JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

                             Não fazemos conversões e nem removemos montanhas.

                                                                                                            Paulo Blank.

         

Como todos os textos da tradição a Hagadá de Pessach parece infinita. Anos de leitura e estudo não esgotaram os seus sentidos. Então para que tanta ansiedade de inventar outra Hagadá se nem começamos a explorar esta que se encontra em nossas mãos desde o século quinze?

Hagadá um ato de contar, vehigadita le banecha, e falarás com os teus filhos sempre, e novamente, sobre  a saída do Egito. Escravidão que se renova libertação que não termina. Saída a ser vivida a cada ano. Cada um deve sentir-se como se ele, o próprio, e não outro estivesse saindo do aperto do Egito. Assim nos ordena o texto.

Contar a saída do Egito, todos os dias da vida.  Com rabi Eliezer aprendemos: mesmo que o mundo futuro fosse construído em nossos dias ainda sobraria tempo e texto para falar das nossas escravidões humanas e das inúmeras tentativas de construir a liberdade.

E da preguiça. Enorme preguiça de abandonar o Egito do espírito humano. Espírito preguiçoso, ancorado no esforço que aliena o humano e o faz estranho a si mesmo e o afasta do encontro com o outro. Trabalho estranho. Avodá Zará.

Avodá Kashá. Trabalho pesado. Kotzer Ruach. Espírito encurtado. Por causa do espírito encurtado e do trabalho árduo os hebreus não deram atenção a Moshé quando ele lhes anunciou a libertação. Eis o que diz a Torah.

Mas os sábios nos ensinam: Avodá Kashá, o trabalho árduo era, na verdade, a Avodá Zará, o trabalho estranho. Estranha trabalheira de adorar deuses egípcios. Hábitos egípcios. Pompa egípcia cheia de pretensão. Encurtamento da visão por causa do trabalho estranho que aliena o homem dos seus sentidos. Da percepção do outro. Será isto que nos faz escravos?

 

Os nossos antepassados não queriam largar o Egito onde os escravos também possuíam escravos numa cadeia de aprisionamentos sem fim de onde só deus escapa porque se encontra no final da fila. Had Gadia. Cadeia de violência interminável. Cadeia que precisa ser interrompida. Hoje. Já. Como nos diz Hava Albestain em seu lindo Had Gadia postado neste blog.

 

Então, para que largar o paraíso sobre o Nilo? Não é nada fácil largar da arrogância de poder sobre deuses que justificam o uso da força e trocá-los pelo pão simples sem fermento e o cuidado com o órfão, a viúva, o pobre sem trabalho digno.

Matzá. Pão pobre. A Matzá de todo dia. Refeição a ser incluída na dieta messiânica do Olam Habá. O mundo por vir.  Partir para o deserto em busca de uma terra sem leite e mel.

Difícil esta tal de liberdade que o judaísmo nos impõe. Difícil destino de ser eleito para dar duro sem qualquer privilégio de salvar a alma enquanto outros nadam no Nilo da crença alienante.

O alienado  não tem contato com o outro por que a sua mente desabitou o  corpo. Mora em um lugar que não lhe pertence. Um imóvel alienado.

Se você estiver plantando uma árvore e o mashiach chegar, continue cuidando da árvore. Ensinaram os sábios sem qualquer pretensão ecológica.

Ancorada no texto e comprometida com a realidade a tradição judaica rejeita as crenças mágicas. Poderíamos dizer sem risco de erro que é uma religião materialista. O deus protetor e pessoal com quem alguns conversam em sua santa pretensão, foi sendo incluído como contraponto à idéia de um deus ausente cujo único rastro entre nós é um texto.

Texto que remete a uma ética. A primeira ética humana foram as suas crenças em um divino ausente que deixou ao humano a árdua tarefa de cuidar do mundo. Interno. Externo. Seu. Dos outros.

Por isto fomos feitos à imagem de deus. A imagem de um deus que criou e cuidou do primeiro humano para que este passasse a cuidar de si mesmo e dos outros humanos.

A fé no deus de Israel não remove montanhas. Uma religião para adultos.

 

Beiad Hazaká, com o braço firme e forte de deus os de Israel foram arrancados da escravidão. Braço forte para quê? Será que não queriam sair do Egito?

 

Enquanto isto o Erev Rav, a multidão que não pertencia às tribos de Israel se juntou aos  Hebreus  por vontade própria.  Com eles Moises não precisou conversar. O Erev Rav aderiu assim que viram Israel caminhando na madrugada de um novo tempo. Foram juntos. Eis o Erev Rav. A multidão que se juntou aos de Israel na construção do Olam Há Ba  daqueles dias. O mundo vindouro de então.

Ninguém se lembra deles a não ser para culpá-los do que não fizeram. Segundo certa tradição eles são responsabilizados pelo  bezerro de ouro. Foram os de Israel que pediram a Aharon para abandonar a espera por Moises e, no entanto, muitos preferem dizer que os Erev Rav induziram o povo sem líder. Atitude que faz lembrar pais que não suportam os erros dos filhos e dizem que foi a influência dos amigos.

O Erev Rav não precisou de conversões. Não precisou de pregações. De promessas de salvação. Do braço forte de deus ou da persuasão de Moisés, o emissário gago de um deus sem forma e sem nome. O Erev Rav saiu do seu Egito por vontade própria e aderiu ao pacto de criar o novo fora da história.

O Erev Rav. A nossa dimensão arrojada. Libertária. Sempre em luta com o poder inchado dos faraós que nos habitam. A ele dedico este texto de Pessach. A ele e ao Claudionor Rolim da Costa que no ano passado saiu do planalto central e cruzou o Brasil de ônibus só porque viu neste pobre blog o anuncio de um novo seder.

Claudionor chegou ao Rio sob uma catástrofe de águas amargas. Uma inundação sem paralelo. Só porque queria participar de um seder. Um seder que foi denominado de encontro de muitas águas bem antes das comportas do céu se abrirem sobre a cidade. Elias, como manda a tradição, resgatou o Claudionor de um hotel sem luz e juntos cruzaram a pé a cidade deserta até a nossa casa cercada de águas até os joelhos. Por causa do Claudionor fizemos um seder naquela noite inesquecível. Sentamos-nos na cozinha da casa e conversamos horas ouvindo as histórias de sua travessia em direção ao judaísmo que ele tanto quer e a ninguém pertence.

No Judaísmo Humanista não fazemos conversões, mas, em troca, aceitamos adesões e conversamos bastante.

 

Um bom Pessach. Uma boa travessia para todos.

 

 

 

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Querido Paulo.

Depois deste texto, confesso que fiquei apaixonado por você

A cada dia sou mais fã.

Shalom VeOr!.

 

Querido amigo Paulo, Shalom.

 

Gostaria apenas de agradecer esse texto que para mim foi muito além das palavras.Só que eu vejo que o blog faz sim a conversão de idéias em ideais, e é por esse motivo que está sendo criado uma verdadeira sociedade aqui no blog, onde temos o mesmo objetivo.

 

Grande abraço.

 

 

Paulo... Voce tem o dom de fazer lagrimas rolarem por meu rosto...Abundantes... Pessach Sameach e um shabat cheio de shalom e sincha!!!

Acho que todas as pessoas do blog deveriam ler, refletir e dar sua opinião sobre o texto.

Todos temos um Egito. Egoísmo, arrogância.. e sair dele talves seja reforçar a idéia de que

"ser humano" é compartilhar, independente de crença ou qualquer outra coisa, atos e pensamentos

 que elevam a razão de estarmos aqui na terra.  

Shalom!=*

 

 

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