JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

domingo, 27 de fevereiro de 2011
MORRE O ESCRITOR GAÚCHO MOACYR SCLIAR

“Quando eu li “A Guerra no Bom Fim”, um romance de Scliar inspirado na sua formação cultural, pensei: eu queria tanto ser igual a esse cara!

”Por Elenilson Nascimento

O que seria a Morte? A medicina não entende. Os racionais demais não entendem. Os crentes acham que seria um prêmio. Os espíritas, uma aprendizagem. Eu já tive medo de morrer. Hoje, depois de ter passado por tanta coisa, de ter perdido tantos amigos legais, de ter me decepcionado tanto nessa vidinha de classe média, não tenho mais. O máximo que posso sentir é uma sensação fedorenta de que a vida é tão medíocre e que estou cercado de tanta gente medíocre que, às vezes, chego a pensar que a Morte seria uma companhia agradável.
Augusto dos Anjos já dizia: “Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável/Mora entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera”. Pois é Augustinho, my friend! O que sinto é uma enorme tristeza quando falo da Morte. E vejo, na minha humilde visão míope, que os grandes e bons estão morrendo aos poucos.
E nessa madrugada deste domingo, 27/02, morreu mais um amigo distante. Presença na minha estante, nas minhas noites de insônia e dos meus diálogos impertinentes. Morreu, por falência múltipla de órgãos devido às consequências de um acidente vascular cerebral (AVC), o escritor gaúcho Moacyr Scliar, aos 73 anos.
Seu primeiro livro, publicado em 1962, foi "Histórias de Médico em Formação", com alguns contos baseados em sua experiência como estudante. Em 1968, publicou "O Carnaval dos Animais", também de contos, que considerava de fato sua primeira obra. Ao longo da sua vida, publicou mais de 70 livros de diversos gêneros literários – entre eles, os romances “O Exército de um Homem Só”, “A Estranha Nação de Rafael Mendes” e “O Centauro no Jardim” – e teve textos adaptados para cinema, televisão, rádio e teatro, inclusive no exterior.
Scliar era colaborador dos jornais “Zero Hora” e “Folha de S. Paulo”, além de ser comentarista na Rádio Metrópole FM (Salvador-BA) e de ter alguns textos publicados aqui no LC. Desde 2003, era membro da ABL e de ter ganho por três vezes o Prêmio Jabuti – a mais recente, em 2009, com o romance “Manual da Paixão Solitária”.
Então, concordo com o Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver". Já um amigo de São Paulo contou-me uma vez sobre os últimos dias do seu pai, já bem velhinho que sentia dores terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?". O médico não entendeu? É mais ou menos isso o que eu sinto quando um amigo meu morre. A vida pode até ser boa para alguns, e eu não quero ir embora ainda... mas, às vezes, penso que não estou aqui para ficar acompanhando a minha lista de enterrados.
Quando eu li “A Guerra no Bom Fim”, um romance de Scliar inspirado na sua formação cultural, pensei: eu queria tanto ser igual a esse cara! Sua obra foi marcada pela aproximação com o imaginário fantástico e com a investigação da tradição judaico-cristã, tendo como temas dominantes a realidade social da classe média urbana no Brasil, a medicina e o judaísmo.
Scliar teve livros publicados em diversos países como Alemanha, Israel, Estados Unidos, Rússia, Franças, entre outros. Em 31/07/2003, foi eleito, por 35 dos 36 acadêmicos com direito a voto, para a cadeira de Nº 31 da ABL, substituindo a Geraldo França de Lima. No discurso de posse na Academia, Scliar disse que oferecia a nomeação aos pais, "emigrantes que lutaram duramente e que me ensinaram a lutar também, e a acreditar. Como um dia acreditou na literatura aquele gurizinho do bairro do Bom Fim que, de algum lugar do tempo, me olha com seus grandes olhos, um olhar de admiração e de espanto à qual junto, neste momento, a gratidão de toda a minha vida". Bacana isso!
Mas, agora, ao pensar mais uma vez na Morte, seja na simples ideia da minha própria Morte ou a expectativa mais do que certa de morrer um dia, seja a ideia estimulada pela Morte de um ente querido ou mesmo de alguém desconhecido e distante, acho que seja maduro ficar tomado por sentimentos e reflexões. Clichê isso!
As pessoas podem até se regozijarem em dizer que não pensam na Morte, normalmente elas têm uma relação mais sofrível ainda com esse assunto, tão sofrível que nem se permitem pensar a respeito. Talvez eu seja romântico demais para admitir que tenha os meus medos encubados. Mas, enfim, como o Saramago, JD Salinger, Lévi-Strauss, Ildásio Tavares, Jorge Amado, Scliar e outros, o romantismo está morto!

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Respostas a este tópico

Scliar era um homem... sereno. Transmitia uma sensação de paz e de tolerância, era muito mais que um escritor ou ou intelectual, era um humanista na acepção da palavra.

Porto Alegre, o Brasil, o mundo perdem com o passamento de Scliar. Que seu exemplo dê frutos.

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