JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Edgar Nahum Morin, nasceu em Paris, filho de país judeus sefaradim.Formou-se em História, mas acabou por se dedicar à Filosofia,Sociologia e Epistemologia. Entre outras actividades é Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.

Em sua última obra, Une Politique de Civilisation¹ (Uma Política de Civilização), Edgar Morin aprofunda suas análises sobre o mundo atual, já desenvolvidas anteriormente em Terre-Patrie (Terra-Pátria), e propõe uma reforma da política e do pensamento capazes de nos fazer superar a crise multiforme e planetária que atravessamos.

 

 

 

 

 

A sua filosofia procura dar resposta ás grandes questões do nosso tempo,no quadro de uma visão integrada e multidisciplinar do conhecimento.

Label France: Há anos todos são unânimes em reconhecer que nossas sociedades atravessam uma crise econômica, social e política e que o mundo conhece numerosos distúrbios. Por que o senhor a considera fundamental?

     Edgar Morin: Tudo o que constituiu a face luminosa da civilização ocidental apresenta hoje um outro lado cada vez mais sombrio. Assim, o individualismo, que é uma das grandes conquistas da civilização ocidental, vem acompanhado cada vez mais de fenômenos de atomização, solidão, egocentrismo e degradação das solidariedades. Outro produto ambivalente de nossa civilização, a técnica, que liberou o homem de enormes gastos energéticos para confiá-los às máquinas, ao mesmo tempo sujeitou a sociedade à lógica quantitativa das máquinas.

A indústria, que produz em massa bens a preços baixos que satisfaçam as necessidades de um grande número de pessoas, está na origem das poluições e das degradações que ameaçam nossa biosfera. O automóvel, nesse aspecto, encontra-se na encruzilhada das virtudes e dos vícios de nossa civilização. A própria ciência, que se acreditava produzir apenas benefícios, revelou um aspecto inquietante com a ameaça atômica ou a manipulação genética.

Assim, pode-se dizer que o mito do progresso, base de nossa civilização, que pressupunha necessariamente um amanhã melhor do que hoje, comum ao mundo do oeste e do leste, já que o comunismo prometia um futuro radiante, desmoronou como mito. Isso não significa que todo progresso seja impossível, mas que ele não pode mais ser considerado automático e que encerra regressões de toda espécie. Precisamos reconhecer hoje que a civilização industrial, técnica e científica cria tantos problemas quantos resolve.

 

 

Essa crise não atinge apenas as sociedades ocidentais?

Essa situação é mundial, na medida em que a civilização ocidental globalizou-se bem como seu ideal, que ela chamou de desenvolvimento. Este último foi concebido como uma espécie de máquina cuja locomotiva seria técnica e econômica e que conduziria os vagões, ou seja o desenvolvimento social e humano.

Pois bem, estamos nos apercebendo de que o desenvolvimento, visto apenas sob o ângulo da economia, não impede, bem ao contrário, um subdesenvolvimento humano e moral. Primeiramente em nossas sociedades ricas e desenvolvidas, e em seguida nas sociedades tradicionais, onde ela gera uma degradação cultural que passa pela destruição das antigas agriculturas de subsistência ou o êxodo rural.

Assim, todas nossas antigas soluções são colocadas em questão, o que provoca desafios gigantescos para nós e o planeta. E a ameaça que vem da economia globalizada, da qual ainda ignoramos se os benefícios prometidos sob a forma de elevação do nível de vida não serão pagos com degradações da qualidade da própria vida.

Essa degradação da qualidade em relação à quantidade é a marca de nossa crise de civilização porque nós vivemos em um mundo dominado por uma lógica técnica, econômica e científica. Só é real o que é quantificável e tudo o que não o pode ser é descartado, particularmente o pensamento político. Ora, infelizmente nem o amor, o sofrimento, o prazer, o entusiasmo ou a poesia entram na quantificação.

Temo que o caminho da competição econômica acelerada e amplificada conduza-nos tão somente a um crescimento do desemprego. O trágico é que não possuímos a chave para sair disso. Nossos instrumentos de pensamento, nossas ideologias, como o marxismo que acreditava infelizmente erroneamente que, suprimindo-se a classe dirigente, suprimiríamos a exploração do homem pelo homem, comprovaram seus fracassos. Estamos portanto um pouco perdidos e a gravidade da situação reside no fato de que estamos confrontados a problemas que nos parecem cada vez mais insolúveis.

 

 

Já existiu no passado uma situação-limite comparável à nossa?

Esse desenvolvimento técnico, econômico e científico, com seus efeitos próprios, é um fenômeno único na história. Mas situações-limites já ocorreram. Quando um determinado sistema encontra-se saturado por problemas que não pode resolver, existem duas possibilidades: ou a regressão geral, ou uma mudança de sistema.

O caso da regressão é ilustrado pelo do Império Romano. Como é de nosso conhecimento hoje, não foram os bárbaros que provocaram a queda do Império Romano, mas o fato de ele ter sido incapaz de se transformar e de resolver seus problemas econômicos. Inversamente, o nascimento das sociedades históricas há dois mil anos no Oriente Médio, com a passagem de pequenos grupos nômades de caçadores-colhedores agrícolas e sua sedentarização no âmbito de vilarejos..., constitui um bom exemplo de superação de um sistema de organização excessivamente compartimentado ou disperso para resolver os problemas apresentados por uma grande concentração de populações.

 

 

No momento em que se dão essas transformações, superamos uma etapa e na verdade mudamos de escala. Faria parte da lógica do porvir das sociedades humanas aceder à etapa da globalização, que o senhor chama também de "a era planetária", e que hoje é vista principalmente como um perigo?

Com efeito, por ser incontrolável, ela vem acompanhada de regressões múltiplas. Mas esta é uma possibilidade que poderia ser desejável. A globalização possui evidentemente um aspecto bastante destrutivo de anonimização, de "aplainamento" das culturas, de homogeneização das identidades. Porém, ela representa também uma chance única de fazer com que se comuniquem e se compreendam os homens das diferentes culturas do planeta, e de favorecer as miscigenações.

Essa nova etapa só poderá ocorrer se enraizarmos em nossa consciência o fato de que nós somos cidadãos da Terra assim como somos europeus, franceses, africanos, americanos.., que ela é nossa pátria, o que não nega as outras pátrias. Esta tomada de consciência da comunidade de destino terrestre é a condição necessária para essa mudança que nos permitiria co-pilotar o planeta, cujos problemas tornaram-se inextricavelmente enredados. Sem o quê conheceremos os fenômenos de "balcanização", de recolhimento defensivo e violento em identidades particulares, étnicas, religiosas, que é a negação desse processo de unificação e solidarizaçao do planeta.

 

 

Esses problemas planetários, que vão além dos Estados-Nações, exigiriam respostas políticas planetárias. Seria o caso de se dizer que seria necessário instaurar um governo mundial com os riscos totalitários que isso implica?

De maneira alguma. O que eu acho é que é preciso incontestavelmente desejar que se crie uma confederação mundial, que seria uma confederação de confederações em escala dos continentes, da qual a Europa poderia ser um modelo e um exemplo. Acho que seria necessário criar instâncias mundiais para resolver problemas vitais como a ecologia, a energia nuclear, o desenvolvimento econômico que, em razão de suas conseqüências sócio-culturais, não deveria escapar ao controle político.

 

 

Mas o essencial da política de civilização deveria ser colocado em execução ao nível de cada país. Quais são as suas finalidades e as grandes linhas?

Se existe uma crise de civilização é porque os problemas fundamentais geralmente são considerados como problemas individuais e privados pela política, que não vê sua interdependência com os problemas coletivos e gerais. A política de civilização visa recolocar o homem no centro da política, como fim e meio, e promover o bem-viver ao invés do bem-estar. Múltiplas ações emanando da sociedade dita civil já seguem nessa direção, mas essas iniciativas para recriar da boa convivência à solidariedade estão, no momento atual, dispersas. A política de civilização deveria basear-se em dois eixos essenciais, válidos para a França mas também para a Europa: humanizar as cidades, o que exigiria enormes investimentos, e lutar contra a desertificação do campo.

 

 

O senhor terá como contra-argumentação o problema do financiamento desses grandes projetos em tempo de crise...

É claro, mas porque se raciocina a partir de orçamentos separados. Seria necessário que se criasse um sistema contábil que colocasse em termos de números as conseqüências ecológicas e sanitárias de nossos males de civilização.

 

 

Milhões de anos após seu surgimento, o homo sapiens parece-lhe estar ainda no estágio da pré-história no plano da mentalidade e do comportamento? Em quê nosso modo de pensar e de apreender a realidade representa um obstáculo para a superação de nossos problemas atuais?

 

 

 

 

 

Não existe conhecimento pertinente senão quando se é capaz de contextualizar sua informação, de globalizá-la e de situá-la em um todo. Ora, nosso sistema de pensamento, que impregna o ensino, da escola primária à universidade, é um sistema que fragmenta a realidade e torna os espíritos incapazes de associar os conhecimentos compartimentados em disciplinas. Essa hiper-especialização dos conhecimentos, que leva a recortar dentro da realidade um único aspecto, pode ter conseqüências humanas práticas consideráveis no caso, por exemplo, das políticas de infra-estruturas em especial que desprezam muito freqüentemente o contexto social e humano. Ela contribui também para retirar dos cidadãos a capacidade de tomar decisões políticas em benefício dos especialistas.

A reforma do pensamento ensina a enfrentar a complexidade com a ajuda de ferramentas, conceitos capazes de relacionar os diferentes saberes que estão a nossa disposição neste final de século XX. Ela é vital neste momento da era pIanetária em que se tornou impossível, e artificial, isolar-se a nível nacional um problema importante. Essa reforma do pensamento, que exige ela própria uma reforma da educação, não está em curso em lugar algum, embora seja necessária em toda parte.

No século XVII, Pascal já havia compreendido que tudo estava intimamente ligado, reconhecendo que "toda coisa é auxiliado e auxiliador, causado e causador" - ele possuía até o senso da ação retroativa, o que era admirável para sua época -, "e estando tudo ligado por um laço imperceptível que liga as partes mais distantes umas das outras, considero impossível conhecer as partes se não conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer as partes". Eis aí a frase-chave. Era para esse aprendizado que deveria tender a educação. 

Mas, infelizmente, nós seguimos o modelo de Descartes, seu contemporâneo, que pregava a fragmentação da realidade e dos problemas. Ora, um todo produz qualidades que não existem nas partes separadas. O todo nunca é a adição das partes. É algo mais.

  

 

O senhor propõe que se supere o antagonismo tradicional entre o particular e o universal. Por que não é contraditório "querer salvaguardar a diversidade das culturas e desenvolver a unidade cultural da humanidade"?

 

 

 

É indispensável poder conceber a unidade do múltiplo e a multiplicidade do uno. Temos excessiva tendência a ignorar a unidade do gênero humano quando vemos a diversidade das culturas e dos costumes e a apagar a diversidade quando percebemos a unidade. O verdadeiro problema é ser capaz de ver um no outro, já que o próprio do humano reside precisamente nesse potencial de diversidade, de línguas, de psicologias. etc. que não poderia colocar em questão a unidade humana a um tempo anatômica, genética, cerebral, intelectual e afetiva.

Assim, compreende-se que o geral e o particular não são inimigos, já que o próprio geral é singular. A espécie humana é singular em relação às outras espécies, e ela produz singularidades múltiplas. Nosso próprio universo é singular, mas ele produz diversidade. É preciso ser sempre capaz de conceber o uno e o múltiplo porque os espíritos incapazes de conceber a unidade do múltiplo e a multiplicidade do uno só podem promover a unidade que homegeiniza ou as multiplicidades que se fecham em si mesmas.

 

Para regenerar a democracia, o senhor sugere que se inspire nos valores da trindade republicana "liberdade, igualdade. fraternidade". Em que sentido deve-se repensar suas relações, dois séculos depois de terem sido enunciados?

O que é interessante é que essa fórmula é complexa, porque os três termos são ao mesmo tempo complementares e antagônicos. A liberdade sozinha mata a igualdade e mesmo a fraternidade. Imposta, a igualdade destrói a liberdade sem realizar a fraternidade. Quanto à fraternidade, que não pode ser instituída por decreto, ela deve regular a liberdade e reduzir a desigualdade. Este é um valor que de fato diz respeito à ligação de si mesmo com o interesse geral, ou seja profundamente do civismo. Ali onde o espírito cidadão enfraquece, ali onde deixamos de nos sentir responsáveis e solidários com os outros, a fraternidade desaparece. Estas três noções são portanto muito importantes. Existem momentos históricos em que o problema crucial é o da liberdade, sobretudo em condições de opressão, como sob a Ocupação na França, e em que o problema maior é o da solidariedade, como é o caso hoje.

 

Na Europa, o senhor é favorável a um modelo de federação dos Estados. Qual seria ser o papel da França?

A França poderia desempenhar um papel pioneiro porque sua cultura possui um herança de universalismo, de fé cívica, republicana e patriótica, mas também porque a França é o único país europeu que, desde o século XIX, é um país de imigração, enquanto os outros países são de emigração. Ela herdou uma tradição de integração dos estrangeiros, através da escola e da naturalização, automática para os filhos nascidos na França desde a Terceira República (1870). Nunca eufórica inicialmente, essa integração, que continua a funcionar apesar das dificuldades particulares em tempo de crise, explica o fato de um quarto da população francesa atual possuir ascendentes estrangeiros. Finalmente, por causa de seu ex-Império Colonial, a França pôde reconhecer como franceses os martiniquenhos ou vietnamitas, ou seja pessoas de cor de pele diferente.

No modelo francês, a identidade nacional sempre foi transmitida pela escola republicana e o ensino da história da França. As crianças assimilavam Vercingétorix, Roma, Clóvis, ou seja uma história muito rica, e aliás bastante interessante, porque a mitologia francesa exalta ao mesmo tempo um herói da independência, Vercingétorix, mas ela não trata de colaboradores os gauleses que foram, eles próprios, romanizados. Assim, a França, desde sua origem, aceita a mestiçagem com os romanos e depois com os germânicos. Constituída a partir de um reino bem pequeno, a Ile-de-France, que ampliou ao integrar ao longo dos séculos regiões heterogêneas, a França caracteriza-se de fato por um processo de "afrancezação" permanente.

 

Seu diagnóstico conclui por uma situação "logicamente desesperada ". O que no entanto leva-o a ter esperança?

Eu acho que devemos nos abrir aos intercâmbios. Assim como a Ásia abriu-se para a técnica ocidental, nós devemos nos abrir para a contribuição das civilizações asiáticas, budista e hinduísta principalmente, por sua influência na relação entre eu e eu, entre seu espírito e sua alma e seu corpo, que nossa civilização produtivista e ativista negligenciou completamente. Nós temos muito a aprender com outras culturas. Assim como o Renascimento, aconteceu porque a Europa medieval voltou-se para a fonte grega, nós devemos hoje buscar um novo renascimento abastecendo-nos nas fontes múltiplas do universo.

As razões da esperança vêm também do fato de que nós estamos na pré-história do espírito humano, o que significa que as capacidades mentais humanas ainda são sub-exploradas, principalmente no plano das relações com os outros. Nós somos bárbaros em nossas relações com os outros, não somente entre religiões e povos diferentes, mas no próprio seio da família, entre parentes, onde a comunicação é falha.

Por outro lado, a história ensina que é necessário visar o improvável. Eu vivi historicamente duas vezes a vitória do improvável. Primeiramente, com a derrota do nazismo em 1945, quando a vitória alemã era provável na Europa em 1941, e depois com o desmoronamento do sistema comunista em 1989-90. O pior nunca é certo e "ali onde medra o perigo desenvolve-se também o que salva", como diz Hölderlin, lembrando-nos que o perigo provavelmente nos ajudará a nos livrarmos dele, desde que tomemos consciência de sua existência.

Entrevista concedida a Anne Rapin

 

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