JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Massada em terras portuguesas - Noite de Chanuka de 1496 Jayme Fucs Bar

Um dos livros que mais aprecio sobre a história dos judeus de Portugal é do rabino e historiador Alemão Meyer Kayserling, que nos meados do século XIX ainda, quando os arquivos do Santo Ofício da Inquisição em Portugal permaneciam
secretos, ele decidiu pesquisar e divulgar uma temática esquecida:
" A História dos judeus de Portugal”.
Eu pessoalmente considero o trabalho realizado por Meier Kayserling um dos mais fiéis retratos da triste trajetória do judaísmo Português.
Não sei quantas vezes já li e consultei esse livro, e aqui estou em minha casa no Kibutz Nachshon , mais uma vez com esse livro aberto em minhas mãos, aproveitando esses tempos da pandemia para pesquisar sobre essa rica fonte de informações que Meier Kayserling nos oferece. Por acaso abro uma página e me dou de frente com um episódio no período de Dom Manuel e, cada vez que avanço na leitura, lágrimas caem dos meus olhos!
É inacreditavel como o povo judeu tem que sofrer tantas perseguições e incalculáveis tentativas de extermínio.
E tudo isso aconteceu num belo dia de 24 de dezembro. Por acaso essa era uma noite de Natal e também o acender da primeira vela de Chanuka. Foi nesse triste dia que se decretou o destino dos judeus de Portugal, onde o rei Dom Manuel ordenou que os judeus teriam um prazo de 10 meses para se converter ao cristianismo e, se não, teriam que abandonar Portugal.
Uma grande maioria começou a providenciar a partida e começaram a abandonar Portugal, principalmente para o império Otomano e Holanda, mas essa situação desagradou muito ao rei que tinha esperanças de uma conversão sem o uso da força. Somente uma minoria, principalmente os judeus mais ricos, optaram por essa opção.
Dom Manuel, frustado com seus planos e incentivado pelo clero fanático, não esperou terminar o prazo que ele próprio determinou! E vai publicar a pavorosa ordem na noite de Páscoa de 1497, em que todas as crianças judias menores de 14 anos fossem arrancadas de suas casas e levadas para serem criadas e educadas na fé cristã.
Incrível como existem vários relatos sobre esse diabólico episódio em nome da fé cristã e muito pouca coisa foi escrita até hoje.
Fico imaginando os gritos de despero de cada pai e mãe judia, agarrados com unhas e dentes para salvar seus filhos!
Entre muitos relatos está um de um cristão velho de nome Coutinho.
“ Vi com meus próprios olhos como muitos foram arrastados pelos cabelos à pia batismal!
Vi como um pai de cabeça coberta sob dores e lamentação acompanhou seu filho e, de joelho, clamou que o todo-poderoso fosse testemunha que jamais abandoriam a fé mosaica e desejariam a morte do que a fé cristã”
Outro episódio conta sobre um judeu de nome Isaac Ibn Zachin homem erudito que matou seus filhos e se suicidou, pois queria morrer como judeu.
Há também relatos de mães que se suicidaram agarradas aos braços com seus filhos, se atirando nos poços e rios.
Mas também não faltaram verdadeiros e bons cristãos que, vendo toda essa barbaridade, não refutaram em ajudar a esconder certas crianças e, quando foram descobertos, pagaram com suas vidas.
Um soberano trasfigurado num monstro vendeu os judeus pelo amor ao poder e estava definitivamente convencido em obrigar todos os judeus a adotarem o Cristianismo.
O Mês de Outubro chegou àqueles que ainda tinham a esperança em acreditar nas palavras do rei e foram, por sua ordem, se concentrar no Porto de Lisboa como a última oportunidade de abandonar Portugal. Cerca de 20 mil judeus e judias se apresentaram nesse Macabro encontro e "ficaram a ver Navios”, termo até hoje popularmente usado que muitos não sabem a sua verdadeira e triste origem.
Chegando ao seu destino o “Porto da desgraça”, foram presos e encaminhados como gado para o matadoro, onde foi anunciado que o prazo havia expirado e, à força, foram batizados em pé com baldes de água “Benta”. Quem tentou fugir ou reagir foi imediatamente morto!
Mesmo que, oficialmente, a Inquisição Portuguesa tenha sido decretada em 1536, durante o reinado de D. João III, pelo Papa Paulo III.
Aqui fica registrado que em Chanuka (29 de Kislev) de 24 de Dezembro de 1496 foi oficialmente a data do fim do judaísmo em Portugal.
Eu sei que estamos na véspera de Chanuka (Chag Orim) Festa das Luzes e esse texto que escrevo não é fácil de ler, mas me sinto na obrigação de acender uma pequena vela de Chanuka para iluminar e homenagear as vítimas desse triste episódio, que ficou esquecido na nossa história!
Quem não conhece a história do último baluarte de resistência dos judeus em Massada contra a opressão romana e o seu tráfico fim do suicídio coletivo !?
Em Portugal isso também aconteceu!
Eu chamaria essa data de Massada em terras portuguesas!

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Massada em terras portuguesas - Noite de Chanuka de 1496 Jayme Fucs Bar

Olá Jayme

Estou lhe respondendo aqui de Barcelos, Portugal. 

Também li o livro de Meier Kayserling. Nunca foi traduzido em Portugal ( vá-se lá saber porquê) Tive de o comprar no Brasil, com uma tradução ( diga-se excelente ) de Anita Novinsky ( ainda está viva? )

Pela a excelência do teor do texto, que li sofregamente e, vou lá muitas vezes, devia ser obrigatório a sua leitura a quem se interessa pela causa Judaica, mas  vou chamar a atenção para duas referências, quanto ao seu texto e ao livro e ligadas à minha terra, Barcelos.

Se ler no segundo preâmbulo do livro, vai verificar que a tradutora  Anita, afirma com o apoio de um seu aluno Paulo Valadares,  que a Sérgio Buarque da Holanda, pai do Chico Buarque da Holanda, jornalista e autor de Raízes do Brasil, é descende do ULTIMO RABI DE BARCELOS.

Gostaria, e muito, de aprofundar este tema. Pode-me ajudar?

Quanto ao ao episódio da retirada das crianças até aos catorze anos dos filhos dos Cristãos Novos pelo Rei D. Manuel. Anos antes D. João II, quando acolheu os Judeus, expulsos de Castela e Aragão,  pelos Reis Católicos, no dia 31 de março de 1492, a troco de avultadas quantias ( foi aqui que inventamos o Visto Gold, tão em voga, nestes tempos ),muitos Judeus Castelhanos entraram clandestinamente em Portugal sem pagar qualquer tributo, porque eram pobres. Então, D. João II, pressionado pelos frades católicos, retirou aos Judeus as crianças desde o seu nascimento até aos 14 anos, entregou-os a Álvaro de Caminha, que os levou para as Ilhas, recém descobertas de São Tomé e Príncipe, onde quase todas as crianças vieram a morrer vítimas da ferocidade  dos animais selvagens existentes nessas ilhas. Algumas que sobreviveram foram colonizar o Brasil.(  Kayserling fala deste episódio no livro em questão )

Ora, mais tarde, como escreve no texto, D. Manuel, também por pressão dos frades católicos, fez o mesmo. E aqui vem a atitude   nobre da população Cristã Velha de Barcelos. Sabendo do desespero dos Cristãos Novos e do episódio do D. João II, recolheu as crianças em suas casas e, mais tarde, devolve-as aos seus pais verdadeiros, que, por sua vez, começaram a emigrar principalmente para a Holanda. Foi um ato heroico da população de Barcelos, que nunca foi reconhecido. 

Um abraço

Quando vem a Portugal para o conhecer pessoalmente?

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