JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Um bom dia / Primo Levy

 

Hoje é um bom dia. Olhamos em redor, como cegos que recuperaram a vista, e olhamos uns para os outros. Nunca nos tínhamos visto ao sol: alguém sorri. Se não fosse a fome!

Pois a natureza humana é feita de tal forma que os sofrimentos e as dores que acontecem ao mesmo tempo não se somam inteiramente na nossa sensibilidade, mas escondem-se, os menores atrás dos maiores, segundo uma lei hierárquica definida. Isto é providencial e permite-nos viver no campo. Por isso, logo que passou o frio, que durante o inverno parecia ser o único inimigo, percebemos que tínhamos fome; e assim dizemos hoje: “Se não fosse a fome!”…

Mas como se poderia pensar em não ter fome? O Lager é fome, nós próprios somos fome, fome viva.

Mas não é só por causa do sol que hoje é um dia de alegria: ao meio-dia uma surpresa nos espera. Além do rancho normal da manhã, encontramos na barraca uma maravilhosa marmita de 50 litros, da Cozinha da Fábrica, quase cheia.

Templer olha para nós com ar triunfante: esta “organização” é obra dele.

Templer é o organizador oficial do nosso Kommando: tem uma sensibilidade requintada pela Sopa dos Civis, assim como as abelhas têm pelas flores. O nosso Kapo, que não é um Kapo mau, deixa-o atuar, e com razão: Templer parte, seguindo pistas que mais ninguém percebe, e volta com a preciosa notícia de que, a dois quilômetros daqui, sobraram 40 litros de sopa dos operários polacos do Metanol, porque estava rançosa; ou que um vagão de nabos se encontra abandonado no carril morto da Cozinha da Fábrica.

Hoje os litros são 50, e nós somos 15, incluindo o Kapo e o Vorarbeiter. São 3 litros por cabeça: um litro nos será dado ao meio-dia, depois do rancho normal; quanto aos outros dois, iremos por turnos à tarde, à barraca, e excepcionalmente nos serão concedidos cinco minutos de interrupção do trabalho para encher o depósito.

Que mais se poderia desejar? Até o trabalho nos parece leve, com a perspectiva de 2 litros densos e quentes que nos esperam na barraca.

Ao cair do sol, toca a sirene do fim do trabalho; e, estando todos saciados pelo menos durante algumas horas, não surgem discussões, sentimo-nos bons, o Kapo não resolve nos dar pancadas, e estamos em condições de pensar nas nossas mães e nas nossas esposas, o que habitualmente não acontece. Durante umas horas, podemos ser infelizes à maneira dos homens livres.

Deve passar das 23 horas, pois já há um intenso vai-e-vem até o balde, ao lado do guarda da noite. É um tormento obsceno e uma vergonha: de duas em duas ou de três em três horas, temos de nos levantar, para nos libertarmos da grande dose de água que de dia somos obrigados a absorver sob a forma de sopa, para satisfazer a fome; é a mesma água que de noite nos incha os tornozelos e as olheiras, conferindo a todas as fisionomias um aspecto deformado, e cuja eliminação impõe aos rins um trabalho desgastante.

Não se trata só da procissão ao balde; está prescrito que o último a usar o balde vá esvaziá-lo na latrina; está prescrito também que de noite não se sai da barraca a não ser em traje de dormir (camisa e cuecas), após a entrega do nosso número ao guarda. Por isso, é fácil prever que o guarda da noite procurará poupar do serviço os seus amigos, os seus compatriotas e os importantes; acrescente-se ainda que os velhos do campo de tal maneira afinaram seus sentidos que, embora ficando nas suas camas, estão milagrosamente na condição de perceber, só pelo som das paredes do balde, se o nível está ou não no limite do perigo, e assim conseguem sempre escapar da operação de esvaziamento. Por isso,os candidatos ao serviço do balde são, em cada barraca, um número bastante limitado, enquanto os litros totais a eliminar são pelo menos 200, e o balde tem de ser esvaziado umas 20 vezes.

Mas durante a noite, através de todas as alternâncias de sono, de vigília e de pesadelo, vigiam a espera e o terror do momento de despertar: graças à misteriosa faculdade que muitos conhecem, o homem é capaz, mesmo sem relógio, de prever o momento exato com grande aproximação. Na hora de despertar, que varia conforme a época do ano, mas que surge sempre muito antes do amanhecer, toca demoradamente o sino do campo, e é então, em todas as barracas, que o guarda da noite acaba seu turno: acende as luzes, levanta-se, espreguiça-se, e pronuncia a condenação de todos os dias: – Aufsehen – ou mais freqüentemente em polaco: – Wstawać.

 

 

 

 

 

Muito poucos esperam o Wstawać dormindo: é um momento de sofrimento tão intenso, que até o sono mais profundo se dissolve quando ele se aproxima.

A palavra estrangeira cai como uma pedra no fundo de todas as almas. “Levantar-se”; a efêmera barreira dos cobertores quentes, a leve couraça do sono, e a evasão noturna, apesar de atormentada, caem em pedaços à nossa volta, e encontramo-nos acordados sem remissão, expostos à ofensa, terrivelmente nus e vulneráveis. Começa um dia como todos os dias, tão longo que não se pode nem conceber o seu fim, com tanto frio, tanta fome, tanta fadiga; e por isso é melhor concentrar a atenção e o desejo no pedaço de pão cinzento, que é pequeno, mas que dentro de uma hora será certamente nosso, e durará cinco minutos – e enquanto não o tivermos devorado, constituirá tudo o que a lei daquele lugar nos permite possuir.

Ao som do Wstawać recomeça a tempestade. Toda a barraca entra bruscamente em atividade frenética: cada um mexe-se para cima e para baixo, faz a cama e ao mesmo tempo procura se vestir, de forma a não deixar nenhum de seus objetos ao alcance dos outros; a atmosfera enche-se de pó até se tornar baça; os mais despachados abrem caminho às cotoveladas para alcançar a latrina antes que a fila se forme. Imediatamente aparecem os varredores, que obrigam todos a saírem, à pancada e aos gritos.

Depois de ter feito a cama e ter me vestido, desço para o chão e calço os sapatos. Então reabrem-se as feridas dos meus pés, e começa um novo dia.

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