JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Passado o Yom Kipur fica mais fácil abordar o tema do perdão. Com a inscrição garantida no livro da vida podemos conversar com mais calma. O dia do Kipur concentra o pensamento num assunto que atravessa a vida humana e diz respeito ao nosso cotidiano. Erros, arrependimentos e perdões estão sempre presentes no pensamento e na linguagem. Quantas vezes durante um dia comum usamos o inocente “desculpe”, ávidos por ouvir o “não foi nada” como resposta?
Ao reverter a seta do tempo, o perdão permite a transformação das relações porque modifica o passado e muda o futuro, ao desfazer as nódoas paralisadas da existência. Sem este movimento, as emoções e as lembranças continuariam congeladas num presente cristalizado e afundado em poças de mágoa. A tarefa do perdão, uma invenção genial do espírito humano, é libertar aquele que perdoa de qualquer vínculo com quem lhe causou alguma ofensa e fazer o relógio andar novamente. O perdão interessa, e muito, a quem perdoa. Mas, olhando do ângulo de quem o pede, ele só faria sentido se pudesse transformar a culpa em responsabilidade. Será que todo pedido de perdão garante que este caminho foi percorrido? Creio que não.
O que vemos na nossa civilização midiáca ocidental é o político envolvido com prostitutas ir a público pedir desculpas por um assunto que só deveria interessar a ele e a sua família. O que será que torna tão comum um gesto que anos atrás era assunto privado? O esquecimento das falcatruas de nossos políticos e a expectativa das autoridades de que isto aconteça não será a expressão da mesma idéia de que o perdão está garantido? Será que somos todos candidatos ao perdão antecipado porque vivemos em uma cultura que nos transformou em crianças irresponsáveis e aprisionadas entre a realidade do mundo e a urgência dos nossos desejos?
Em seu estudo talmúdico sobre o tema do perdão, Emanuel Levinas cita o tratado Yoma: “Se um homem comete uma falta com relação a outro homem e o apazigua, Deus perdoará; mas se a falta se refere a Deus quem poderá interceder por ele a não ser o arrependimento e as boas ações”. O autor grifa este final de frase. O texto é claro. Em relação ao próximo, Deus não interfere, em relação a Ele mesmo, também não. É sempre a própria pessoa que se transforma em agente do seu perdão através da atitude que toma com o outro. Seja este outro o seu próximo ou um outro mais distante, o outro por excelência, ou seja, Deus. Nada de conversas facilitadoras do tipo “você precisa perdoar a si mesmo”. Fala que aponta para o horror à responsabilidade que permeia a busca frenética por uma felicidade ancorada na satisfação imediata dos nossos desejos. Numa religião para adultos as coisas ficam mais difíceis.
Sem perdão antecipado, o homem se percebe solitário em sua responsabilidade frente ao outro. A idéia de que ele não sabe o que faz cai por terra quando existe a premissa da consciência e do conhecimento. Um humanismo de crianças abandonadas num mundo onde Deus zela por elas, se transforma num humanismo da irresponsabilidade. A mensagem contida nesta expectativa é de que quem estiver dentro da crença instituída sabe o que fazer e não erra mais. Quem estiver fora do grupo é perdoado por que ainda não sabe o que fazer. Demasiada institucional esta segurança que libera da escolha quem estiver fazendo parte da verdade do grupo. A Torah prefere a prática de responsabilidade pelo outro que não se restringe aos hebreus. Ela inclui na mesma exigência, também, o estrangeiro que mora junto à porta daquele que sabe dos mandamentos.
“Podem-se perdoar muitos alemães, mas alguns alemães é difícil de perdoar. É difícil perdoar Heidegger...de liberá-lo de sua responsabilidade”. Heidegger o filósofo que aderiu ao nazismo, a este é impossível perdoar, afirma Levinas em seu artigo. Afirmação que ecoa até os dias de hoje quando a admiração pela profundidade do seu pensar se transforma em passaporte para o esquecimento de sua adesão consciente ao hitlerismo. É na esteira dessas posições que surgem perguntas. É possível perdoar ao assassino de Itzhak Rabin, como já o fizeram tantos judeus ditos religiosos em Israel? É possível o perdão antecipado a todos aqueles que incorrem em assassinatos acobertados pela lei? É possível perdoar aos que mentem e manipulam no exercício do poder? É possível perdoar às nossas pequenas atrocidades? Nos idos dos anos 60 um amigo vivia repetindo uma frase que soava antipática: “o fascismo é a condição natural do homem, compete a nós combatê-la”. Eduardo Basili, o tal amigo, tinha uma visão apocalíptica da humanidade ou era uma pessoa lúcida? Quando em 1953 após o assassinato de cidadãos árabes da aldeia de Kivia o sábio israelense Yeshaayau Leibowitz perguntava espantado como foi possível que jovens criados no espírito do sionismo fizessem tal coisa, ele não estaria se referindo a este mesmo auto-perdão antecipado capaz de bloquear de antemão qualquer sentimento de culpa em função de uma justificativa bem construída?
E então, Heidegger pode ser perdoado ou o Eduardo é que estava certo?

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Comentário de Jayme Fucs Bar em 5 outubro 2009 às 18:43
Paulo, Andei pensando sobre o "diluidor de coisas imperdoaveis : A Arte" que nos apresenta a Flavia Muniz.
Achei essa reflexao da Flavia incrivel!
A pergunta que faco eh como podemos nos educar ou reeducar para legitimar as nossas manifestacoes humanas a produzir Artes, e artistas que possam ajudar a diluir essas coisas imperdoaveis ?
Comentário de Jayme Fucs Bar em 3 outubro 2009 às 6:36
Paulo, simplesmente brilhante a apresentação dessas suas perguntas, pensando sobre ela, me faz questionar se podemos também, nos perdoar por nosso comodismo, e individualismo exacerbado, onde vivemos em "harmonia" sem combater a essa nossa caótica realidade de atrocidades, violências, desigualdades, destruição ecológica e o processo quase eminente da desumanização do ser.
Comentário de Flávia Muniz em 3 outubro 2009 às 2:36
Paulo, novo amigo: o perdão é uma questão delicada... Faz pouco tempo que descobri que Heidegger aderiu ao nazismo, e acho que muitas pessoas também não o sabem. A filosofia dele não é menos por isso(o próprio Levinas bebeu nesta fonte). Suas questões são tão profundas que estou a quase uma hora aqui pensando o que responder. Mas talvez haja um diluidor de coisas imperdoáveis: a arte.

um abraço,
flávia
Comentário de Davy Bogomoletz em 2 outubro 2009 às 16:20
Paulo, velho amigo: Aqui está você, em seu melhor. Tiro o chapéu para esse pensamento seu e de seus amigos (Emmanuel, Yeshaayahu, Eduardo). Aos dois primeiros e a você não tenho muito a dizer. Vocês já disseram tudo. Só posso dizer algo em relação ao aforismo do Eduardo Basili: O fascismo é a condição natural do homem imaturo, que precisa de um Grande Pai (que às vezes é chamado também de Grande Irmão) para guiá-lo. Gente madura não precisa disso. E gente madura pode definida pelas palavras da moça que fez o comentário acima, a Sheyla Azulay: reconhece-se as pessoas amadurecidas por sua ambiguidade interna que as faz olharem para os dois lados da moeda simultaneamente. Gente amadurecida SABE que a verdade é sempre duas, portanto que não há certeza que não seja burra. O que Eduardo fez foi lançar um alerta, e nesse sentido acertou em cheio.
Grande abraço
Davy.
Comentário de SHEYLA DRYSWIACKI AZULAY em 2 outubro 2009 às 12:50
Admitir de fato o erro requer transformação. Não se trata de um simples perdão. A dificuldade reside em sermos capazes de ver o horror do que fomos capazes de cometer, as consequências advindas dos nossos atos. É mais simples persistir no erro e encontrar suas justificativas. Não há transformação sem o sofrimento dessa constatação. Nas relações interpessoais isso já é de enorme dificuldade, o que dizer então quando se trata de questões sociais, históricas, de eternas repetições. Todos tem razão. Todos erram. E o horror acontece. Mas ainda não creio que o Eduardo esteja certo.

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