JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

O teatro não pode parar! Em memória de Antônio José da Silva, o judeu — Jayme Fucs Bar

Tenho muitos amigos e amigas no Brasil que dedicam sua vida à arte: teatro, cinema, música, fotografia, entre outras modalidades.
Para o artista, a arte é uma trajetória, um caminho indissociável de sua vida, de quem ele é, de tal forma que a arte continua viva, mesmo sem ele, e em muitos casos para a eternidade.
Gostaria de contar a vocês a história de um brasileiro chamado Antônio José da Silva, o judeu. Ele se dedicou ao teatro e viveu na primeira metade do século XVIII, no período do reinado de Dom João V. Ele descendia de uma família judaica muito culta de médicos, advogados e grandes comerciantes. Seus avós eram da pequena aldeia de Torre de Moncorvo, onde existiu uma importante comunidade judaica antes da inquisição.
Grande parte de sua família veio para o Brasil para escapar da intolerância religiosa portuguesa. Eles se estabeleceram no Rio de Janeiro e aí retomaram a prática judaica, assim como fizeram outros cristãos-novos no Brasil.
Antônio José da Silva nasceu no Rio de Janeiro. Por segurança, foi batizado no catolicismo, mas em casa recebeu educação judaica, inclusive foi circuncidado por seu avô, que era dono de um engenho na região da Covanca, local onde Antônio José nasceu e foi criado. O local é a atual cidade de São João de Meriti, no Rio de Janeiro.
Parece que sua mãe, Lourença da Silva, era quem mantinha e passava a fé judaica secretamente. A família fazia encontros em uma esnoga (tipo de sinagoga onde cristãos-novos se reuniam), que, ao que parece, ficava no engenho de seu pai, o avô de Antônio José.
Dona Lourença da Silva agia como muitas mulheres de sua época na liderança de suas pequenas comunidades secretas. E assim tornou-se mais um caso de denúncia e logo foi presa e deportada para Portugal para ser processada pela Inquisição.
Seu marido, João Mendes da Silva, para tentar ajudar a salvar a esposa, voltou para Portugal com o filho Antônio José. E passaram a viver em Lisboa para acompanhar de perto o caso e tentar libertá-la dos carrascos do Santo Ofício.
Dona Lourença foi torturada e passou vários anos nos cárceres da Inquisição. Mas por fim, conseguiu ser libertada.
Antônio José da Silva, nesse período, foi estudar Direito na Universidade de Coimbra. Porém pouco exerceu essa profissão, sua paixão era a literatura: prosa, poesia e principalmente teatro.
Sua saída do Brasil para Portugal foi decepcionante. Ele logo descobriu que a sociedade portuguesa era composta por súditos e clero corruptos e gananciosos, comandada por um rei imoral, que gastava riquezas em construções inúteis, enquanto em seu país quase não havia boas estradas nem saneamento e a maioria da população era analfabeta, ignorante e vivia de forma humilhante.
Esse foi o seu olhar crítico em relação a Portugal. Sem contar o medo constante de ser denunciado pela origem judaica. Mas como é muito comum na cultura milenar judaica, os sofrimentos, as dores e o medo se manifestam por meio da linguagem artística.
Antônio José da Silva começou a desenvolver a sua arte na dramaturgia, por meio da qual colocou para fora todo o seu desconforto com as questões sociais, políticas e religiosas de Portugal. Escreveu sátiras sobre a sociedade portuguesa que foram quase imediatamente aceitas e aplaudidas no meio popular e por parte da intelectualidade portuguesa.
Por causa de sua origem judaica, ele sabia que estava sempre ameaçado e em perigo, e não demorou muito para ser acusado de prática judaizante. Na verdade, esse foi um pretexto das autoridades para prendê-lo e calar sua boca.
Na prisão, foi torturado severamente e chegou a ficar parcialmente inválido de seus dedos por um bom tempo, Embora fosse amigo pessoal do famoso Alexandre de Gusmão, que era conselheiro do rei Dom João V, não pôde contar com a ajuda dele.
Entretanto, para salvar sua vida admitiu exercer práticas judaizantes. Torturado, ferido e humilhado, teve que pedir “perdão” por seus erros, e só então foi posto em liberdade.
Passou três anos afastado do mundo do teatro, mas seu desejo de escrever e divulgar sua arte era maior que as ameaças que sabia que teria que enfrentar.
Antônio da Silva dessa vez voltou às suas atividades literárias e teatrais de forma fervorosa e apaixonante, como se soubesse que seu tempo estivesse predestinado a terminar.
Seu brilho e sua arte rapidamente voltaram a ser reconhecidos e aplaudidos de pé pelos portugueses. Em várias ocasiões, ele foi conclamado o maior dramaturgo português da época. Era considerado um gênio literário, o rei das sátiras. Antônio da Silva escreveu uma série de comédias, paródias, óperas cômicas e criou também um teatro de fantoches único, jamais visto em todo Portugal.
A sua arte era uma forma de despertar a consciência da população em relação às injustiças, ganância, corrupção e fanatismo religioso. Mesmo sob ameaça, ele não parou de produzir sátiras sobre a classe dominante, que enxergou em suas obras um perigo para a coroa portuguesa, por apresentar, de forma camuflada, ideias iluministas e libertárias.
Antônio José sabia que seus dias estavam contados. Até então, ele só conseguira escapar da prisão graças ao conde de Ericeira, que era um grande admirador de suas obras e um protetor. Porém, sua sorte mudou com o falecimento do conde.
A partir desse momento, ele sabia que o seu destino estava determinado. E ele estava certo, pois não demorou muito para que os inimigos satirizados em suas obras o denunciassem por prática judaizante.
Foi preso em 1737 em Lisboa, com toda a sua família, inclusive a esposa, Leonor Maria de Carvalho, que era sua prima e cujos pais haviam sido jogados à fogueira por ordem da Inquisição. Quando foram presos, Leonor estava grávida. Foram acusados da prática judaizante de guardar o dia de Yom Kipur e o Shabat.
Antônio José da Silva era um reincidente e, portanto, não conseguiu escapar dessa vez dos carrascos da Inquisição. Morreu no dia 18 de outubro de 1739 garroteado e queimado na fogueira.
A intolerância religiosa da Inquisição portuguesa queimou o judeu Antônio José da Silva, mas não conseguiu apagar o legado que ele deixou para a arte e cultura luso-brasileiras.
Sua alma artística ainda continua viva em Portugal. E andando à noite nas ruas e nos becos de Lisboa, você quase consegue ouvir um clamor.
“Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar! Por favor, entrem. Venham conhecer os bonifrates, as máscaras, a ópera cômica de Antônio José da Silva, o judeu!”
Peças e textos de Antônio José da Silva:
Vida do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança (1733)
Esopaida ou Vida de Esopo (1734)
Os Encantos de Medeia (1735)
Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1736)
Labirinto de Creta (1736)
As Variedades de Proteu (1737)
Guerras do Alecrim e da Manjerona (1737)
Precipício de Faetonte (1738)
El Prodígio de Amarante (comédia escrita em espanhol em torno de 1737)
Amor Vencido de Amor e Os Amantes de Escabech (ambas perdidas)
Fontes :
Reflexão e obra de Antônio José da Silva o Judeu - Glória Padecer -Marionetas do Porto.
O teatro de bonifrates em Antônio José da Silva, o Judeu – dissertação de Mestrado de Jose Luiz de Oliveira Universidade – Vila Real 2010.
https://pt.wikipedia.org/.../Ant%C3%B3nio_Jos%C3%A9_da_Silva

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