não só uma experiência dolorosa, como também um empreendimento perigoso. O “eu” que procura “ti” pode chegar a ser não só completamente negado, mas possivelmente também abusado. O esforço de entender o nosso inimigo não é somente uma tarefa difícil, mas pode também ser entendido como “atitude suicida”. Todavia, nenhum entender é possível sem se voltar para o inimigo, cujo caminho de vida se cruza com o nosso. Precisamos partir de que a recusa de falar com o inimigo (no nosso caso os palestinos) e reconhecer as suas reivindicações legítimas não só significa persistir num círculo cruel de violência, mas pode também levar à destruição de ambos os lados.
Um diálogo genuíno é de fato um palco imprescindível para a solução de conflito. Possibilita sentir os sentimentos e conseguir conhecer suas necessidades, sem nos negar a nós mesmos ou precisarmos renunciar aos nossos próprios interesses essenciais. A negação do outro e sua demonização são certamente mais fáceis do que o seu reconhecimento. Todavia, um conflito não pode ser resolvido sem se voltar para o outro. Um diálogo genuíno é, segundo Buber, aquele em que cada parceiro percebe, afirma e confirma como este outro é; só assim as diferenças podem ser resolvidas humanamente, podendo-se se aspirar supera-las.
Buber era convicto de que o futuro das pessoas como seres humanos dependia de uma retomada do diálogo. Achava que a doença humana mais aguda é o fato de que os seres humanos do presente não são mais capazes de conduzir um diálogo genuíno. Na sua palestra “O Diálogo Genuíno e a Possibilidade da Paz”, que fez em setembro de 1953 na Paulskirche de Frankfurt, na ocasião de receber um prêmio por sua atividade pacifista, Buber disse: “As demoras em entrar em diálogo um com o outro estão muito estreitamente ligadas com a perda de confiança entre os seres humanos, pois somente conseguirei falar com alguém a partir do momento em que possa pressupor que a minha palavra seja aceita como verdadeira.” Acrescentou: “Onde, porém, a língua se deixa ouvir de um lado ao outro, a guerra já está posta em dúvida.”
Com a fundação do Estado de Israel, Buber observou: “Para mim não há dúvida de que a questão do Oriente Próximo é se um entendimento entre Israel e os povos árabes se realizará, enquanto ainda houver possibilidade para isso. Para que uma obra tão grande saia bem, a pressuposição indispensável é que representantes de ambos os povos entrem uns com os outros num diálogo genuíno, no qual sinceridade mútua e reconhecimento mútuo se u.”
O pensador da vida dialógica estava bem consciente do triste fato de que paz no Oriente Próximo não pode ser alcançada só mediante confiança altruísta, mas também por negociações regulares. Buber observa que estadistas sábios, como bons comerciantes, resolvem os seus problemas pelo saber distinguir entre os seus interesses mútuos e comuns e os distinguir claramente. “O que precisamos”, Buber disse, “são negociadores da paz - negociadores de paz judeus e arábes.” Assim é que foi também um negociador de paz árabe, o então presidente egípcio Anwar Sadat, que provou que paz pode ser alcançada por negociações.
Realmente, tais “negociadores de paz” árabes e judeus - em parte adeptos de Buber - mudaram completamente a História do Oriente Próximo pelo seu encontro em Oslo. O Acordo de Oslo, que surpreendeu o mundo todo, entre os dois inimigos prévios, marca sem dúvida um momento de transição numa História de séculos de disputas armadas. Apesar dos impedimentos enormes no caminho da paz, o processo israelense-palestino de paz, como penso, é irreversível.
Epílogo O antever de Buber referente à política de poder árabe se provou certo na Guerra dos Seis Dias que irrompeu em junho de 1967. A celebrada vitória israelense se provou, lamentavelmente, como uma vitória de Pirro. A dominação israelense sobre quase dois milhões de pessoas nas áreas ocupadas abalou a base democrática da sociedade israelense. Embora um nacionalismo agressivo tenha se apoderado da política israelense, grande parte dos israelenses acabou se conscientizando de que não deveríamos reinar eternamente sobre outro povo. Os diversos movimentos de paz em Israel, especialmente o “Shalom Achshav” (PAZ AGORA, fundado na primavera de 1978), aceleraram o processo de paz hodierno. Essas tendências não teriam sido possíveis sem o humanismo hebraico de Buber.
O escritor Amós Oz, um dos fundadores do movimento de paz “PAZ AGORA”, constatou que o nosso país infelizmente é a pátria de dois povos, cujo destino seria viver um com o outro, porque “nem Deus nem os anjos descerão para separar entre o ‘certo’ e o ‘certo’. A vida de ambos depende de um processo duro, complicado e sério para viverem um com o outro nessa terra amada por ambos.”
Buber Hoje O quê Martin Buber nos diz hoje? A mensagem humanista de Buber poderia ser realmente realizada no nosso mundo pragmático? O Estado de Israel existiria, se tivéssemos aceito a visão de mundo de Buber? Que aspecto o Israel de hoje teria sem Buber? Está claro que as propostas de confederação de Buber, para a solução do conflito do Oriente Próximo não tinham nenhuma chance (veja Líbano, Chipre e Tchecoslováquia). Também está claro que o mundo árabe não o teria reconhecido, caso Israel não tivesse sido capaz de se defender.
Lamentavelmente, as duas figuras de Israel, David Ben-Gurion - o fundador do Estado judeu e Martin Buber - o filósofo judeu mais importante - trocaram os seus papeis. Ben-Gurion se interessava principalmente pela filosofia grega, enquanto Buber se engajou durante toda a sua vida na política. Cabe a afirmação de Sócrates de que os filósofos seriam os melhores governantes. Apesar de todos os seus prognósticos políticas não-realizados, Buber era o contestador e, com isso, a consciência incômoda de Israel. Chegou a ser um ícone para o humanismo hebreu e para a ânsia pela paz.
Uma das contribuições políticas de Buber era e é ainda hoje a “linha de demarcação” – o limite moral que nunca deve ser transgredido. O imperativo categórico de Buber vale também para os diálogos de paz israelense-árabes, que não terão sucesso senão quando incluirmos a mensagem de Buber de paz.
Queria finalizar com uma palavra de Gustav Landauer, amigo mais íntimo de Martin Buber: “A Paz é possível, porque é necessária.”
Essas palavras são hoje mais atuais do que nunca. Oro para que, no presente e no futuro, aprendamos mais de Buber do que no passado.

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O problema Israel-Palestina está ancorado no fato trágico de que a “Terra Prometida“ foi, no fundo, prometida duas vezes: uma vez, segundo a Bíblia hebraica, a Isaac, e outra vez, segundo a tradição islâmica, a Ismael, os dois filhos de Abraão. Um dos meus amigos árabes até redigiu um filme com o título “A terra duas vezes prometida” (‘The Twice Promised Land”). A terra prometida duas vezes, que segundo a Bíblia, devora os seus habitantes, está no centro do conflito judaico-árabe de cem anos. Ambos os povos reclamam ao mesmo pequeno pedaço de terra. Ambos os povos amam esse país, ambos partem de que só eles - e não o outro - têm direito a esta terra, e não estão claros que os seus direitos têm limites ali onde o direito do outro começa.
O primeiro presidente do Estado de Israel, Chaim Weizmann, disse uma vez: “A tragédia do conflito judaico-árabe jaz em que ambos os povos têm direito, mas nós temos mais direito.”
O dilema de um único país para os dois povos estava no centro da atividade política de Buber. A vida e trabalho de Martin Buber estão ligados mais estreitamente à renovação de Israel, e sua luta por Israel se estende sobre mais que seis decênios. No seu engajamento político, Buber discutiu questões que apontavam naquele tempo, como hoje, para os problemas urgentes e não resolvidos na convivência entre judeus e árabes.
Ainda antes da sua imigração à Palestina, Buber chegou a ser membro da “Brit Shalom” (Aliança de Paz), uma organização para promoção do entendimento judeu-árabe. À ela amigos íntimos de Buber pertenciam, como Hugo Bergmann, Hans Kohn, Gerschom Sholem e Ernst Simon. Desde a sua imigração à Palestina no ano de 1938, trabalhou com grande engajamento pelo entendimento entre judeus e árabes.
Segundo o ponto de vista moral-político de Buber, a questão árabe fazia parte essencial da questão intra-judaica. Partiu de que o comportamento dos judeus em relação aos árabes representava parte constitutiva integral do judaísmo, da mesma forma como o anti-semitismo patológico põe em questão a credibilidade dos princípios cristãos. Com a fundação do Estado de Israel, a questão árabe se mostrou de fato como crítica para os valores do Judaísmo.
O Sionismo Crente e a Política Real
O sionismo crente de Buber está em contraste agudo com a assim chamada “política real” (ou ‘política de poder’, como Buber a chamava), a qual ignorava a presença árabe na Palestina. Numa discussão sobre o sionismo e a Bíblia, Buber disse que o Livro dos Livros iria existir eternamente, inclusive sem o sionismo; seria, porém duvidoso se o sionismo, que se apóia na Bíblia pudesse sobreviver sem ela. A Bíblia hebraica impõe, segundo Buber, a maior exigência sobre Israel: “O que ela tem a nos dizer é que há verdade e mentira, e que o sentido e a consistência de ser humano jazem em se decidir pela verdade e contra a mentira; que há o certo e o injusto, e que a salvação da pessoa humana depende de que ela escolha o correto e rejeite o injusto.” Buber referenciava o humanismo hebraico especialmente aos árabes palestinos.
O movimente de renascença judaico, o sionismo, deveria, segundo Buber, estar ancorado no humanismo judaico, este que designava como o “caminho da santidade”, ao contrário do “egoísmo santo” do mundo como um todo. A posição de Buber quanto ao sionismo e a questão árabe encontrou a sua expressão em 1921, no XIIº Congresso Sionista em Karlsbad, onde a questão da atitude sionista perante os árabes foi discutida. Buber se dirigiu nesse foro ao mundo árabe com o seguinte discurso: “Nesta encruzilhada histórica, quando voltamos à terra dos nossos pais, o povo judeu proclama o seu desejo de viver com os árabes em paz e fraternidade, e de poder desenvolver livremente a pátria comum para uma comunidade de povos, na qual ambos os povos se possam desdobrar livremente.”
Buber podia distinguir entre “política de longo prazo” e “política pouco inteligente”. O seu prognóstico político aos relacionamentos futuros entre os dois povos se reflete numa carta que escreveu em 1929 (mais de 60 anos antes da intifada), depois da onda de ataques árabes aos judeus na Palestina, ao seu amigo Hans Kohn: “Depois da insurreição, o movimento nacional árabe se conseguiu organizar pelo primeira vez de forma abrangente mobilizando o povo inteiro. O nosso dever seria terminar a situação aberta de guerra, tão rápido como possível, com propostas de paz, mas não fazer todos os sofismas possíveis. Qualquer impedimento no caminho a um acordo de paz aumentará o abismo entre os dois povos ainda mais.
Os seus pronunciamentos cortantes referentes ao Ishuv (a minoria judaica na Palestina), tornaram Buber impopular em seu próprio povo. Costumava-se dizer que, no começo, os conhecimentos de Buber da língua hebraica não eram suficientes para se fazer entendido.
Um amigo íntimo de Buber, Gershom Sholem, disse ironicamente: Buber, o velho judeu polonês, que foi testemunha do Holocausto, se identificava mais com os vencidos, ou seja os árabes, do que com o vencedor. Temia que, pela nossa vitória, perdêssemos a nossa imagem de Deus que os nossos inimigos nos ensinaram a guardar dentro de nós e a respeitar dentro dos outros. Por causa da sua atitude crítica referente ao judaísmo ortodoxo, foi também designado como “anarquista religioso”.
A aspiração de Buber por uma Confederação do Oriente Médio, que abrangeria ambos os povos da Palestina, provou-se, com o tempo, uma concepção utópica. Sob o ponto de vista político, Buber foi condenado ao isolamento por ambos os lados. A sua atitude crítica ao sionismo e ao judaísmo tradicionais justificaria que a fama de Buber é maior no estrangeiro do que em Israel, sendo que a sua influência no mundo cristão é muito mais forte do que em círculos judaicos.
Teólogos cristãos designam Buber como intérprete principal do judaísmo para o mundo não-judaico. O judaísmo ortodoxo o culpa de ter minado a consciência judaica, acelerando assim a assimilação. Simultaneamente, entre judeus liberais, é considerado como o grande porta-voz do judaísmo no nosso século.
Deve, todavia, ser enfatizado que a oposição de Buber ao sionismo oficial foi designada, dentro do sionismo, como uma “solidariedade crítica”. Em contraste à “política real” de Theodor Herzl, mas de acordo com Achad Haam e Chaim Weizmann, Buber enfatizava o nível cultural do sionismo com a afirmação de que, sem renovação espiritual, não existiria chance para a ressurreição nacional.
Apesar do “respeitoso isolamento”, Buber encontrou correligionários nos círculos socialistas, os quais pertenciam ao “Ichud” (a “União para Aproximação Judaica-Árabe”), da qual chegou a ser o presidente, tendo participado em seus encontros e publicações. O objetivo político do Ichud era elaborar uma forma de governo com base em direitos políticos iguais para ambos os povos na Palestina e, com isso, alcançar a fundação duma confederação. Mas havia também membros na União que preferiam uma solução binacional para a Palestina.
Com a fundação do Estado de Israel, o Ichud pasou a editar uma revista mensal com o nome de “Ner” (vela). Num editorial na primeira edição da Ner, Buber descrevia o Estado de Israel como ligado ao cumprimento do anseio milenar do povo judeu por independência. A ambição por justiça na relação entre a outras nações, dizia Buber, seria, porém, a maior exigência ao Estado de Israel.
A Questão Árabe Buber não era o único que se ocupava com a questão árabe. Toda uma lista de amigos e adversários de Buber ocupava-se do dilema moral-político provocado pela presença árabe na Palestina. Na véspera do XIVº Congresso Sionista em agosto de 1925, o colega de Buber, Robert Weltdsch, escreveu um artigo muito discutido na “Jüdische Rundschau”, no qual dizia: “Há um povo sem terra - mas não há terra sem povo. A Palestina será sempre habitada por dois povos - judeus e árabes. A realização do sionismo é impensável, enquanto não se conseguir enquadrar a obra sionista no quadro do mundo do Oriente Próximo.”
David Ben-Gurion, o fundador de Israel, que chegou a ser acusado de ser cego à questão árabe, disse no Congresso Sionista Mundial realizado em 1930 em Berlim, que grande número de árabes viveu durante séculos na Palestina, que os seus pais e ancestrais nasceram e morreram ali, e que a Palestina é um país em que desejavam também viver no futuro, e deveríamos dar a esse fato um entendimento amigável, tirando disso todas as conseqüências necessárias.
Zeev Jabotinsky, fundador do partido revisionista e mentor de Menachem Beguin, declarou no ano de 1921, que “se nós fossemos árabes, certamente não concordaríamos com as ambições sionistas”. A diferença entre Buber e os seus adversários políticos consiste, não na sensibilidade moral como tal, mas sim nas conseqüências políticas que esta exige. Enquanto os objetivos sionistas essenciais não eram dependentes do consentimento árabe, Buber imaginava que a realização da obra sionista dependeria do consentimento dos árabes. Chegou até a sugerir a restrição à imigração de colonos judeus à Palestina para acalmar os árabes.
Já em 1918, Yitzhak Wilkanski, um dos diretores do Ichud, afirmou que, para alcançar os fins sionistas urgentes, seria preciso causar injustiça aos árabes. “Não é segredo” - - disse ironicamente, “que os árabes não concordam com os empreendimentos sionistas, e que lhes dói quando um corpo estranho entra neles”. “Por que” - Wilkanski pergunta, “os nossos moralistas não enfatizam esse ponto? Ou somos vegetarianos completos, ou comemos carne. Semi-vegetarianos, ou de terceira ou quarta parte, não existem.”
A Linha de DemarcaçãoA verdade, para Buber, não era utópica nem ingênua. Estava consciente de que não vivemos no paraíso, onde o lobo habita junto à ovelha, que não é possível no nosso mundo realizar justiça plena na vida, e que estamos, por vezes, forçados a fazer injustiças. Mas advertiu, porém, a não se fazer mais injustiça do que a nossa existência exige e a interpretar o “impulso de poder” como um “impulso de vida”. Enfatiza que, caso as circunstâncias nos forcem a transgredir os mandamentos divinos, o deveremos fazer não com alegria, mas sim com tormentos de consciência. A luta desesperada de Israel para sobreviver no Médio Oriente faz a linha de demarcação de Buber especialmente compulsória.
Em consideração às contradições dos dois movimentos nacionais, Buber disse que seria a nossa obrigação entender as exigências árabes, também quando estivessem opostas aos nossos próprios objetivos. Deveríamos nos esforçar para sintonizar ambas as reivindicações. Aí, onde existirem fé e amor, se encontrará finalmente uma solução que se baseia em compromissos.
A realização do programa sionista, segundo o pensamento de Buber, estaria inevitavelmente ligada a certa medida de injustiça com os árabes domiciliados ali. Mas tinha a visão de reduzir esse mal tanto quanto possível pelo convívio judeu-árabe. Buber sofria no dilema entre a necessidade de salvar os sobreviventes do Holocausto e a obrigação moral de reduzir a desgraça dos árabes. Por isso, exigia do governo sionista fixar limites que não poderiam ser transgredidos.
O estado judeu não se deveria desenvolver a custa dos palestinos, nem pelo deslocamento deles. Buber nos lembrou de que não deveríamos voltar à terra dos nossos pais para expropriar ou dominar um outro povo. Apesar de todas as dificuldades, Buber exigia de ambos os lados abrir um caminho comum. À aplicação de violência pelo lado árabe, Buber externou que mesmo, quando ‘homo homini lupus est’, não nos deveríamos associar à alcatéia de lobos.
Apesar da condenação constante ao uso de violência por judeus (que, na maioria dos casos, era lançada como reação ao terror árabe), ele não era um pacifista radical. Acreditava que existiam circunstâncias, nas quais estamos forçados a usar a força. Ironicamente, a sua primeira tarefa na Palestina consistiu em responder a um pronunciamento anti-sionista de Mahatma Gandhi, o líder indiano da resistência não-violenta. Na sua revista semanal “Harijan”, Gandhi aconselhou os judeus a não se mudarem para a Palestina, mas que ficassem na Alemanha sob o domínio nazista e realizssem o ato do “satyagraha” (perseverar na verdade), ou seja, realizar resistência não-violenta até à morte...
Em “Uma Carta a Gandhi”, um dos grandes documentos sionistas, Buber escreve entre outras coisas: “Não quisemos a violência. Não temos - como Jesus, filho do nosso povo e como você - proclamado a doutrina da não-violência, porque achamos que um ser humano, às vezes, para salvar a si ou até as suas crianças, precisa praticar violência. Anunciamos desde tempos primitivos a doutrina da justiça e da paz, ensinamos e aprendemos que a paz é o objetivo do mundo e a justiça é o caminho para alcançá-la. Não podemos, portanto, desejar o uso da violência. Quem se puser nas fileiras de Israel, não poderá desejar violência. Mas sou forçado a resistir ao mal no mundo, assim como ao mal em mim mesmo. Não gosto da violência. Só posso aspirar a não usar violência nenhuma. Mas se não houver outro caminho de impedir que o mal destrua o bem, então usarei a força, pondo-me nas mãos de Deus.”

Com a fundação do Estado judeu no ano de 1948, Buber traçou uma fronteira clara entre a existência do Estado de Israel e do esboço metafísico “Sion”. Buber define o Estado judeu agora como meio - uma faixa estreita de terra que podia oferecer segurança ao povo disperso e a possibilidade de uma vida normal. Buber associava o conceito “Sion” com a percepção judaica do divino, como a experimentada pelos profetas. “Sion será salvo por direito, e os que voltam a ele, pela justiça.”
A volta a Sion é, segundo Buber, não só uma necessidade existencial, mas também a mensagem bíblica do povo judeu, a saber: ser uma luz dos povos, para que a salvação de Deus chegue até ao fim da terra (Isaias 49,6). Buber cria que a volta a Sion fosse transformar fundamentalmente tanto a terra como o povo, produzindo a renovação de ambos. A volta para casa do povo judeu será justificada somente se “estiver a serviço do espírito”. Buber cria que a existência do povo judeu não teria sentido se não levasse à Humanidade uma mensagem importante.
Só se o povo judeu em Israel guardar o espírito de Justiça dos seus profetas, Buber escreveu, poderá esperar produzir algo maior que somente mais um país no mundo. A obrigação de Israel é “melhorar o mundo no Reino de Deus”, conforme a tarefa de Abraão: “Em ti todas as nações na terra sejam abençoadas.”
Diálogo e Paz Num tempo em que inimizade aos estrangeiros, presunção nacional e recusa de diálogo crescem, o humanismo bíblico de Buber ganha importância especial. Lamentavelmente, a mensagem de Buber de aceitar o ser diferente vem sendo negada por ódios atávicos ao estrangeiro e arrogância nacional. A recusa do diálogo com o “outro” se baseia no medo de que nós – Deus nos livre! –descobramos o lado humano do nosso adversário, e que o encontro com o outro, com os estranhos, e especialmente com os nossos inimigos, possa despertar sentimentos indesejados (como empatia) em nós, cujo preço moral devemos pagar.
O relacionamento de confiança com o outro se pode de fato provar inquietante, e não só uma experiência dolorosa, como também um empreendimento perigoso. O “eu” que procura “ti” pode chegar a ser não só completamente negado, mas possivelmente também abusado. O esforço de entender o nosso inimigo não é somente uma tarefa difícil, mas pode também ser entendido como “atitude suicida”. Todavia, nenhum entender é possível sem se voltar para o inimigo, cujo caminho de vida se cruza com o nosso. Precisamos partir de que a recusa de falar com o inimigo (no nosso caso os palestinos) e reconhecer as suas reivindicações legítimas não só significa persistir num círculo cruel de violência, mas pode também levar à destruição de ambos os lados.
Um diálogo genuíno é de fato um palco imprescindível para a solução de conflito. Possibilita sentir os sentimentos e conseguir conhecer suas necessidades, sem nos negar a nós mesmos ou precisarmos renunciar aos nossos próprios interesses essenciais. A negação do outro e sua demonização são certamente mais fáceis do que o seu reconhecimento. Todavia, um conflito não pode ser resolvido sem se voltar para o outro. Um diálogo genuíno é, segundo Buber, aquele em que cada parceiro percebe, afirma e confirma como este outro é; só assim as diferenças podem ser resolvidas humanamente, podendo-se se aspirar supera-las.
Buber era convicto de que o futuro das pessoas como seres humanos dependia de uma retomada do diálogo. Achava que a doença humana mais aguda é o fato de que os seres humanos do presente não são mais capazes de conduzir um diálogo genuíno. Na sua palestra “O Diálogo Genuíno e a Possibilidade da Paz”, que fez em setembro de 1953 na Paulskirche de Frankfurt, na ocasião de receber um prêmio por sua atividade pacifista, Buber disse: “As demoras em entrar em diálogo um com o outro estão muito estreitamente ligadas com a perda de confiança entre os seres humanos, pois somente conseguirei falar com alguém a partir do momento em que possa pressupor que a minha palavra seja aceita como verdadeira.” Acrescentou: “Onde, porém, a língua se deixa ouvir de um lado ao outro, a guerra já está posta em dúvida.”
Com a fundação do Estado de Israel, Buber observou: “Para mim não há dúvida de que a questão do Oriente Próximo é se um entendimento entre Israel e os povos árabes se realizará, enquanto ainda houver possibilidade para isso. Para que uma obra tão grande saia bem, a pressuposição indispensável é que representantes de ambos os povos entrem uns com os outros num diálogo genuíno, no qual sinceridade mútua e reconhecimento mútuo se u.”
O pensador da vida dialógica estava bem consciente do triste fato de que paz no Oriente Próximo não pode ser alcançada só mediante confiança altruísta, mas também por negociações regulares. Buber observa que estadistas sábios, como bons comerciantes, resolvem os seus problemas pelo saber distinguir entre os seus interesses mútuos e comuns e os distinguir claramente. “O que precisamos”, Buber disse, “são negociadores da paz - negociadores de paz judeus e arábes.” Assim é que foi também um negociador de paz árabe, o então presidente egípcio Anwar Sadat, que provou que paz pode ser alcançada por negociações.
Realmente, tais “negociadores de paz” árabes e judeus - em parte adeptos de Buber - mudaram completamente a História do Oriente Próximo pelo seu encontro em Oslo. O Acordo de Oslo, que surpreendeu o mundo todo, entre os dois inimigos prévios, marca sem dúvida um momento de transição numa História de séculos de disputas armadas. Apesar dos impedimentos enormes no caminho da paz, o processo israelense-palestino de paz, como penso, é irreversível.
Epílogo O antever de Buber referente à política de poder árabe se provou certo na Guerra dos Seis Dias que irrompeu em junho de 1967. A celebrada vitória israelense se provou, lamentavelmente, como uma vitória de Pirro. A dominação israelense sobre quase dois milhões de pessoas nas áreas ocupadas abalou a base democrática da sociedade israelense. Embora um nacionalismo agressivo tenha se apoderado da política israelense, grande parte dos israelenses acabou se conscientizando de que não deveríamos reinar eternamente sobre outro povo. Os diversos movimentos de paz em Israel, especialmente o “Shalom Achshav” (PAZ AGORA, fundado na primavera de 1978), aceleraram o processo de paz hodierno. Essas tendências não teriam sido possíveis sem o humanismo hebraico de Buber.
O escritor Amós Oz, um dos fundadores do movimento de paz “PAZ AGORA”, constatou que o nosso país infelizmente é a pátria de dois povos, cujo destino seria viver um com o outro, porque “nem Deus nem os anjos descerão para separar entre o ‘certo’ e o ‘certo’. A vida de ambos depende de um processo duro, complicado e sério para viverem um com o outro nessa terra amada por ambos.”
Buber Hoje O quê Martin Buber nos diz hoje? A mensagem humanista de Buber poderia ser realmente realizada no nosso mundo pragmático? O Estado de Israel existiria, se tivéssemos aceito a visão de mundo de Buber? Que aspecto o Israel de hoje teria sem Buber? Está claro que as propostas de confederação de Buber, para a solução do conflito do Oriente Próximo não tinham nenhuma chance (veja Líbano, Chipre e Tchecoslováquia). Também está claro que o mundo árabe não o teria reconhecido, caso Israel não tivesse sido capaz de se defender.
Lamentavelmente, as duas figuras de Israel, David Ben-Gurion - o fundador do Estado judeu e Martin Buber - o filósofo judeu mais importante - trocaram os seus papeis. Ben-Gurion se interessava principalmente pela filosofia grega, enquanto Buber se engajou durante toda a sua vida na política. Cabe a afirmação de Sócrates de que os filósofos seriam os melhores governantes. Apesar de todos os seus prognósticos políticas não-realizados, Buber era o contestador e, com isso, a consciência incômoda de Israel. Chegou a ser um ícone para o humanismo hebreu e para a ânsia pela paz.
Uma das contribuições políticas de Buber era e é ainda hoje a “linha de demarcação” – o limite moral que nunca deve ser transgredido. O imperativo categórico de Buber vale também para os diálogos de paz israelense-árabes, que não terão sucesso senão quando incluirmos a mensagem de Buber de paz.
Queria finalizar com uma palavra de Gustav Landauer, amigo mais íntimo de Martin Buber: “A Paz é possível, porque é necessária.”
Essas palavras são hoje mais atuais do que nunca. Oro para que, no presente e no futuro, aprendamos mais de Buber do que no passado.


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MARTIN BUBER: Uma Terra e Dois Povos - KALMAN YARON

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