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Mubarak foi condenado, mas e seus “poodles”? POR Marcelo Ninio no Blog folha

 


Suleiman (esq.), Shafiq, Tantawi: velha guarda intocada

Hossam Bahgat, que bem antes da revolução já era um dos mais combativos ativistas de direitos humanos do Egito, reagiu com sarcasmo à sentença de prisão perpétua do ditador Hosni Mubarak pela morte de centenas de manifestantes pró-democracia: “Quer dizer que os únicos crimes de Mubarak foram cometidos na última semana de seu governo?” E o resto do regime?

É uma pergunta retórica, claro. Se Mubarak fosse julgado pelos 30 anos em que ficou no poder, praticamente todo o governo atual iria para o banco dos réus. A começar pelo marechal Mohamed Tantawi, chefe da junta militar que assumiu as rédeas do país depois da queda do ditador.

Tantawi é uma figura inseparável do antigo regime. Durante 10 anos foi ministro da Defesa (cargo que ainda exerce) e ficou conhecido pela absoluta subserviência a Mubarak. Num telegrama famoso de 2008 da embaixada dos EUA no Cairo, revelado pelo Wikileaks, o marechal era descrito por jovens oficiais como o “poodle” do ditador.

Na época começavam a tomar corpo os rumores de que Mubarak preparava o filho Gamal para sucedê-lo no poder. Outros telegramas divulgados pelo Wikileaks mostram a insatisfação entre altos oficiais egípcios, incluindo Tantawi, com a perspectiva de ter um chefe sem formação militar, como foram todos os presidentes egípcios desde a fundação da república, em 1953. Uma das mensagens indica que os militares até aceitariam Gamal para não enfrentar Mubarak, mas que se o ditador morresse antes dariam um golpe e impediriam a sucessão faraônica.

Mubarak não morreu, mas a revolução de 2011 assinou seu atestado de óbito político, e ofereceu a chance ideal para que os generais colocassem seu plano em prática. Na euforia dos protestos da praça Tahrir, os militares eram vistos como aliados da revolução, até porque não usaram a força contra os manifestantes, como na Líbia, no Iêmen, no Bahrein e na Síria.

A euforia transformou-se em ódio. A junta militar, que prometeu deixar o poder depois de seis meses, continua lá. O aparato de segurança é o mesmo. E a eleição presidencial credenciou para o segundo turno um ex-comandante da Aeronáutica, Ahmed Shafiq, o último premiê nomeado por Mubarak, aumentando as suspeitas de que o antigo regime continuará vivo.

Caiu a ficha para os meninos da praça Tahrir. Aqueles mágicos 18 dias de protestos, que uniram o Egito e o mundo, foram uma ilusão. O que derrubou o ditador não foram os protestos, mas um golpe militar. A máquina do antigo regime continuou funcionando e foi decisiva para emplacar um aliado de Hosni Mubarak na finalíssima da eleição presidencial .

Esses foram os lamentos que ouvi de “revolucionários” deprimidos, que perambulavam pelo Cairo perplexos com o resultado da votação. Para eles, o sonho do novo Egito gestado no ventre da praça Tahrir se transformou no pior dos mundos: a sucessão de Mubarak será decidida entre Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, e o militar linha-dura Ahmed Shafiq. Nenhum dos dois é conhecido por ser um democrata.

O choque maior é pela chegada de Shafiq ao segundo turno. Sua simples candidatura já havia sido motivo de indignação. Ele chegou a ser desqualificado pela comissão eleitoral, mas a decisão foi revogada e ele voltou com tudo.

Agora, os revolucionários tendem a contrariar seus instintos e apoiar Mursi como voto de protesto a Shafiq, cuja vitória consideram um tapa na cara da revolução. Acima de tudo, tentam minar os alicerces do antigo regime, que continua inabalado.

Se os abusos do antigo regime fossem julgados por uma corte independente, outra figura poderosa do antigo regime seria presença certa no banco dos réus. Omar Suleiman, braço direito de Mubarak, o homem que anunciou sua renúncia na TV naquele dramático fim de tarde do dia 11 de fevereiro de 2011, chefiou o serviço de inteligência do Egito por 18 anos.

Suleiman está solto, ninguém fala em processá-lo. Ele sente-se intocável a ponto de ter lançado uma breve candidatura à Presidência, aplaudida por saudosistas do regime, mas depois abortada por uma decisão da Justiça.

Com seu bigodinho fino de vilão de cinema B, Suleiman era um dos cabeças do aparato de repressão interna. Segundo a imprensa norte-americana, foi um colaborador-chave da CIA no programa de detenções ilegais de suspeitos de terrorismo, que eram levados para interrogatórios no Egito, muitos sob tortura. Para os ativistas, portanto, Suleiman era um poodle não só de Mubarak, mas dos EUA. Por isso, estaria duplamente blindado.

A múmia em liberdade condicional: grafite revolucionário no Cairo (Foto: Marcelo Ninio

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