JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Na raiz sionista há um paradoxo. Por um lado, não há dúvidas sobre a profundidade e intensidade da ligação entre o povo judeu e a Terra de Israel: sempre existiu uma comunidade judaica, ainda que pequena, vivendo na Palestina e sempre houve um punhado de judeus que chegaram à Terra Santa para viver e morrer nela. Além disso, durante dezoito séculos de exílio, o laço com a Terra de Israel se manteve presente no sistema de valores das comunidades judaicas em todo o mundo e em sua auto-consciência de grupo. Se este laço se desfizesse e os judeus não considerassem a Terra de Israel como o país de seu passado e seu futuro, então o judaísmo teria se convertido em uma mera comunidade religiosa, perdendo seus elementos étnicos e nacionais. O que distingüe os judeus das comunidades cristãs e muçulmanas majoritárias em cujo seio residiram durante dois milênios não foi apenas a diferença de crença religiosa, mas também sua ligação com a pátria distante de seus antepassados. Isto ocorreu porque os judeus foram considerados pelos demais – e se consideravam a si mesmos – não apenas uma minoria mas uma minoria exilada.
Por outro lado, é um fato que, apesar da intensidade emocional, cultural e religiosa, este laço com a Palestina não mudou a praxis da vida judaica na diáspora: os judeus podiam rezar três vezes ao dia pela libertação que transformaria o mundo e os transportaria à Jerusalém, mas não emigraram para lá. Podiam lamentar anualmente a destruição do Templo em Tishá Beav e deixar faltando um ladrilho na moldura da porta como recordação constante da desolação de Sião, mas não se mudaram para lá. Aqui e acolá alguém viajava à Jerusalém, ocasionalmente os movimentos messiânicos arrastavam indivíduos e inclusive comunidades inteiras em fervor pelo retorno redentor que desaparecia cedo ou tarde. A crença no retorno à Sião nunca desapareceu, mas a história nos demonstra que, enquanto grupo, os judeus não se vincularam à visão do retorno de maneira mais ativa que a maioria dos cristãos consideravam a Segunda Vinda. Como símbolo de fé, integração, identidade de grupo era um poderoso componente do sistema de valores mas como elemento ativo, produtor de praxis histórica e realidade mutante através da história, foi quase totalmente passivo. O pensamento religioso judeu inclusive, desenvolveu uma estrutura teórica destinada a legitimizar esta passividade através de um ceticismo em relação a qualquer intervenção ativa no curso divino dos acontecimentos. A providência divina e não a intervenção humana devia determinar quando e como os judeus serão redimidos de seu exílio e retornarão à Sião.
Este é, então, o paradoxo: por um lado, um forte sentimento de união com a Terra de Israel, que chegou a ser talvez a característica mais distintiva da auto-identidade judaica e por outro lado, uma atitude imóvel diante de qualquer conseqüência prática ou operacional deste laço.
Até a segunda metade do séc. XIX não aparece um movimento ativo para o retorno judeu à Palestina. Este movimento, que culminou com o surgimento do sionismo como força política e o estabelecimento do Estado de Israel, mudou radicalmente o curso da história judaica e a natureza do laço entre os judeus e a Terra de Israel. Isto requer uma explicação diferente das bondosas e às vezes apologéticas frases que relacionam o sionismo com o "profundo laço com a Terra de Israel", por verdadeiras que sejam. Como é que este laço se converteu em ativo no séc. XIX, depois de haver permanecido passivo durante dezoito séculos? Por que foi exatamente na atmosfera laica dos séculos XIX e XX que um laço, originalmente religioso, se transformou em uma potente força de ação?
A explicação mais comum, que encontramos em livros e na propaganda política, relaciona o surgimento do sionismo no séc. XIX com a erupção do anti-semitismo, o aparecimento de teorias racistas na Alemanha e França, o caso Dreyfus, os Pogroms da Rússia em 1881-1882 e as matanças em Kishinev em 1903. Mas estes exemplos somente dão por certo o que está em discussão. Não foi apenas a fins do séc. XIX que os judeus começaram a experimentar sentimentos de hostilidade por parte das comunidades que os rodeavam. A história judaica é a crônica de uma discriminação que começa muito antes do aparecimento do anti-semitismo racista do séc. XIX. Os judeus foram perseguidos sob os visigodos e os bizantinos, massacrados durante as Cruzadas, expulsos da Inglaterra, França e depois da Espanha e Portugal, não foram permitidos residir nas cidades imperiais do Sacro Império Romano, convertidos à força tanto na Pérsia como em Portugal, obrigados a vestir roupas distintivas e impedidos de ocupar cargos públicos na Itália cristã e no Marrocos muçulmano. Em todos estes casos, os judeus reagiram através da resignação e da imigração a outros países, mas não à Palestina. O que os levou a reagir às perseguições do séc. XIX dirigindo-se à Sião?
Os Pogroms russos e a política anti-semita do governo czarista levou a quase três milhões de judeus a emigrar da Rússia entre 1882 e 1914. Apenas uma pequena fração destes, provavelmente 1%, se dirigiu à Palestina. A grande maioria imigrou aos Estados Unidos, Canadá, América do Sul e Austrália. O sionismo não foi a solução para a grande maioria dos judeus perseguidos e inclusive este 1% que chegou à Palestina poderia ter se integrado a esta grande onda imigratória que seguiu o caminho judaico tradicional de continuar suportando os desastres do exílio. O fato de que uma vanguarda minoritária optara pela Terra de Israel não pode ser explicado somente pelo empurrão que os expulsou da Rússia. Houve também uma atração à Palestina. Assim, a pergunta fica no ar: Por que esta atração funcionou nos séc. XIX e XX e não antes?
Desde qualquer ponto de vista concebível, o séc. XIX foi o melhor século que os judeus experimentaram, coletiva e individualmente, desde a destruição do Templo. Com a Revolução Francesa e a Emancipação, os judeus foram pela primeira vez aceitos na sociedade européia como cidadãos e pela primeira vez gozaram de igualdade diante da lei, podendo ingressar nas escolas, universidades e profissões que tradicionalmente estavam proibidas.
De fato, se compararmos o começo do século com o seu final, fica dramaticamente evidente que econômica, social, política e intelectualmente, foi este o século mais revolucionário na história judaica. A comunidade judaica européia de 1815 constituía uma comunidade ainda à margem da sociedade gentil. As grandes cidades da Europa como Paris, Viena, Londres, Moscou eram ainda Judenrein. Sociologicamente, os judeus ainda estavam excluídos de cargos no serviço público. Não permitiam seu ingresso às escolas e universidades nem podiam ser funcionários públicos ou servir no exército, assim como estavam excluídos da maioria das profissões. A maioria dos judeus se encontravam relegados à humilde vida de pequenos mercadores intermediários, encontrando sustento em uma sociedade que os excluía mesmo quando tolerava suas crenças religiosas.
Em 1914, cem anos depois da emancipação, os judeus se transladaram da periferia ao centro da sociedade européia. Geograficamente, os judeus se concentraram em metrópoles tais como Berlim, Viena, Budapeste, Varsóvia, Londres, Paris, Odessa, Nova York, Chicago e Filadélfia e em uma proporção maior que seu número na população geral. Da mesma maneira se destacaram nas tarefas intelectuais. Universidades, escolas, academias atraíam cada vez maior número de judeus a suas atividades. Os judeus alcançaram importantes posições no jornalismo, literatura, música, ciência, pintura, filosofía e psicologia, o mundo das finanças se encontrava repleto de magnatas judeus e nos movimentos revolucionários abundavam líderes judeus, desde Karl Marx, Moses Hess e Ferdinand Lassalle, até eminentes nomes judeus entre os social democratas e social revolucionários russos. A história européia destes dias não poderia ser escrita sem assinalar a presença judaica. Os judeus não se situaram na cúpula do poder político e econômico como alguns anti-semitas gostariam de acreditar mas se não estavam no culme da sociedade estavam certamente em seu centro e eram muito visíveis. De uma comunidade marginal se transformaram nos grandes beneficiários do Iluminismo, da Emancipação e da Revolução Industrial.
Se era este o quadro principal, que questão pretendia o sionismo resolver? Se o séc. XIX foi tão bom para os judeus, por que, por primeira vez, surgiu um movimento que tratava de tirar os judeus dos continentes nos quais residiam, mesmo que precariamente, durante dois mil anos?
No séc. XIX o problema judeu ainda exisita e era muito agudo. Não era meramente econômico nem tampouco a continuação dos dramas que enfrentaram os judeus na sociedade gentil nos anos que antecederam 1789. O problema, assim como se revelava a judeus e gentis, era produto do Iluminismo e da Emancipação. Constituía um problema especificamente moderno, que requeria respostas modernas e inovadoras e os judeus foram incapazes de encontrar uma solução no mecanismo tradicional da adaptação e passividade.
O que o Iluminismo e a secularização fizeram com os judeus foi que estes transformaram a percepção de si mesmos assim como a percepção que a sociedade não-judia tinha deles. Até o final do séc. XVIII, se se perguntava a um cristão o que o diferenciava de um judeu, este teria respondido em termos de crença religiosa, e o mesmo teria feito um judeu. A identidade para um indivíduo e para um grupo era baseada em termos religiosos e o caráter judaico distintivo era considerado como pertencente a um contexto religioso por judeus e não-judeus.
A religião determinava também o estatuto legal do judeu: sendo o que era em virtude de seu compromisso religioso, não podia naturalmente ser parte do corpo político, que definia a si mesmo em termos religiosos. Visto que a sociedade cristã considerava sua organização política como expressão dos dogmas cristãos, o judeu devia ser excluído. Podia ser tolerado levando em consideração que a maioria das sociedades cristãs na maior parte das épocas permitiram aos judeus liberdade de culto. Porém o preço desta tolerância era a separação e uma clara, definida e legitimada discriminação. A comunidade judaica, a Kehilá, organizadora da vida social e religiosa dos judeus marginalizados se converteu em uma organização cuasi-política desta minoria.
Neste equilíbrio hierárquico e não igualitário, o judaísmo foi capaz de existir durante dois milênios. Os princípios básicos deste equilíbrio e a separação dos judeus como comunidade religiosa distinta foram internalizados, tanto pelos judeus como pelos gentis. Foi este equilíbrio, apesar de todas suas ocasionais e horríveis comoções que permitiu que os judeus sobrevivessem em um meio ambiente basicamente hostil. Também lhes permitiu internalizar seu estatuto legal inferior, legitimizado na sociedade gentil pelo sentimento que o cristianismo é uma religião triunfante e na comunidade judaica através da teologia do exílio.
O Iluminismo e as repercuções da Revolução Francesa na maior parte da Europa romperam este equilíbrio. A secularização e o liberalismo abriram a sociedade européia aos judeus como iguais. Pela primeira vez depois da destruição do Templo se abriram escolas, universidades, o serviço público, a política e as profissões aos judeus como cidadãos. A igualdade diante da lei e a transferência da religião ao âmbito da vida privada significavam que o Estado não considerava mais a si mesmo como cristão e sim incluiria daí em diante cada cidadão, independente de suas crenças religiosas ou a ausência delas.
E foi exatamente esta abertura da sociedade não-judia que criou uma série completamente nova de dilemas e problemas, para os quais a tradicional estrutura da Kehilá era completamente inadequada, estando baseada na separação e na discriminação dos judeus pela sociedade cristã.
A área da educação nos ilustra muito bem este problema. A escola na sociedade não-judia era antes do Iluminismo um ramo da atividade religiosa cristã. Deste modo os judeus não freqüentavam tais escolas. Os cristãos, por um lado, não aceitavam crianças judias e os judeus nem sonhavam em mandá-los. Desta maneira a única educação formal para as crianças judias era a dada pelas escolas religiosas tradicionais, o cheder e a ieshivá.
Com a Emancipação, os pais judeus começaram a enviar seus filhos a escolas gerais, que haviam se secularizado. Não existiam mais escolas cristãs e a educação religiosa nos lugares onde existiam era uma matéria mais entre outras e os alunos judeus estavam isentos destas aulas. Esta solução, aparentemente honesta, razoável e liberal, não tomou em conta alguns problemas básicos de identidade. Como as escolas funcionavam nos sábados, pais e alunos judeus se enfrentaram imediatamente com o problema de se adaptar a um sistema educacional antagônico aos dogmas judaicos sobre o Shabat. A criança terá que ir à escola no Shabat? Deverá escrever no Shabat? E o que acontecerá se há provas no sábado? E em relação às festas judaicas, que obviamente não eram reconhecidas pelo sistema escolar? Milhares de respostas foram dadas por pais e alunos judeus a estes dilemas. Alguns preferiram enviar seus filhos a escolas que funcionavam no sábado, outros aconselhavam seus filhos a não escrever no sábado, ou talvez escrever com a condição de que fosse uma prova muito importante. Outros combinaram uma atmosfera religiosa em seus lares e enviaram seus filhos à escola. O importante não são as respostas individuais às quais chegaram e sim o fato de que os problemas de identidade judaica não foram resolvidos pelo liberalismo ou pela tolerância, ao contrário, foram de certa maneira exacerbados.
Um novo universo de problemas para os quais as regras tradicionais não tinham resposta se abria diante dos judeus emancipados e secularizados. A este dilema de identidade especificamente moderno dentro do contexto do liberalismo, agregamos outra série de problemas originados pelo nacionalismo. As forças que resultaram da Revolução Francesa não foram apenas aquelas do liberalismo e da secularização mas também do nacionalismo. O judeu moderno, secularizado e educado, desprendido de muitas de suas características particulares, se viu tendo que se enfrentar com a dificuldade de se relacionar com uma sociedade não-judia que, apesar da adesão aos princípios universalistas, considerava sua própria identidade em termos de integração e coesão nacionais. A auto-percepção religiosa da sociedade gentil não foi trocada pela fraternidade universalista e indiferenciada e sim por uma nova identidade caracterizada pelo nacionalismo, a etnicidade, o idioma e uma história comum, real ou imaginada. Se os indivíduos deixaram de se considerar primordialmente como cristãos e a seus vizinhos como judeus no sentido religioso, começaram a reconhecer a si mesmos como franceses, alemães, russos, poloneses, húngaros.
Foi neste mundo de crescente nacionalismo no qual ingressou o judeu moderno e emancipado e nele se confrontou com novos dilemas de identidade, tanto internos como externos. Nenhum indivíduo judeu gostaria de entrar à antiga sociedade cristã como judeu mas agora que a sociedade se baseava em bases universalistas, ficavam ainda a pergunta se o indivíduo judeu poderia ser considerado pelos demais francês, alemão ou polonês. Podiam os estudantes alemães considerarem que o seu companheiro judeu era um verdadeiro descendente de Arminius?
O caráter abarcador e universalista da Revolução Francesa foi atenuado em todas as partes pelos exclusivismo historicista do nacionalismo moderno. O que em última instância chocou Teodoro Herzl durante o caso Dreyfus não foi apenas o virulento anti-semitismo que se extendeu a tantos setores da sociedade francesa. O que pareceu a Hertzl mais escandaloso foi o fato de que ali se tratava de um indivíduo judeu completamente emancipado, exitosamente integrado e altamente secularizado.
O movimento político sionista foi precedido na Europa Oriental pelo renascimento do idioma hebraico como meio de comunicação literário e não religioso. Os judeus sempre utilizaram o hebraico em suas rezas e escritos religiosos, mas agora se tratava de um renascimento do hebraico como um idioma de novelas e poemas, artigos polêmicos e folhetins jornalísticos. Este processo era herético aos olhos dos rabinos, que viam nele uma secularização do idioma sagrado. Os judeus modernos e secularizados começaram a investigar as origens de sua cultura, as raízes de sua história, a exaltar as glórias de Jerusalém, a se perguntar sobre seu próprio passado assim como faziam os membros de outros grupos.
Desta maneira, o liberalismo e o nacionalismo criaram nestes judeus o início de uma nova auto-consciência não determinada mais pela religião e sim semelhante ao nacionalismo moderno e secular da Europa. O desenvolvimento de uma nova literatura hebraica, a da Haskalá judaica, foi o primeiro passo nesta direção. O sionismo político de Leo Pinsker, Teodoro Hertzl, Max Nordau seguiu o mesmo caminho. É significativo que em todos estes fundadores do sionismo moderno aparece várias vezes o mesmo fenômeno: nenhum era de origem religioso e tradicional. Todos eram produto da educação européia, cheia de idéias em voga entre a inteligência da Europa. Seu compromisso não era econômico nem religioso: somente respondiam ao desafio de sua identidade, buscavam raízes e adquiriram o sentido da dignidade na sociedade que os havia afastado de suas origens religiosas e tradicionais e que não havia encontrado respostas adequadas para suas buscas.
Aqueles judeus que iam apenas atrás da segurança econômica ou mera sobrevivência imigraram à América no início dos pogroms e no processo de pauperização. Aqueles que, por outro lado, imigraram à Palestina, não apenas não escapavam dos pogroms mas também não iam em busca de segurança econômica nem de sucesso, visto que a Palestina otomana estava muito longe de ser um paraíso econômico. Eles buscavam a auto-determinação, a identidade, a liberdade dentro dos conceitos da cultura européia pós-1789 e de sua própria e recente auto-consciência.
O sionismo é assim um fenômeno pós-emancipatório. Fenômeno que foi delineado sobre um laço histórico com a ancestral Terra de Israel, convertendo em um foco histórico-prático ativo, um símbolo que havia permanecido adormecido na tradição religiosa judaica. O nacionalismo judaico foi então um aspecto específico do impacto das idéias e o desenvolvimento social desencadeado pela Revolução Francesa, o modernismo e o secularismo. Foi muito mais uma resposta aos desafios do liberalismo e do nacionalismo que uma mera reação ao anti-semitismo e por esta razão não podia ter ocorrido em nenhum outro período anterior aos séc. XIX e XX.
O sionismo constituiu a revolução mais fundamental na vida judaica. Substituiu a auto-identidade tradicional, ortodoxa, baseada na religião por uma auto-identidade secular dos judeus como nação. Mudou a esperança passiva, quietista e devota do Retorno à Sião por uma força social efetiva que moveu milhões de pessoas à Israel.
Transformou um idioma relegado ao uso ritual em forma de comunicação secular de um Estado-nação. O eterno laço dos judeus com a Palestina não é suficiente para explicar porque o sionismo surgiu nem quando surgiu, ao contrário, o sionismo não é somente a reação do povo judeu à perseguição. É a busca da auto-determinação e da liberação sob as modernas condições de secularização e liberalismo. Como tal, é tanto parte da história judaica de dispersão e retorno, como da história universal de liberação e de busca de auto-identidade.

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Respostas a este tópico

Texto importante.

Pergunta: onde foi publicado? Pesquisei a revista Judaica que me mandou um texto de Avineri, porém diferente.

Obrigado,

Geraldo Coen

Este Texto foi publicado na Universidade de Jerusalem pelo Prof. Shlomo Avneri , foi traduzido em Ingles, espanhol e portugues pela agencia judaica.

shabat Shalom

 

Jayme 

Obrigado Jayme. Mando então o outro texto dele, muito rico, que complementa este e saiu na revista Judaica:

SOCIOLOGIA

O sionismo como

revolução permanente

SHLOMO AVINERI

A vitória do sionismo foi completa. Mas, quem se propuser a analisar em que consistem seus êxitos específicos, descobrirá que precisamente naqueles setores em que seus objetivos foram explicitados, o sionismo fracassou: a maioria do povo judeu continua vivendo fora do Estado judeu sem que a causa disto resida em um obstáculo exterior mas, precisamente, na falta de vontade da maioria do povo de estabelecer-se em Israel, ainda que o Estado de Israel tenha-se erigido e firmado, seu status internacional continua distante de outros Estados contemporâneos.

O Exército do Estado judeu soberano defende, por certo, a vida de seus habitantes e cidadãos e conseguiu, em sua curta história, vitórias espetaculares que ficarão gravadas para sempre nos anais do povo de Israel e da vitória militar moderna, mas os cidadãos de Israel estão longe de gozar de paz e transqüilidade e, por outro lado, esse magnífico exército depende, no mais alto grau - e continuará dependendo no futuro -, de uma potência exterior para assegurar seus equipamentos e abastecimento.

Resumindo, a rápida normalização, quase que automática, do povo de Israel, esperada como conseqüência obrigatória do surgimento do Estado, ainda não foi alcançada.

A bem da verdade, há que reconhecer que os mais importantes pensadores do sionismo não compartilhavam do ingênuo otimismo que o idealismo sionista despertou nas massas judaicas. Uma análise das idéias de alguns dos principais precursores e ideólogos do sionismo, de Herzl a Ahad HaAm, de Gordon a Ben Gurion, de Moses Hess a Avraham Kook, nos revela que estiveram ausentes do pensamento sionista as cândidas premissas deterministas e automáticas segundo as quais, a partir do momento da instalação de uma maioria judia em Éretz (Terra de) Israel ou do surgimento de um Estado judeu, desapareceriam ipso-facto, todos os traços da anormalidade judia ou se resolveriam, como por um passe de mágica, os principais problemas da existência do povo judeu.

O que os pensadores sionistas afirmaram - e nisto se diferenciaram dos pensadores judeus não-sionistas - foi que, sem a concentração territorial em Éretz Israel e sem um estabelecimento de um Estado judeu neste território, não seria concebível nenhum processo de melhoramento da vida judaica. Para aqueles, esta foi sempre uma condição indispensável mas não uma condição suficiente.

Sendo assim, em que consiste o êxito essencial do sionismo? Fundamentalmente, em um único aspecto: na criação de um novo foco normativo, público e notório para a existência judaica. Nas épocas anteriores à Emancipação, este foco normativo era constituído pela religião e pela comunidade: ser judeu no período pré-emancipatório foi não só uma questão de fé e de preceitos religiosos, mas também de pertencer à congregação judaica, e nenhum homem podia viver sua condição de judeu sem manter esse vínculo com outros judeus - um judeu isolado não podia ser judeu.

Esta dimensão política do judaísmo histórico - tão acertadamente exposta por Graetz em sua análise da trajetória da história judaica - sofreu múltiplas transformações e apenas cristalizou-se de forma definitiva quando o povo judeu foi exilado de seu país. A conduta normativa nos quadros da vida comunitária suplantou o que havia sido a vida soberana da nação judaica em Éretz Israel durante o reino e antes da destruição do Templo.

Parafraseando a Igreja Católica em sua afirmação de que fora da Igreja não havia salvação, poder-se-ia afirmar, com relação ao judaísmo, que fora dos quadros comunitários, não havia judeus. O determinante - como bem assinalou Graetz - não era a salvação da alma, mas o significado coletivo da existência individual.

Emancipação e Iluminismo

A Emancipação e o Iluminismo transformaram radicalmente o status da comunidade. Deixando de ser uma pólis em miniatura, em cujos quadros se configurava a preservava a vida coletiva e pública - que era a única coisa que conferia significado à vida individual -, a comunidade e a sinagoga se converteram em um fator parcial, em uma instituição particular com tarefas definitivas unicamente no campo da religião.

O que havia sido um quadro global, transformou-se em uma função específica e o que havia significado um foco de identificação que determinava a posição do homem judeu no cosmos e no mundo social circundante, transformou-se numa instituição que proporcionava meramente serviços religiosos. Tal foi o significado da modernição no que diz respeito à vida judaica.

A identidade judaica perdeu pois, seu status normativo e público e os judeus - que em parte se liberaram dos quadros tradicionais e religiosos no que diz respeito aos preceitos e à fé - viram-se obrigados a conferir um novo significado à sua existência.

O Estado de Israel devolveu à existência judaica sua dimensão pública normativa.

Sem que se tenha definido jamais - porque talvez não seja possível definir que é ser judeu -, hoje pode-se afirmar, com certeza, que ser judeu é, antes de tudo, estar vinculado ao Estado de Israel. A índole deste vínculo difere de um indivíduo para outro e de uma coletividade para outra: há quem veja no Estado de Israel a expressão dos anseios messiânicos de redenção do povo judeu e há quem veja na concepção social do kibutz israelense a expressão judaica específica, anunciadora da redenção social e universal.

Existem aqueles que traduzem este vínculo em uma atividade cotidiana de mobilização, de apoio político ou econômico a Israel e existem aqueles que tomam consciência de tal vínculo só em horas de infortúnio. É óbvio que tais diferenças existem, no final das contas porém, elas não mudam o quadro, já que é um fato que o principal elemento que aglomera em torno de si no mundo todo a maior quantidade de judeus é, inquestionavelmente, Israel.

O que afirmamos não é um argumento ideológico trazido para reivindicar uma atitude determinada, mas uma realidade. É um fato que, hoje em dia, a religião deixou de ser o fator aglutinante, que reúne a seu redor todos aqueles que consideram judeus, não apenas porque a maioria do povo judeu se autodefine, de uma ou de outra maneira, em termos laicos e seu estilo de vida, usos e costumes são profanos, mas também porque, no próprio seio da religião judaica, surgiram diversas tendências e correntes de tal modo dissidentes, que amiúde a fé religiosa, mais do que aproximar, distancia os judeus entre si.

Não existe nenhum, a idéia ou instituição - laica ou religiosa - capaz de agrupar, em torno de si, um número tão considerável de judeus como a idéia do vínculo com o Estado de Israel. Houve épocas em que os reformadores liberais só concebiam os judeus como identificados com o liberalismo e nas quais os revolucionários socialistas judeus viram no socialismo internacional a panacéia universal para todas as aflições judaicas. Em nossos dias, já não há quase quem esgrima argumentos e idéias tão simplistas.

Hoje em dia é evidente que, quando o Estado de Israel enfrenta perigos ou se acha ameaçado, tal problema se converte no único centro de atividade, preocupação e solidariedade judaica, tanto no plano das instituições como no da consciência individual. O Estado de Israel e seu destino são capazes, mais de que qualquer outro fator, de unificar a judeus crentes e leigos, ortodoxos, tradicionalistas e reformistas, a homens de direita e de esquerda, aos judeus dos Estados Unidos e da Rússia.

Haverá quem afirme, e com razão, que a preocupação pelo Estado de Israel, não é o único tema que afeta, as comunidades judaicas no Exterior e que as impele para uma atividade social. Assim, por exemplo, a preocupação com os judeus da ex-União Soviética mobiliza um importante caudal de energia coletiva nas comunidades judaicas do mundo. Isto é indubitavelmente certo, mas existe uma significativa diferença: a preocupação dos judeus da Rússia é essencialmente uma inquietação por seu destino pessoal, pelo bem-estar e a segurança individual dos dois milhões de judeus das ex-Repúblicas soviéticas, enquanto que a preocupação pelo destino do Estado de Israel não se reduz à ansiedade pela sorte de quase cinco milhões de judeus que vivem em suas fronteiras, mas é a preocupação pelo destino comunitário coletivo do Estado de Israel como um todo, como um organismo.

Não se trata apenas da sorte que terão os habitantes do Estado, mas do Estado como tal. Os judeus da ex-União Soviética poderão ser transferidos para outro lugar, e isto será a sua salvação, enquanto que uma ação semelhante para com os habitantes do Estado de Israel será sentida como um Holocausto porque a existência de Israel tem um significado normativo. Isto é o que distingüe o Estado de Israel de todas as demais comunidades judaicas: as outras coletividades são conglomerados de indivíduos que carecem de significativo valorativo e normativo como totalidade, como público. Israel, pelo contrário, não é concebido apenas como a conjunção dos judeus que o habitam, mas como uma existência coletiva que tem decididamente um significado axiológico e normativo.

Causa pública

O Estado de Israel é, pois, a causa pública do povo judeu e como tal vem a suplantar os laços religioso-comunitários tradicionais que preservaram a existência coletiva do judaísmo no passado. O Estado de Israel é, atualmente, devido aos processo de modernização e secularização, a expressão normativa para a conservação da existência coletiva do povo judeu.

A cristalização do Estado de Israel - como expressão do movimento sionista - é, na causa pública do povo judeu, uma revolução de vasto alcance, já que o sionismo começou com um mero movimento minoritário e até os anos 40 foi um fenômeno que de maneira nenhuma podia ser definido como a corrente central da história judaica.

Rabinos ortodoxos e reformistas, assimilacionistas burgueses e revolucionários socialistas, bundistas e comunistas judeus, todos eles viram no sionismo um fenômeno marginal. Tais foram com efeito seus primórdios, tanto no que diz respeito a seu significado normativo como no que diz respeito ao ponto de vista numérico.

Hoje em dia a situação é diferente. O problema já não consiste em esclarecer se os judeus do mundo que apóiam Israel são ou não sionistas. Em grande medida esta é uma discução meramente semântica. Por certo que, se nos ativermos ao significado original e aceito do termo, esses judeus não são sionistas, sendo a demonstração mais óbvia disto o fato de que não emigram para Israel. Mas esses judeus vêem em Israel e em sua identificação com o Estado, mais do que em qualquer outro fator, o fundamento central de sua autodefinição como judeus.

O Estado de Israel, portanto, não é só um foco de autodeterminação para os judeus que o habitam, mas um foco que define, mais do que nenhum outro fator, a realidade existencial dos judeus que vivem fora das fronteiras israelenses. Converter Israel para os judeus dos Estados Unidos, no que é, por exemplo, a Itália ou a Irlanda para os filhos dos imigrantes italianos ou irlandeses, significa uma revolução de alcance inconcebível, sobretudo se consideramos que os judeus dos Estados Unidos estão envolvidos em seu apoio a Israel em uma medida muito superior à dos americanos de origem italiana ou irlandesa em seu vínculo com seus países de origem.

Diversamente do que ocorria nos anos 30, quando a maioria das instituições judaicas do mundo estavam desconectadas de todo o vínculo e distantes de toda identificação com a obra sionista em Éretz Israel, hoje só minúsculos grupos marginais definem-se a si mesmos como judeus e proclamam ao mesmo tempo que a causa de Israel lhes é alheia.

Este é, então, o significado da revolução sionista, do ponto de vista histórico: a revolução da causa pública judaica em substituição à comunidade tradicional e suas instituições religiosas.

Mas, como toda vivência histórica, a criação de tal foco de identificação não é um dado imutável. As circunstâncias que determinaram a conversão de Israel nesse foco são conseqüências das mudanças históricas que o povo judeu atravessou no século 20: o fracasso da Emancipação, o desengano do sonho da redenção socialista universal como solução para o problema judaico, o Holocausto, a aliá massiva e a luta do Estado de Israel, há quase 50 anos, por sua existência e segurança.

Na hora do perigo não há escolha, e estes acontecimentos dramáticos e traumáticos - pelo fato de terem-se sucedido - é que forjaram a identificação dos judeus com seu Estado. No momento em que o povo judeu parecia estar à beira do abismo, quando sofreu o mais atroz dos holocaustos e quando se tornou evidente a futilidade das esperanças depositadas no liberalismo e no socialismo, o surgimento do Estado judeu passou a ser o novo e maravilhoso símbolo da sobrevivência judaica.

É evidente, todavia, que a longo prazo, ao desaparecerem os perigos imediatos, a identificação dos judeus do mundo com Israel não será automática. Quando a existência do povo de Israel correu o risco de extinguir-se e o perigo do extermínio eminente ameaçou o Estado de Israel, o fator decisivo foi a própria existência de Israel. Mas, o que a longo prazo decidirá a continuidade da identificação dos judeus da diáspora com o Estado será o conteúdo deste último.

Esta identificação perdurará só sob a condição de que os componentes e os valores essenciais da sociedade judaica de Israel sejam de tal índole que estimulem o desejo dos judeus da diáspora de identificar-se com o povo e o Estado e despertem neles um sentimento de legítimo orgulho, ao descobrir em Israel precisamente aquelas características e qualidades das quais carece sua vida coletiva na Diápora.

Identificação

Nisto reside outro dos paradoxos do sionismo e do Estado de Israel: Israel continuará sendo um foco de identificação normativa para os judeus da Diáspora só se, no fundamental, se diferenciar destes. Se por outro lado, Israel for mero reflexo da atividade do judaísmo mundial, se acabar sendo semelhante a qualquer outra sociedade de consumo do ocidente, se o judeu americano ou francês ou russo descobrir em Israel o reflexo daquelas qualidades que caracterizam a sociedade geral ou a existência judaica em seu país, este judeu não poderá, em última instância, identificar-se com ele. Um Estado de Israel que seja um Brooklyn ou uma Los Angeles nas costas do Mediterrâneo não poderá ser um foco para a identificação dos judeus daquele bairro ou daquela cidade.

Terá razão quem afirma que o quadro exposto não só contém um paradoxo como também uma boa dose de hipocrisia, mas esta é a natureza de toda identificação de caráter normativo: os homens não costumam conferir uma dimensão normativa a uma vivência que é um mero reflexo de sua própria existência. Quem busca uma identificação normativa é movido em última instância pelo desejo de superar sua existência cotidiana e tende para horizontes que são diferentes e superiores, com as ideologias, com os povos e também com Israel.

Por tal razão, continuam e continuarão sendo sumamente relevantes os princípios e considerações expostos em suas análises por Ahad Há-Am, A. D. Gordon, o rabino Kook e Ben Gurion sobre a qualidade da vida judaica em Éretz Israel. Esta é outra dimensão da revolução sionista que não foi cumprida. E, para sermos fiéis à verdade, devemos admitir que ficou interrompida e está sofrendo um processo de erosão. Porque, se o critério para aniquilar a essência da revolução sionista e sua possibilidade de continuar sendo, a longo prazo, um foco de identificação judaica geral se baseia na medida da diferença entre os judeus do Estado de Israel e os da diáspora, então cabe assinalar que assistimos a um processo de corrosão dos camponeses revolucionários do sionismo em Éretz Israel. Há 30 anos éramos em Israel muito mais diferentes dos judeus da Diáspora do que somos atualmente. Hoje, nos assemelhamos muito mais a eles não porque eles tenham mudado (é um fato o não termos conseguido induzi-los a vir para Israel) mas sim porque nós começamos a nos parecer com eles.

É sabido que a vida dos judeus na Diáspora caracterizou-se, do ponto de vista social, por uma inserção na classe média e por seu exercício de profissão de intermediação, tanto econômicas quanto liberais, espirituais e intelectuais. O objetivo essencial da revolução sionista e colonizadora em Éretz Israel foi reunir os judeus do mundo no país e converter a classe intermediária em uma classe produtiva, criando em Israel uma estrutura social que abarcasse toda a gama de ofícios e ocupações.

Há 30 anos estávamos mais próximos desta meta do que estamos hoje, quando a participação judaica em todos os ofícios produtivos se reduziu drasticamente. Uma sociedade judaica em Israel na qual a parte preponderante do trabalho no campo, nas construções e nas fábricas é realizada por não-judeus, enquanto o nível de vida da população judaica - concentrada cada vez mais nos ofícios de intermediação e de serviços - é assegurado em medida crescente por subvenções e doações financeiras do Exterior, se parece muito mais com a sociedade judaica da Diáspora ou a que viveu na Palestina antes de Israel, durante a época da distribuição de dádivas do Barão Rothschild.

Israel depende ainda muito, econômico e politicamente, de fatores externos e do trabalho de não-judeus. Os fundadores da sociedade sionista revolucionária na Palestina sabiam que a independência, a soberania e a autodeterminação não se reduzem ao símbolo da bandeira nem à presença dos embaixadores. Independência significa, em primeiro lugar, uma firme base social e econômica capaz de manter uma sociedade que se auto-sustente. Porque o problema consiste não só na qualidade de judeus que habitarão Israel e na dimensão geográfica deste Estado, mas em como será a qualidade de vida e o caráter da sociedade que se cristalizarão no mesmo.

A estratificação ocupacional de Israel se parece, hoje, muito mais com a dos judeus dos Estados Unidos do que com a israelense de há 30 anos. A concentração no comércio e nos serviços, a fuga do trabalho produtivo, os processos de distorção ideológica pelos quais passam a maioria dos movimentos juvenis halutzianos, junto ao auge da Bolsa de Comércio, todos esses fenômenos atestam que cada dia nos parecemos mais com os judeus da Diáspora. A Diáspora, disse A. D. Gordon, também pode crescer em Israel.

Militarismo

Este problema também atinge nossa capacidade militar. Depois de dois mil anos de inexistência de governo e de exército judeus, a mera idéia de militares e combatentes judeus incendiou a imaginação dos judeus da Diáspora e também de Israel. Até hoje, muitos judeus da Diápora se embriagam com a formidável potência militar do Exército de Defesa de Israel. Mas é evidente que a longo prazo, nas mudanças que experimentarão e que já experimentaram o caráter e a conduta do exército israelense incindirão sobre essa atitude da Diáspora.

Um exército ocupado no florescimento do deserto, na absorção da aliá, em empresas educacionais e em tarefas halutzianas continuará despertando ondas de entusiasmo e identificação entre os judeus da Diáspora, mas o exército captado pela consciência pública tal qual aparece nos meios de comunicação internacionais - dispersando manifestações de colegiais árabes, patrulhando as ruas de cidades nas quais impera o regime militar e o toque de recolher, participando da requisição de terras da população árabe camponesa -, em resumo, um exército semelhante a qualquer outro exército do mundo não poderá continuar sendo motivo de orgulho nacional judaico.

Não há dúvida de que os judeus da Diáspora compreenderão e inclusive justificarão as necessidades de segurança de Israel em função das quais o Exército de Defesa de Israel se vê forçado a impor o toque de recolher em uma cidade árabe ou a desalojar colegiais causadores de desordens, mas isto por certo não será motivo de orgulho para os judeus do mundo (nem tampouco para os de Israel).

Daí a necessidade de se compreender que a revolução sionista não se completou com a criação do Estado de Israel, nem com a vitória nesta ou naquela guerra, e nem se concluirá sequer com a conquista da plena paz com todos os Estados árabes. Porque a revolução sionista é em sua essência uma revolução permanente: uma revolução contra as poderosas forças históricas que, pelo menos em parte, se acham no próprio seio do povo judeu, ao qual se converteram - de um povo que dispunha de si mesmo na ordem econômico-social e foi responsável por seu destino - em uma congregação que acabou por viver à margem de sociedades estranhas.

Contra a história

O sionismo é uma revolução contra os processos incontroláveis da vida judaica que impedem grandes comunidades judaicas - precisamente exercitando a capacidade de ação e de defesa que o povo judeu adquiriu em sua dispersão e por causa de suas desventuras - a buscar meios de sustentação relativamente bons e fáceis em lugar de medir-se com a necessidade de erigir uma sociedade nacional que assuma a responsabilidade pelo destino de todo o povo, e não só pelo destino individual. As massas de iordim que abandonaram Israel e se encontram hoje nos Estados Unidos e em outras dispersões não são mais que os continuadores da milenar tradição judaica. Foi esta - e não Nabucodonosor, nem Tito, nem Flávio - que erigiu Alexandria no Egito e Pumbedita na Babilônia. Em última instância, todas as dispersões do povo judeu foram criadas historicamente por iordim que preferiram acomodar-se na Diáspora em lugar de haverem-se com a dura realidade de Israel.

O sionismo é uma revolução contra essas tendências do povo judeu, tendências cuja raiz estão no fato de que os judeus tiveram que enfrentar como indivíduos, tanto com os infortúnios da Diáspora como com a carência de uma soberania estatal. O sionismo é o intento de devolver a hegemonia, no seio do povo judeu, aos fundamentos públicos, coletivos, sociais e nacionais, a custa dos fundamentos da comodidade pessoal, da abundância burguesa e da boa vida individual.

Por isso, Israel é conquistada com o sofrimento. Por isso, a revolução sionsita é, forçosamente, também uma revolução de longo alcance, uma revolução contra a história judaica. Por isso, uma economia de mercado liberal, que implica o desentendimento do indivíduo com relação à sociedade significa, em última instância, introduzir a Diáspora em Israel.

Por isso, não haverá renascimento sionista sem uma revolução permanente no modo e nas condições de vida judaicos, sem que tendam a se petrificar e cristalizar, acomodando-se à realidade, sem tentar transformá-la e impor-se a ela. Por esta razão, Israel só poderá continuar sendo, a longo prazo, o centro do povo judeu em suas dispersões se for extrema e radicalmente diferente da realidade judaica que impera fora.

Tal é o significado da revolução sionista que, por esta mesma razão, jamais chegará a seu fim. Porque as revoluções que terminam começam a pertencer ao domínio do passado. Todos aqueles que crêem no futuro da revolução sionista devem, recordar-se que esta se acha apenas em seu princípio e que sua pedra de toque permanecerá à medida em que conseguir liberar o povo judeu daquelas tendências históricas que o mantiveram apegado à Diáspora.

Deste ponto de vista, há uma profunda verdade histórica na sentença de que a Diáspora tem continuidade a partir do esquecimento e de que na lembrança está o segredo da redenção.

Geraldo Shalom,

Muito obrigado por sua importante contribuição!

Para  uma maior divulgação do texto do Prof. Avneri que voce nos  enviou, postei  no grupo " Estado Judeu democratico" 

Shavua Tov!

 

Jayme

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