JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Entrevista com o autor do livro Canabis Chasidis, Yossef Needelman.

Depois de se graduar em um colégio da Ortodoxia Moderna, em Nova York, o autor de 30 anos – Yoseph Needelman – se mudou para Jerusalém a fim de explorar o uso da maconha na tradição judaica. Durante oito anos ele visitou instituições religiosas, entrevistando lideranças religiosas para descobrir se, de fato, houve espaço para as drogas no mundo Judaico em algum momento da história.

O resultado das suas pesquisas está compilado no seu livro “Cannabis Chassidis”, o qual explora o uso Judaico de maconha. Os escritos foram publicados em 2009 sob o pseudônimo de Needelman: Yoseph Ibn Mordechay.

Depois que os Estados de Washington e Colorado recentemente votaram pela legalização do uso recreativo da maconha, diversas opiniões sobre a droga surgiram no cenário americano. Talvez o livro de Needelman encontre leitores entre aqueles que procuram conselhos práticos e religiosos sobre o uso da maconha.

O portal de notícias Jewish Telegraphic Agency entrevistou Needelman durante a primeira turnê de lançamento do seu livro.

JTA: Me fale um pouco sobre você e como escreveu este livro

Eu cresci no Brooklin, NY, e frequentei uma escola ortodoxa moderna. Fui para Israel após o colégio para encontrar, no Judaísmo, algumas questões que senti que poderiam ter feito parte das antigas tradições sobre como viver bem e plenamente. Eu conheci o álcool em um contexto religioso, mas a maconha (religiosamente) sempre foi uma grande questão para mim. Se a Torá é um guia religioso que nos conduz a desfrutar de tudo o que é bom, ela deve se relacionar com outras coisas, como a maconha ou a yoga, por exemplo.

Eu escrevi este livro porque pensei que os jovens talvez precisem de conselhos e orientações sobre produtos que, uma hora ou outra, de uma maneira ou outra, eles vão acabar conhecendo e desfrutando. Se os jovens estão fumando maconha e usando outras drogas, eles precisam saber como se entorpecerem de forma eficaz. Meu livro discute como usar essas drogas de maneira eficaz e responsável, incluindo a percepção do ponto exato em que o leitor não precisará mais de nenhuma droga.

JTA: Porque você acha que as instituições religiosas possuem um olhar negativo a respeito das drogas, como a maconha, por exemplo?

O Judaísmo é definido por certas proibições. Essas proibições são projetadas a fim de nos proteger dos maus hábitos estrangeiros. Eu penso que aqui na América alguns valores ocidentais se tornaram leis e tabus, e eles possuem inúmeras razões para rejeitar o fumo e uso de ervas. O Judaísmo emergiu das cinzas dos sobreviventes de Jerusalém, pessoas que eram capazes de se fazerem parecer que não eram ameaças ao Estado e que exigiam que seus líderes não ameaçassem ninguém, principalmente o Estado, por isso se tornou um tabu.

A maconha não é identificada como sendo um produto especificamente Judaico, mesmo que diversos Rebes tenham se associado a ela.

JTA: Onde está escrito que Hassídicos usaram drogas e quais foram os hassidim mais notórios a fazerem o uso dela?

O Gaón de Vilna [Rabino do século XVIII e oponente (Mitnagdim) ao Hassidismo)] escreveu em seu mandado de excomunhão que os Hassidim não são confiáveis porque eles dançam, cantam e fumam. Um dos rabinos que, através dos escritos a seu respeito, transparecem que talvez tenham feito uso de drogas, foi Yisrael ben Eliezer – Baal Shem Tov – fundador do movimento hassídico. Um Baal Shem/curandeiro é alguém que desenvolve medicamentos a partir de elementos naturais, os quais ele vende juntamente com conselhos sobre como usá-los de maneira devida. Ele costumava fumar a partir de um cachimbo aquático (Talvez uma versão hassídica de um Bong?) para obter uma Alyiat Neshamá – ascensão da alma.

Seu biógrafo, Rav Yakov Yosef de Polonoye, disse que daria sua inteira porção neste mundo e no mundo vindouro apenas para degustar do que o Baal Shem tragava de seu cachimbo.

Rav Israel Friedman de Ruzhyn costumava também fumar cachimbo e defumar toda a sala antes do início do Shabat. Ele abria as janelas e dizia: “Estas são as nuvens da semana indo embora e as nuvens do Shabat entrando”. Rav Levi Yitzchak de Berditchev costumava fumar cachimbo antes de rezar.

Rav Shlomo Carlebach, muito posterior ao fundador do Hassidismo, era contra o uso de drogas, mas fumava ocasionalmente a fim de adquirir confiança das pessoas que já estavam em um nível elevado de espiritualidade e curiosidade. Carlebach, entretanto, sempre se frustrou pelo senso de dependência.

JTA: A maconha já foi parte das práticas judaicas?

Em Êxodo 30:23, está escrito sobre o recolhimento de especiarias e, dentre elas, uma chamada Knei Bosem. O exegeta do século XI: Rashi disse se tratar de uma “importante especiaria”, enquanto Nachmânides explica em detalhes que esta especiaria é universalmente valorizada em todo país e império. Rav Aryeh Kaplan, muito posteriormente, deu outra opinião, segundo a qual, esta especiaria se tratava de maconha, porque era mundialmente popular, especialmente nas tradições de terras como o Yemen e o Marrocos.

JTA: Existe alguma referência bíblica ao uso psicodélico da maconha?

Existe uma teoria que ultimamente tem circulado entre alguns teóricos e acadêmicos de que o povo Judeu no deserto teria alucinações a partir da ingestão do pão ázimo (matzá). O pão ázimo se tratava de uma massa crua de centeio que era levada ao Sol para ser lentamente cozida. Ela passa por um processo chamado Fogo de Santelmo, através do qual a comida libera substâncias psicoativas, causando alucinações em toda a nação. O texto alude a estas alucinações quando fala a respeito da abertura do Mar Vermelho, ou quando a nação vê os céus desabando por sobre os egípcios. O texto também fala a respeito dessas alucinações quando os hebreus recebem a Torah, quando eles ouviam as vozes e viam os relâmpagos. Eventualmente as alucinações se tornavam fortes a ponto de necessitar da intervenção dos sacerdotes.

JTA: Em seu livro, você comenta a respeito do uso de drogas a fim de experiências espirituais?

Não. Eu não gosto de quando as pessoas dizem isso. As drogas não criam uma experiência espiritual. Talvez as intenções do usuário sejam espirituais. Mas fumar aliena o indivíduo das suas responsabilidades e necessidades. Mas, novamente, ressalto que a maconha é a mais inofensiva das drogas – seu pior efeito é fazer o indivíduo perder a noção de suas prioridades.

JTA: Quais são os benefícios da maconha?

Eu sugiro uma série de conselhos: o melhor momento para fumar maconha é quando o indivíduo está sozinho e precisa focar em uma atividade. Isso não significa que o uso conjunto seja ruim. Pelo contrário, é igualmente satisfatório estar em um pequeno grupo de pessoas que possuem um grau elevado de afinidade entre si. É importante também ter certeza de que a maconha não se tornará um problema para o indivíduo e de que não o atrapalhará na ciência e noção do que é realmente importante.

Alguns dos bons efeitos: a maconha pode dar ao indivíduo um senso de paz e serenidade a respeito do que está acontecendo à sua volta; pode ajudá-lo a se desvencilhar de questões e problemas sérios e a lidar com estes problemas de maneira tranquila; Maconha é excelente também para rezar, especialmente se não há pressa alguma. E claro, a melhor maneira de fazer o uso “espiritual” da maconha é compartilhando-a com alguém.

JTA: Você acha que a visão das pessoas vai mudar agora que os esforços para garantir a legalização do uso de maconha estão ganhando impulsos?

Honestamente, eu não sei. Historicamente, os hassídicos nunca se importaram muito com o que era legal ou não. Eu não tenho certeza se as pessoas vão mudar sua visão sobre o assunto. Eu adoraria ver isso acontecer. Entretanto, as pessoas que estão interessadas no uso recreativo e saudável da maconha já estão fazendo isso. Elas já estão cientes dos poderes e limitações dessas coisas. Então eu não sei o quanto as coisas vão mudar e nem como, mas sei que vão mudar, e quanto mais as pessoas souberem como fazer o uso responsável a fim de tirar proveito de uma completa e excelente experiência, mais nós não teremos o que ajudar, a não ser melhorar ainda mais a completude dessas experiências. L’chayim!

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