JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Aconteceu um dia que um não-judeu chegou ao grande rabino Shammai e lhe disse: Faz-me prosélito (convertido [ao Judaísmo]) sob a condição de que me ensines a Toráh inteira, durante fico parado em um pé só. Esse o empurrou com o bastão que tinha na mão. A seguir veio a Hillel, e este o fez prosélito e lhe disse: O que tu não estimas [que te façam], isso também não faças ao teu próximo. Isso é toda a Torá, e todo o restante não é senão explicação: vai e a aprende!” (Talmude Babilônico, Sabbat 31a).

(Lv 19,1): E o Eterno falou a Moisés e disse:

“Fala a toda a comuna reunida das crianças de Israel e lhes dize: Santas vós deveis ser, pois Santo sou Eu, o Eterno, vosso D’us.”
A alocução à “toda a comuna reunida” se encontra na Torá só duas vezes. Porque é isso assim? Um Midrash – uma explicação – menciona a isso: Porque a maior parte de todos os ensinamentos do Judaísmo está contida nesse trecho.
No Midrash Rabba, o rábi Levi acrescenta: “Porque os dez mandamentos estão contidos aqui.”
Para entender melhor o fundo, vamos olhar em que ambiente e em que conexo de conteúdo o mandamento do amor ao próximo foi dado:

LO¯TiShNóH ET¯ÒHòYKó BiLBòBéKò HOKêYaH TOKIaH ET¯`AMITéKò VeLO¯TiSÓ `OLóYV HêT´ LO¯TiQóM VeLO¯TiTôR ET¯BNêY `AMéKò VeÒHaBTó LeReÀKó KMOKó ANI YHVH(adonai).

Não odeies o teu irmão no teu coração, reprova advertindo o teu colega, para que não tenhas pecado por causa dele, e ama o teu colega como a ti mesmo. Eu (o) Senhor. (Lv 19,17s.).

Como o rábi Hoffmann explica no seu comentário “O Livro Levítico”, temos de ter aqui com cinco mandamentos:

1.Não odeies o teu irmão no teu coração!
2.Pede explicações ao teu próximo!
3.Não te vingues!
4.Não guardes rancor contra ele!
5.Ama o teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).
Entre o primeiro (“Não odeies o teu irmão!”) e o quinto mandamento (“ama o teu próximo como a ti mesmo!”) há um conexo estreito. Não odeies, mas ama! Os outros (2-4) são conseqüências concludentes desses dois. O mandamento de pedir explicações serve para afastar qualquer sentimento de ódio do coração da pessoa humana. Pois quando lhe pedir explicações, não vou enterrar o rancor em mim. Em vez de vingança e rancor, amor deve habitar no meu coração, pois esse trecho finaliza com as palavras: “Eu sou o Senhor”, que criou a todos vós, mandando amor e fraternidade.

Para as reflexões rabínicas seguintes precisa-se em si um bom conhecimento da língua hebraica. Mesmo assim, as apresento, porque se vê bem aqui, com que precisão os rabinos interpretam os textos; de mais a mais, se verá que uma tradução não pode reproduzir as finezas, sendo traduções da Bíblia problemáticas em geral. Mais à isso depois.

No século 13, Nachmanides, no seu comentário, apontou para que no hebraico “Ama o teu próximo” - VeÒHaBTó LeReÀKó – o verbo AHaB – “amar” está construído com o dativo (ÒHaBTó Lê…), enquanto outrora nos escritos costuma ser usado com o acusativo (ÒHaBTó ET…). O sentido mais profundo desse fenômeno filológico extraordinário nos chega a ser manifesto e complementado, quando recorrermos no capítulo 19 ao versículo 34, no qual se diz: “Como o nativo entre vós vos seja o forasteiro que habitar entre vós, e deves amar – “ÒHaBTó LÔ” (também aqui no dativo) - como a ti mesmo, pois forasteiros fostes na terra do Egito. Eu, o Senhor, sou o vosso Deus.” Vê-se que “próximo” não se refere somente aos israelitas. Também em outro lugar na Toráh, a palavra Rê`A – “próximo” – não significa israelitas, mas sim – em Êxodo 21,2 – os egípcios.

Os nossos professores chamam a atenção ao que o amor ao forasteiro está nos mandado mais uma vez na Toráh, em Dt 10,19: VaSHaBTóM ET¯HaGêR (ET = acusativo), “amai o forasteiro”. O mandamento de amar o forasteiro – assim dizem os sábios – está lingüisticamente formulado exatamente assim como o mandamento de amar D’us, pois diz: VeAHaBTó ET YHVH(adonai) ELoHeYKó (veja também Rambam, Hilchot Dt cap. 6,4).

Qual, então, é a diferença essencial no mandamento de amor em VeÒHaBTó LeReÀKó… e VeAHaBTó ET YHVH(adonai)… - “Ama (a)o teu próximo!” no dativo e “ama o teu D’us!” no acusativo? O grande rabino de Francoforte do século 19, Samson Raphael Hirsch, o explica da maneira seguinte: “O amor da personalidade do próximo, um amor que flui da fonte dum coração quente, é uma exigência cujo cumprimento jaz fora da região do pensável. O que a Toráh aqui exige de nós, não é que temos de amar a personalidade de cada um, como se a força encantadora de atração não existiria e como se não haveria o impulso psíquico da antipatia referente a algumas pessoas humanas. O que está sendo exigido de nós, é a promoção prática do bem-estar dos nossos co-humanos na mesma medida em que estamos cuidando de nós mesmos, a saber, por em prática o amor às pessoas.”

O rabino Hillel, mencionado no começo, disse as palavras célebres: “Se eu não for para mim, quem será para mim? E se eu for somente para mim, o que sou?” Que não se deveria amar o próximo mais que a si mesmo, resulta dum relato no Livro Sifra, o comentário rabínico mais antigo ao Levítico: Duas pessoas estão no deserto, e uma delas tem um pouco d’água consigo. Se a beber, alcançará terra habitada; mas se a compartilharem, ambas morrerão. O rábi Petura diz: Ambas deveriam beber, mesmo se ambas morrem, O rábi Akiba, porém, era de opinião de que, num caso destes, a vida própria tivesse preferência antes daquela da outra pessoa humana.” E se a Toráh tivesse o sentido de que a pessoa humana devesse amar o seu co-humano tanto que, sob todas as circunstâncias tivesse de sacrificar a sua vida para ele, ela teria dito: “Ama o teu próximo mais que a ti mesmo!”

Agora nos podemos perguntar porque o grande rabino Hillel no início da narrativa, faz 2000 anos, transcreveu as palavras “ama o teu próximo!” por “O que for odioso para ti, não o faças ao teu próximo!”. Nisso reparamos duas coisas especialmente:

1.A modificação do âmbito dos sentimentos para a área de agir.
2.O que está ainda mais espantoso é a formulação negativa – “não faças a ele!”.
Também na literatura halakica, o mandamento do amor do próximo está sendo especificado positivamente. Assim Rambam, um entre os maiores eruditos, que vivia faz 1000 anos, escreve: “Os nossos sábios nos mandam visitar doentes, consolar aflitos, dotar noivas, cuidar de migrantes que passarem, fazer tudo o necessário para o enterro dum morto e também alegrar o jovem casal no dia do seu casamento… Essas são ações de amor que a gente tem de exercer mesma, pessoalmente, de força própria e para as quais há uma medida determinada. Embora esses mandamentos se originem dos nossos sábios, são incluídos no mandamento do amor ao próximo. Tudo o que gostares de querer que outros o façam para ti, faze também tu pelo teu irmão em Toráh e Mitsvôt (Leis para o aflito – cap. 14,1).

Também aqui se vê outra vez que os rabinos examinam exatamente cada palavra. O rabino Federbusch explica a restrição “pelo teu irmão em Toráh e Mitsvôt” de maneira seguinte: “Parece que Rambam quer dizer com isso que se possa impossivelmente um mandamento “ama-o como a ti mesmo!” (ou: porque é como tu) aplicar a um assassino e o deixar ir impunemente, pois dentro da própria pena jaz de certo modo um ato do amor ao próximo. A sociedade humana está sendo melhorada pela punição do assassino, sendo que muitas vidas humanas inocentes estão sendo salvas por isso. Mas no momento em que não poder ser feito dano a outras pessoas humanas, os nossos sábios têm ordenado tratar também o criminoso condenado segundo o mandamento do amor ao próximo, não deixando-o sofrer tormentos desnecessários.

À posição central desse mandamento do amor ao próximo na consciência de judeu, grandes rabinos se pronunciaram como segue:

O rábi Akiba diz: “Esse é um princípio principal na Toráh.”
Ben Asai diz: “O versículo em Gênesis (5,1) “D’us criou a pessoa humana – na semelhança de D’us a criou” é um princípio importante.” Bem Asai quer dizer com isso: O versículo Gn 5,1 contém um ensino que é mais importante que esse. O critério para o amor ao próximo não deve ser o amor da pessoa humana a si mesma; pois então poderia alguém que, ao mesmo tempo se deixar agüentar insultos sobre si, também insultar o seu próximo – mas o amor e o respeito que devemos ao nosso próximo têm o seu fundamento e o seu critério na frase fundamental: A pessoa humana está criada segundo a imagem de D’us; quem, então, insultar uma pessoa humana, insultará D’us.

O mandamento em Levítico 19,18 vale, não somente para indivíduos, mas também para classes e povos. Os profetas levantavam acusações amargas contra os ricos, porque oprimissem os pobres, denunciando ao mesmo tempo os povos que se fizeram culpados de desumanidade e traição uns aos outros. Um místico judaico da Idade Média, Judá o Piedoso, o exprimiu como segue: “No dia do juízo o Santo, louvado seja Ele, exigirá das nações conta por cada violação do mandamento ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo!’, da qual eles se têm feito culpados no seu comportamento uns aos outros.”

Também na oração, quando procuramos a proximidade de D’us, esse mandamento não deve retroceder dos nossos pensamentos. No livro de devoção (KaVòNôT) do santo rábi Yitshaq Luria, um dos maiores cabalistas, encontramos: “Está reto dizer, antes da oração, dizer as palavras seguintes: Com isso me obrigo a cumprir o mandamento ‘Deves amar o teu próximo… .”

O rábi Simcha também nos aconselha fazer na oração uma pausa em certos lugares, para concentrar a nossa força de vontade e os nossos sentimentos ao amor à criatura. Além disso, o rábi Simcha escreveu em uma das suas letras do ano de 1890: “A Toráh exige de nós aspirar o bem para os nossos co-humanos. Esse fim não pode ser alcançado nem pela repressão de todos os sentimentos de ódio nem pelo cumprimento do mandamento do amor ao próximo por si mesmo, pois isso não seria amor genuíno, verdadeiro. A pessoa humana deve amar o seu próximo como a si mesmo e, como o amor a si mesmo age condicionado pela natureza e sem qualquer cálculo, restrição ou posição de objetivo no coração da pessoa humana, assim também deve proporcionar ao seu próximo um amor natural, não auto-interessado, por alegria e satisfação, sem limite, sem intenções laterais e sem motivação racional.”

Com outras palavras – cito o rabino Jacobson: D’us dê que do brilho lúcido do mandamento do amor saiam raios e faíscas que iluminem a escuridão da nossa vida atormentada de discórdia, afastando o satã de ódio sem fundo do nosso meio. Estejamos de vigilância, fortalecendo-nos uns aos outros, para que o mandamento do amor ao próximo ilumine a nossa vida e nos sirva de guia!

Depois dessa análise, embora profunda, dessa frase singular, análise essa que a gente certamente deve primeiro deixar efetuar em si e refletir sobre ela, queria anotar que naturalmente não cada judeu conhece essas interpretações em detalhe. No entanto, foram pregadas desde séculos por rabinos nas sinagogas e as conclusões dessas interpretações apresentadas no ensino, assim que os comportamentos delas resultantes entraram também na carne e sangue dos judeus seculares. Na prática, no dia-dia do judeu, como está o cumprimento desse mandamento? Singularmente, cada um tenta ajudar aos seus co-humanos, pelo menos àqueles que se achar simpático. Em geral, há uma comuna judaica, a qual tem a tarefa de cuidar do bem-estar dos seus membros. Visitar doentes, ajudar parentes num caso de falecimento, ajudar a membros da comuna na procura de trabalho e moradia e a neo-imigrantes na sua integração na sociedade. “Ama o teu próximo como a ti mesmo!” procuramos viver no cotidiano, remetendo-nos nisso na tradição rabínica de muitos anos.

Os efeitos e também a interiorização desse mandamento não devem ser subestimados de modo algum. Enquanto as relações humanas nos parecem hoje naturais, antigamente as pessoas humanas se davam umas com as outras diferentemente. Hoje em dia, todavia, esse mandamento central representa a base para uma convivência pacífica das pessoas humanas, chegou a ser base para ética, para o direito (mundial) e para o comportamento social de todos nós. Importante é, antes de tudo, o agir, converter esse mandamento também na prática.

Anunciei no início dizer ainda algumas poucas palavras a traduções da Bíblia. Isso queria fazer com um exemplo: `AYiN TáHaT `AYiN, ShêYN TáHaT ShêYN (Dt 24,20). Em Bíblias alemãs, isso está sendo em geral traduzido Auge um Auge, Zahn um Zahn [olho por olho, dente por dente]. A palavra respectivamente no meio TáHaT significa substituto. Já no Talmude, logo faz dois milênios, essa frase foi explicada fundamentalmente. Depois da análise precedente, vou vos poupar duma interpretação detalhada. Queria somente comunicar as afirmações essenciais.

Primeiro: Essa lei foi criada para conseguir uma proporcionalidade na punição. Ao contrário a outros povos, nos quais furto ou coisa semelhante custava cortar a mão ou ainda a pena de morte, se reparava que a punição ficasse na proporção do feito. Pergunta: Quando me for cavado um olho por um cego de um olho, iria e poderia lhe cavar um, ficaria aqui guardada a proporcionalidade? Como se vê, tão simples não é.

Segundo: Conforme à lei judaica é assim que somente um juiz (especificamente três destes) pode proferir sentenças e pronunciar penalidades – também para isso há prescrições muito precisas. Quer dizer, Quando for cavado um olho a alguém, o juízo tem de cuidar que a vítima receba uma indenização a qual corresponda ao valor de um olho. Cavar um olho também ao autor do delito não traria nada à vítima, além disso, está estritamente proibido no Judaísmo ferir um corpo – também quando isso já tiver sido feito pelo autor do crime. Pessoalmente, me sinto aborrecido que essa frase “olho por olho, dente por dente” estiver sendo citada ainda hoje com o seu pronunciamento falso para apresentar o “Antigo Testamento” como o bárbaro, enquanto com bastante freqüência se cala de que a frase “Ama o teu próximo como a ti mesmo!” vem também desse livro. Provocando, vos queria perguntar se uma apresentação falsa tal é um ato de amor ao próximo?

Literatura: Veja no fim do texto alemão!


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Texto alemão
Tradução: Pedro von Werden SJ – Rua Padre Remeter, 108 – Bairro Baú - 78008-150 Cuiabá-MT – BRASIL – pv-werden@uol.com.br

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Respostas a este tópico

Os homens tem o hábito de tomar decisões por conveniência, por isso é tão difícil obtermos resultados em favor do coletivo. Apenas alguns, raros, levam a vida promovendo o Tikun Olam, quando compreendem seu significado. Outros ficam no discurso, entretanto, na prática pouco produzem pelo outro.

Certo dia consegui entender que minhas atitudes,por menores que sejam podem influenciar na vida de pessoas do outro lado do mundo, por isso tenho procurado meditar muito antes de minhas ações, o que confesso não tem sido fácil, pois, muitas vêzes me traio e quando vejo, já foi.

O que me conforta é que sei que D'us é Paciente e Benigno e nesse jogo da vida tem me ajudado. O que só depende de mim! 

“Ama teu próximo como a ti mesmo”por David Seidner

Quer dizer que:  Shammai, conhecia o trecho daTorá, mas o seu conceito interior contra um não judeu era maior que o preceito da Torá que diz: ama o teu próximo como a ti mesmo. E outra interpretação é que: o próximo é só um outro judeu. Já Hillel, Homem sensível a causa humana, flexível e um grande interpretador  da Lei, pois compreende que o Eterno fez toda carne como Ser Humano, atende ao apelo do não  judeu. Quem é Hillel hoje?

Os ULTRA-ORTODOXOS, (conta-se) que salvam um judeu num dia de Shabat, mas deixa caído um não judeu no mesmo Dia. E se, por causa desse ato, o não judeu quizer arrepender-se da sua vida de idólatra (se for o caso) e converter-se ao Eterno D'us dos nossos pais Abraão Isaque e Jacó?  Quem conhece a Torá de fato?  Conhecer a Torá é não negar o cumprimento de seus Preceitos.  Ainda que seja por um não  judeu. Quem é Hillel hoje?

Agora, negar um pedido de um não judeu para converter-se é o mesmo que negar-lhe o arrependimento e lança-lo no abismo. Quem na verdade vai para o abismo?  Quem é Hillel Hoje?

Ainda bem que encontramos  hoje yhudi como Hillel. B"H.

... ben Havraham.

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