JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

RAZÃO E REDENÇÃO: HISTÓRIA DAS RELIGIÕES E MÍSTICA NO PENSAMENTO DE GERSHOM SCHOLEM por Manoel Ribeiro de Moraes Jr.

RESUMO: Este trabalho explora resumidamente as idéias de Gershom Scholem sobre a
possibilidade de um método de investigação histórica dos movimentos judaicomessianicos.
PPALAVRAS-CHAVE: História das Religiões. Cabala. Messianismo. Mística.
Introdução
Ernest Bloch, György Lukacs, Walter Benjamin, Franz Kafka, Martin Buber, Franz
Rosenzwieg e Gershom Sholem compõem em seus respectivos mundos intelectuais uma
dimensão fundamentalmente comum entre o judaísmo e a erudição estético-filosófica de
raízes românticas. Esta intercessão intelectual é capaz de frutificar temas e motivos de
pensamento crítico a uma época e suas circunstâncias, exclamando a inversão daquilo que
outrora a modernidade iluminista conclamava no advento de seu momento moderno,
burguês e capitalista: a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Estes pensadores de língua
alemã formaram um círculo institucional imanentemente integrado, mas não programado de
intelectuais judeus predominantemente da Europa Central (Mitteleuropa). Essa ligação de
amizades que antecederam e transcenderam quaisquer ligações institucionais, provocou um
compartilhamento nem sempre silencioso de intuições e de sentimentos intelectuais que
fizeram surgir um universo cultural entre eles2.
1 Professor da UNESA e do Seminário Presbiteriano do RJ. Doutorando em Ciências da Religião pela
UMESP / CNPq.
2 Segundo Löwy (1989, p. 27), “estes autores foram bastante estudados, mas até agora não se suspeitou jamais
que seu pensamento pudesse ter uma dimensão fundamental comum. Parece paradoxal e arbitrário agrupar sob
um mesmo teto personalidades tão diversas e tão diversas e tão afastadas umas das outras. Constatamos
inicialmente que, sem constituir um grupo no sentido concreto e imediato da palavra, encontram-se, todavia
ligados entre si por uma rede social complexa e sutil: relações de amizade profunda e/ou afinidade intelectual
e política que unem Gustav Landauer e Martin Buber, Gershom Scholem e Walter Benjamin, Ernst Bloch e
Györg Lukács, Martin Buber e Franz Rosenzweig, Gustav Landauer e Ernst Toller; Scholem é atraído por
Buber e Landauer, Buber corresponde-se com Kafka, Bloch e Lukács, Erich Fromm foi a luno de Scholem.
No núcleo dessa trama, na intersecção de todos os fios desse tecido cultural, contendo em si os pólos mais
2
Para Michel Löwy3, estes pensadores quase todos nascidos no final do último quarto
do século dezenove, recorreram simultaneamente às fontes de pensamento românticoalemão
e judaico-messiânico. Eles exprimiam uma “esperança cabalista” pelo advento do
Tikkoun (Erlösen: restituição, reparação, salvação) como irrupção de um mundo totalmente
outro. Não era por menos, as suas trajetórias intelectuais expressam-se em meios aos
diversos massacres provocados pelas configurações políticas européias acontecidas no
período circunscrito às duas grandes guerras. É neste sentido que a esperança pelo Tikkoun
ascende um sentimento crítico à história (Geschichte), pois suas cidadanias foram vítimas
das políticas recorrentes e suas individualidades foram tragadas pela história.
A grandeza do pensamento de Gershom Scholem pode ser apreciada em seus
trabalhos de reconstrução histórica do pensamento e da mística judaica. Considerando a
máxima epistemológica de J. Habermas, de que todo conhecimento é orientado por um
interesse, podemos adiantar que a sua “historiosofia” representa uma decodificação da ação
religiosa no espaço social teuto-judaico, como resistência político-intelectual às
simplificações da burguesa Ciência do Judaísmo (Wissenschaft des Judentums) – escola
histórica criada por judeus acadêmicos, surgida na Alemanha do século XIX. Esta
historiografia considerava as místicas judaicas como movimentos periféricos ao judaísmo
predominante. Ora, por serem variações secundárias, as ponderações destes historiadores
sobre as incursões dos movimentos místicos e apocalípticos, os excluíam de qualquer
identidade possível com o judaísmo tradicional. A crítica de Scholem a estes métodos
tradicionais de interpretação da religiosidade judaica também se aplica às ciências que
tratam da religião. Scholem acredita que as Ciências envolvidas com o religioso devem
aprimorar seus métodos com a finalidade de delimitarem o horizonte teológico do objeto
investigado e suas sincronias lingüísticas, ambas distantes de qualquer pretensão tradicional
de objetivação científica. Por isso, este artigo procurará expor algumas idéias de Scholem a
partir de suas idéias sobre método e religião.
opostos, Walter Benjamin, o amigo íntimo de Scholem, ligado a Ernst Bloch, profundamente influenciado por
Lukács, Rosenzweig e Kafka, leitor crítico de Landauer, Buber e Fromm”.
3
1. História investigativa do religioso
Ao criar uma disciplina sobre a Cabala, Scholem promoveu na própria historiografia
deste século, uma revolução, ao tornar relevantes para a sua investigação do religioso,
aspectos não-racionais dos movimentos que estudava. Esta insurreição acadêmica contra a
Ciência do Judaísmo justifica-se na medida em que Scholem percebe a maneira como os
historiadores judeus procuravam ajustar-se às exigências espirituais positivistas do mundo
alemão. Para o historiador da mística judaica, é possível entender como a historiografia da
religião judaica predominante buscava modelar o percurso religioso e reflexivo do
judaísmo aos gêneros acadêmicos e sociais da Alemanha – uma tentativa de aculturação
intelectual ao modus vivendi da burguesia alemã e que, por isso, assumiu uma trajetória
apologética, assimiladora e enrijecedora de um judaísmo que, outrora, era originariamente
dinâmico. É por isso que historiografia de Scholem é também uma resistência à
Wissenschaft des Judentums e à historiografia tradicional.
A aculturação do judaísmo ao mundo alemão provocou um racionalismo exagerado
dos conteúdos e dos valores da vida e da religião. Por isso, afirma David Biale, que:
(...) preocupados em ingressar no intelectual da Europa do século XIX, e
conscientes de que suas portas só se lhes abririam sob princípios racionalistas, os
intelectuais judeus enfatizavam os princípios racionalistas do judaísmo e evitavam
escrupulosamente mencionar o que se passava no porão. O irracionalismo e
misticismo eram varridos para debaixo do tapete, como também as tendências
revolucionárias ou apocalípticas no messianismo judaico. A história social era
inteiramente ignorada no anseio de retratar o judaísmo como uma religião
intelectual. A Ciência do Judaísmo escreveu uma Geistgeschichte, uma na qual o Geist, espírito, era predominantemente racional” (BIALE, 2004,
p. XV).
Aliados a uma filosofia da história racionalista e progressista, os historiadores
judeus do século XIX acreditavam numa possível ascensão moderna do judaísmo. Esta
historiografia representava também, de certa maneira, uma militância iluminista que
procurava no saber e na conduta acadêmica, a remoção no judaísmo e de em sua história,
das inspirações irracionais ou místicas que se contrapunham às formas apolíneas do
3 LÖWY, 1989, p. 09.
4
esclarecimento alemão do século XIX. É contra as inspirações assimilacionistas e contra as
metodologias empregadas pelos historiadores judeus, que G. Scholem reabrirá o “palco
histórico do judaísmo” a partir de elementos construtivos e destrutivos, em detrimento dos
intelectuais judeu-burgueses que enalteciam a história moderna como aquela que conduz
um olhar ao passado, mas sempre fiel ao ideal de progresso harmonioso.
Alinhado a uma intuição nietzschiana, Scholem reage contra os arquétipos apolíneos
de uma ciência, arte e moral/política/direito ensimesmada nos princípios da ordem
burguesa. Ele denunciava a historia e muito mais a historiografia do judaísmo, como
saberes que reverenciavam absolutamente o status quo, ou seja, a história aparecia como
uma ciência ideológica enquanto saber iconográfico, monumentalista, que combinava
idéias nacionalistas e burguesas. Com este diagnóstico metodológico, Scholem procurou
expor a historiografia alemã como saber que favorecia uma normalização do passado em
favor da ordem dominante. À esteira desta orientação, a historiografia judaica racional
estava condenada à simbiose com as imagens heróicas do pensamento dominante
consolidada no palco intelectual do século XIX e no início do século XX (quer na forma do
nacionalismo assimilacionista dos judeus alemãs, quer na forma do nacionalismo
chauvinista dos sionistas):
Não constitui título de glória para a Ciência do Judaísmo o fato de os trabalhos dos
poucos autores realmente informados sobre o assunto jamais terem sido impressos,
e em alguns casos nem mesmo preservados, uma vez que ninguém se interessava
sobre eles. Tampouco temos razão para estar orgulhoso do fato de que a maior
parte da idéias e pontos de vista que demonstraram uma compreensão profunda do
mundo da cabala, fechado como estava para o racionalismo dominante do judaísmo
do século XIX, fossem expostos por eruditos cristãos de inclinação mística, como o
inglês Arthur Edward Waite atualmente e o alemão Franz Losef Molitor no século
passado. É pena que a sutil intuição filosófica e o poder de captação desses
estudiosos errassem o alvo, porque eles careciam de todo senso crítico em relação a
dados históricos e filológicos neste domínio,e portanto falhavam completamente ao
se defrontarem com problemas de caráter factual (SCHOLEM, 1995, p. 4).
Categoricamente, Scholem encontra o conceito dämonisch de Goeth, o
irracionalismo criativo, o ideal da força propulsora capaz de criar um futuro alternativo não
estanque. Desta maneira, de iconográfica a historiografia passa a ser anarquista: ao invés de
celebrar os marcos genealógicos da ordem opressora dominante, a historia deveria
5
alimentar-se das forças racionais e irracionais das ações humanas. Nenhuma metodologia
deve erguer uma compreensão do passado apenas a partir de ícones reinantes, pois, desta
maneira, abre-se somente a porta de um saber dogmático teleológico e político-apologético.
Uma história das religiões, tal como a história do judaísmo, deve orientar-se a partir de
dentro: na dinâmica oculta das religiões, contemplando as suas contradições, a sua
existência dialética. Porém, Scholem não recai na difícil e suicida tarefa intelectual da
negação hiperbólica, tal como aquelas teorias niilistas e/ou pós-modernas que, futuramente,
recaem num emaranhado de contradições teoricamente paralisantes. A história não deveria
ser uma rejeição dos eventos e das narrativas pretéritas, mas uma apropriação dialética do
passado. A sua história “contra-história” do judaísmo reconhece a necessidade de uma
redução afirmativa do passado, porém, alinhavada a um constante criticismo revisionista:
A contra-história é um tipo de historiografia revisionista, mas, enquanto o
revisionista propõe uma nova teoria ou descobre novos fatos, o contra-historiador
transvalora velhos fatos. Ele não nega que a interpretação histórica de seus
predecessores seja correta, como fazem os revisionistas, mas, enquanto o
revisionista propõe uma nova teoria ou descobre fatos novos, o contra-historiador
transvalora velhos fatos. Ele não nega que a interpretação histórica de seus
predecessores seja correta, como fazem os revisionistas, mas rejeita que seja
completa; ele afirma a existência de uma história “dominante” ou “oficial”, mas crê
que a força vital reside numa tradição secreta. Para Scholem, a Cabala, uma
tradição recalcada e esotérica, constitui a chave da contínua vitalidade do judaísmo.
Enquanto o século XIX via o misticismo e o mito como obstáculos na estrada do
progresso da história judaica, aos olhos de Scholem eles constituem as forças que o
movem (BIALE, 2004, p. XX).
Ora, a reorientação metodológica de Scholem baseia-se no princípio de que é
preciso criar habilidades de entendimento a um objeto do qual se pretenda tornar alvo da
reflexão historiadora, pois, do contrário, a sua compreensão está fadada cada vez mais ao
engodo – ainda mais, quando este objeto se distancia da consciência contemporânea,
quotidiana, do pesquisador. Desta maneira, não basta aos historiadores das religiões – no
caso de Scholem, da história do judaísmo – o recurso técnico da filologia, é necessário
também que o especialista aprimore-se no domínio de seus objetos. Porém, como o
historiador pode lhe dar a mística? Como investigar expressões e formulações litúrgicas e
literárias em geral, que pretendem o inefável ou expressarem o incomunicável? Scholem
6
não pretende fazer da história uma religião, uma mística4. Antes, o historiador judeu
aprimora a sua filologia a partir de uma teoria do objeto. É desta maneira pela qual
Scholem procura aproximar-se do conteúdo das tradições místicas e, assim, tornar
compreensível as revelações dos elementos ocultos dos quais pode-se entender o processo
histórico das religiões – sem depurá-las de suas contradições simbólicas (HABERMAS,
1980, p. 123).
2. A dinâmica religiosa
Se para os historiadores alemães do século XIX a história era exclusivamente palco
da evolução natural de uma determinada cultura, diferentemente para Scholem, há três
enfoques possíveis pelos quais a tradição pode entendida: “i) ela pode ser continuamente
retomado; ii) pode transforma-se num progresso da metamorfose e adquirir uma nova
roupagem; e iii) estar exposta a uma ruptura vinculada à rejeição da própria tradição”
(SCHOLEM, 1999, p. 129).
Para Scholem, a sua época manifestou desejos de rupturas, de renúncias e, até
mesmo, de negações que nascem de aspirações silenciosas de uma reconstrução ou,
simplesmente, da reposição de uma ordem do sentido, da arqué originária (mas
nostálgica). Contudo, diante deste peremptório desejo de rejeição, podemos nos indagar o
seguinte: existe realmente uma ruptura? a interdição de uma tradição e o início de uma
outra se faz a partir da sobrevivência de qualquer fragmento do passado? Bem, para estas
considerações, vamos nos valer da concepção de Scholem sobre a questão judaica e, assim,
continuar aproveitando as suas teses como uma contribuição metodológica para uma
possível história das religiões.
4 “Contrariamente a Rosenzweig, Gershom (Gehard) Scholem não é teólogo, mas historiador. Sua obra
representa não apenas um monumento impar de historiografia moderna, como também lança um novo olhar
sobre a tradição religiosa judaica, restituindo-lhe sua dimensão messiânica e apocalíptica, escamoteada pela
leitura racionalista estreita da Wissenchaft des judentums (Graetz, Zung, Steinschneider) e da sociologia
alemã. Max Weber e Werner Sombart não viram na espiritualidade judaica senão o racionalismo calculista:
Scholem pôs em evidência as correntes religiosas subterrâneas, místicas, heréticas, escatológicas e anárquicas
da história do judaísmo” (LÖWY, 1989, pp. 57-58).
7
A tradição significa para o judaísmo o poder de sustentação, segundo o próprio
Scholem, “o judaísmo representa uma forma clássica de uma sociedade religiosa baseada
na Tradição de uma maneira especialmente acentuada, em que a tradição era o poder de
sustentação das forças vitais que aqui encontram sua expressão (SCHOLEM, 1999, p.
130)”. Em particular nesta religião, a tradição associada ao conceito de revelação, foram
agregados pelo Talmude como ponto arquimediano do judaísmo durante dois séculos
aproximadamente. Este assentamento dogmático sedimentou a idéia da Torah escrita e oral,
como palavra de Deus e sua aplicabilidade do cotidiano vigente. É desta maneira que a
tradição e a revelação se aliaram no decurso da história, irrompendo no judaísmo uma
identidade religiosa capaz de abolir outras formas que tampouco faltam ao judaísmo.
Seguindo a lógica, a tradição judaica é a tentativa de fazer inteligível, atual e convincente,
pela Torah oral e escrita, a voz de Deus. Neste caso, os conteúdos religiosos nunca rompem
com a ordem normal da vida. O inefável nunca irromperá no presente de uma forma
imediata, mas sempre mediada, sobretudo quando se ensina que a “palavra de Deus” toma a
linha da tradição do judaísmo como condição sine qua non para torna-se compreensível e
aplicável.
Porém, na história do judaísmo podemos encontrar o messianismo que surge como
abertura de alternativas no curso histórico do presente para a redenção e que, por isso,
conflita naturalmente com a tradição que se apóia no alinhamento uniforme entre o passado
e o presente. Porém, o messianismo abriu espaços para uma vivencialidade pacífica no
espaço literário com a tradição de revelação da Torah. É neste encontro que podemos
reverenciar concepções tão diversas como as de um estado ideal, juízo final, reconstrução
da realeza davídica e etc. O “mundo literário bíblico judaico” (no sentido sincrônico de
universalidade) pode ser visto como um processo não contínuo, orientado por determinados
imperativos de tradições dominantes, mas como conseqüência de experiências históricas
que surgiram como réplicas às situações vigentes, porém expressos no horizonte de seus
imaginários.
O messianismo uniu dois elementos que determinaram as suas configurações
históricas no judaísmo: i) o messianismo restaurador que, movido por uma esperança
nostálgica, busca redimir o presente religando-o a uma ordem originária do real outrora
8
perdida, e o ii) o messianismo utópico, que entende a redenção como um ato historicamente
inédito, rompe no real5. Certamente, ambas as formas de messianismo poderiam conviver
pacificamente, haja vista que elas postergavam para um futuro longínquo, as suas
esperanças que não se adequavam à experiência hoje – considerando que o presente caótico
é sempre considerado como anunciação da ação messiânica gloriosa, mas não o momento
exato de sua consumação. Então, independentemente de suas formas, a fé na redenção
messiânica veio mesmo a assumir uma posição definitiva na tradição, mas tendo a sua força
simbólica ocultada ou encoberta. Desta maneira, dentro da ação imaginativa que concilia as
forças opositoras, o messianismo pode mesmo incorporar-se à tradição.
Por esta razão é que na teologia do judaísmo não existe o problema de um conflito
entre o messianismo e a tradição. A idéia messiânica, ainda não desenvolvida em
seqüência lógica a partir da idéia de tradição, foi concebida de maneira compatível
com ela. Somente lá onde a experiência histórica comoveu e agitou os corações
pôde tal experiência encontrar também uma elaboração quase teológica na qual a
crise da Tradição no messianismo irrompeu mui rapidamente (SCHOLEM, 1999,
p. 133).
Ora, como a imaginação teceu laços que ligou o messianismo e a tradição num
mesmo corpo literário, numa mesma tradição religiosa? A posição da Torah no mundo
messiânico foi desenvolvida na antiga literatura judaica (Talmude, Midrasch, e os
Apocalipses) de forma imaginativa produzindo imagens de revigoramento dos ideais do
passado e de anelo num futuro novo e emancipador. Estas imagens não tecidas nas margens
da história objetiva, mas nos desejos e na esperança. Por isso, quando a tradição enclausura
as possibilidades da redenção, o messianismo eclode enfrentando o próprio historicismo.
Seguindo os impulsos da redenção, o impulso originário da religião, a mística, passa a
reivindicar um acesso imediato e intuitivo ao divino. As possibilidades passam a se
mostrarem abertas tal como a imagem de criação do mundo: a imagem cosmogônica da
mística luruana, ensina que o autobanimento de Deus significa liberdade e
responsabilidade, o exílio em que todos estão confinados é também possibilidade da
5 É concepção mística de um messiânico que nutre o anti-historicismo dos pensadores frankfurtianos
Horkheimer e Benjamin.
9
salvação. E estas novas formas de salvação surgem a partir de novas imagens que podem
ser mesmo apostatas tal como o messianismo de Sabbatai Zwi.
A mística religiosa surge como próximo ao niilismo, porém motivado por um desejo
de superação radical, um espetáculo do choque, mas que visa a salvação do verdadeiro
conteúdo emancipador, redentor: “God will appear as non-God. All the divine and symbolic
things can also appear in the garb of atheistic mysticism” (“Deus aparecerá como não-Deus.
Todas as coisas divinas e simbólicas podem igualmente aparecer sob a forma do misticismo
ateu”) (SCHOLEM, apud Habermas, 1980, p. 130).
3. Linguagem e mística
A compreensão de Gershom Scholem sobre o papel da linguagem na mística se
contrapõe a difundida idéia de que a Erlebnismystik (vivência mística) era marcada
autenticamente pelo rito do silêncio. Porém, este ceticismo lingüístico será repensado a
partir de uma compreensão da revelação, da linguagem e de Deus na própria dinâmica da
mística cabalística empreendida pelo pensador judeu-alemão.
Para o Scholem, a tradição e a revelação eram dinamizadas pela ação grandiosa da
linguagem que, por sua vez, era diretamente derivada de Deus. A tensão entre linguagem e
a experiência dos mistérios de Deus, era alvo das polêmicas entre Buber e Scholem, quando
ambos comparavam criticamente suas traduções da Bíblia. Buber entedia que as
exclamações poéticas representavam uma luta perdida do místico para exprimir o
inexprimível. Porém, sobre esta tese, Sholem afirmava que:
(...) a mais notável e bem-sucedida formulação de um conceito infundado de
religião, que só pode ser estabelecido ou confirmado captando-se o fato central da
religião, isto é, a revelação, como uma Erlebnis (experiência) amorfa, extática que
só (tem sentido), se o tem em geral, no plano da interioridade, enquanto suas
emoções externas permanecem inteiramente vagas. {A revelação deve ser
entendida} como um fenômeno auditivo, que sempre pareceu tanto à filosofia da
religião quanto a teóricos da linguagem, bem como aos místicos, {inclusiva} aos
cabalistas, como exatamente definível, exakt bestimmbar (BIALE, 1994, p. 143).
Ora, Scholem entendia que a incapacidade de traduzir ou compreender, e entender
textos religiosos não poderia ser atribuída à incompetência da linguagem ou do escritor,
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mas sim à incapacidade de decifração nas leituras de textos como estes. Muito próximo às
teses cabalistas, Scholem entendia que as revelações eram experiências auditivas que
podiam ser expressas em linguagem. Ora, desta feita, era conseqüente também a tese de que
as compreensões (traduções) e entendimentos do texto religioso eram possíveis porque as
escritas das audições reveladas não eram escritas arbitrárias, mas um texto escrito composto
de um vocabulário técnico. Ora, o papel do cientista da religião era aprimorar os recursos
de compreensão e entendimento para que para o exercício de decodificação e leitura
pública fosse apropriado. É claro, toda tese universalista recai no perigo da testabilidade
constante e infinita. Mas, diferentemente de Buber, Scholem delimita as suas expectativas
de compreender o papel da linguagem ao campo da mística judaica, desenvolvendo
delimitadamente uma teoria da linguagem religiosa num capo específico da experiência
religiosa.
A barreira da linguagem no exercício da mística não é tratada de uma forma tão
técnica e simples nas obras de Scholem. A possível compreensão de uma relação imediata
entre a linguagem e o mistério, é justificável na tradição cabalística e bíblico-judáica, pois
ambas trazem a idéia de que a linguagem em sua forma mais pura (o hebraico), reflete o
princípio criativo do mundo porque elas tanto são instrumentos derivados do nome de Deus
(equivalentes à sua essência), como também são o meio pelo qual Deus tudo criou. Desta
maneira, para os cabalistas do século XII, criação e revelação são dois acontecimentos
idênticos, pois ambas são auto-representações de Deus.
Palavras e coisas são derivações do nome Deus. Então, por ser fonte das coisas e de
seus sentidos, o nome Deus é meta-significativo. Por isso, nele converge o todo ôntico e
ontológico, não de uma maneira imediata, mas de uma maneira mediada nas mais diversas
contradições do processo criativo da linguagem e da natureza. Por isso, Deus se explícita no
todo significativo e no todo da natureza de uma forma plural, por isso, equívoca. Então,
senso assim, a linguagem humana por ter origem divina é capaz de simbolizar. E é por
símbolos que mulheres e homens falam de Deus. Religião não se faz de alegorias, ou seja,
de convenções arbitrárias variadas para descrever o místico, mas sim por símbolos que tem
o poder de evocar uma compreensão intuitiva do sagrado. Os símbolos místicos têm o
poder de exprimir algo que está alem da expressão e da comunicação, de algo cuja sua
11
presença está voltada para o interior e para o exterior do ser humano. O símbolo não tem
significação e nem comunica algo, mas tem o poder de transparecer algo que está além de
toda a expressão.
Para os cabalistas, os símbolos não são arbitrários ou subjetivos, mas possuem uma
interna conexão essencial com aquilo que simbolizam. Eles são, portanto, o resíduo
dos nomes divinos na linguagem humana. A grande fé dos cabalistas na linguagem
resultava de sua crença de que os símbolos eram a ponte entre a linguagem humana
e divina (BIALE, 2004, p. 47).
Então, podemos concluir que a força dos símbolos lingüístico-religiosos só subsiste
quando a linguagem não é compreendida como um mecanismo convencional exclusivo do
entendimento humano. O ceticismo lingüístico de Buber, por exemplo, pode ser entendido
como uma perspectiva de sentimento aberto ao inefável, mas perseguido por meios
secularizados. A conversão da linguagem em um conjunto de códigos culturalmente ou
intelectualmente convencionais destituiu o poder dos símbolos que antes se projetavam
como pontes entre o humano e o divino. Desta maneira, a dimensão simbólico-religiosa
deve ser entendida, nos jogos lingüísticos da religião, como dimensões de ligação ao
totalmente outro, que por eles se faz manifesto transparentemente. Os símbolos não são
redes de significação, mas de apresentação.
Aspectos conclusivos: o revigorismo da mística
A experiência messiânica aclamada pela mística romântica (LÖWY, 1990) é
observada por Scholem como conseqüência a dimensão abismal aberta pela autofágica
modernidade européia. O desencantamento do mundo que outrora parecia ser uma
experiência de liberdade e autonomia (WEBER, 2004; HORKHEIMER & ADORNO,
1991) gestada pelo iluminismo, agora padece numa auto-revelação de seus poderes
destrutivos, mesmo que não exclusivos, expressos num século de conflitos catastróficos
que, por sua vez, distanciava-se cada vez mais de um momento de emancipação social
conciliada e racional (KANT, 1982). A modernidade e as forças da tradição se
desmancham em meio a uma civilização capaz de barbáries e arrojos tecnológicos
12
econômicos. Segundo uma biografia resumida escrita por Jürgen Moltmann, a primeira
guerra mundial representou para Scholem a morte da Europa clássica. Com ela, foram
sepultados também os ideais de evolução interna à história social, apreciados pelas idéias
iluministas e pelos judeus assimilados à cultura do esclarecimento - como é o caso do
neokantiano Hermann Cohen, filósofo judeu que entendia ser possível a redenção acontecer
através das evoluções históricas. Para Scholem, a força mística judaica expressava-se pela
apreciação do advento messiânico. Este advento interliga os aspectos simbólico-literários
da escatologia e do apocalipsismo judaico6 e, como tal, interpreta a redenção como evento
de irrupção transcendente e catastrófica capaz de provocar o perecimento da história.
O dia do Senhor significava já nos profetas a destruição do mundo e o final da
história transcorrida até então, a fim de que se pudesse iniciar-se um novo e
totalmente outro eon. Para Scholem não há transição da história e da redenção. Os
apocalípticos acentuaram sempre essa falta de transição e, assim, romperam a
esperança messiânica de qualquer otimismo baseado na fé no progresso. O messias,
segundo as tradições judaicas aduzidas por Scholem., chega sem anunciar-se e de
maneira completamente inesperada e totalmente imprevisível. Sua presença não é
resultado de uma evolução, mas de uma explosão (MOLTMANN, 2004, p. 64).
Apesar das conseqüências que o caráter catastrófico que o advento messiânico tem
para a história, Sholem acentua também os elementos utópicos que o messianismo místico
enaltece. A esperança pela redenção e a antecipação do cataclismo histórico, torna o
homem consciente da faticidade abismal de sua existência e desmitifica a perpetualidade
das promessas seculares de emancipação como também lhe nega a possibilidade de um
pessimismo definitivo de um mundo afogado no verdugo, na decadência, no mal. A chama
messiânica é a expressão que arde no interior da cada experiência da existência individual
(experiência de ambivalência entre a vida e a morte) que não encontra na revelação uma
expressão da tradição clássica da religião, mas algo que sua atualidade significativa é
fundida e remodelada no experimento da vivência tragada pela rotina mas revigorada pelas
esperanças redentoras.
6 As dimensões literárias escatológicas e messiânicas expressam sempre uma crítica incisiva à sua época
imanente sem possibilidades de uma correção a não ser por uma interrupção catastrófica regida por um
monarca absoluto ou por interventor seu, o messias. Para mais detalhes, cf. Desroche, 2000.
13
O misticismo judaico em suas várias formas representa uma tentativa de interpretar
os valores religiosos do judaísmo em termos de valores místicos. Concentra-se na
idéia do Deus vivo que se manifesta nos atos de Criação, Revelação e Redenção.
Levada a seu extremo, a mediação mística sobre esta idéia gera a concepção de
uma esfera, um reino inteiro de divindade, subjacente ao mundo de nossas
experiências sensoriais e que está presente e ativo em tudo que existe. Eis o
significado do que os cabalistas chamam o mundo das Sefirot (SCHOLEM, 1995,
p.11).
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letras, 1990.
14
REASON AND REDEMPTION: history of religions and mystic in Gershom
Scholem’s thought
Manoel Ribeiro de Moraes Jr.
ABSTRACT: This brief article explores Gershom Scholem’s ideals on the possibility of a
method of historical research of the Messianic Jewish Movements.
KEY WORDS: History of Religion. Kabala. Messianic. Mystic.

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