JUDAISMO HUMANISTA

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Diário de Guerra 36 – O Amalek e a Guerra na Torá – Jayme Fucs Bar

Diário de Guerra 36 – O Amalek e a Guerra na Torá – Jayme Fucs Bar
A Torá não é, como muitos pensam, um livro somente religioso. É uma saga humana e, independente se a sua formação seja religiosa, secular, liberal, tradicionalista ou se você se define como direita ou esquerda, a Torá pertence a todos e é inseparável da civilização judaica. Eu sou um judeu secular humanista, não religioso, mas sempre que tenho uma curiosidade sobre qualquer tema vou a procura do que está escrito na Torá. O surpreendente é que você vai encontrar tudo o que você pode imaginar na Torá. Por isso quero apresentar a vocês como a Torá entende a temática das Guerras.
As Guerras - no mundo antigo os homens tinham como objetivo o extermínio físico da população inimiga e quem sobrevivesse seria escravizado e deveria assimilar a cultura, a religião e a tradição dos vencedores.
Os israelitas, como um povo antigo, foram parte dessa realidade brutal e tiveram que enfrentar muitas guerras contra outras nações que faziam fronteira com a terra de Israel. Eles tiveram que aprender a sobreviver às forças dos grandes impérios e conquistadores, que por muitas vezes invadiram essa região. A maioria absoluta dessas nações e impérios deixaram de existir no curso da História.
Mas fica uma grande pergunta, ainda a ser desvendada. Por que o povo israelita conseguiu sobreviver, apesar de tudo isso?
Vocês podem até rir do que eu vou dizer, mas o judaísmo acredita que é possível que no futuro as guerras desapareçam completamente do mundo. Muitos acreditam que o judaísmo sobrevive porque acredita em profecias e uma delas é: "Nação não levantará a espada contra outra nação e não aprenderão mais a guerra”.
Não é preciso que a profecia seja realizada. O que vale é você crer na sua intensão. No judaísmo existe uma regra: o mundo pode estar um caos e na verdade estamos num caos. Mas você não pode perder a fé (emuna) e deixar de crer que um dia essas profecias possam se concretizar.
Os profetas de Israel recebiam suas profecias através de sonhos, que muitos transformaram em utopias. Mas quem não acredita em sonhos e utopias não consegue sobreviver num mundo onde reina a cultura da violência.
Mas como a Torá vê as Guerras?
A Torá nos apresenta alguns elementos importantes sobre as guerras de Israel. Ela as divide em duas categorias, que tem significados bastante diferentes: A primeira é a guerra de Preceito (mitzvah Israel). É uma guerra que expressa o conceito de uma guerra total da luta da justiça contra um mal que pode levar ao extermínio do povo de Israel. Esse tipo de guerra não está relacionado a outras nações. Ela é uma guerra exclusiva, que almeja a destruição da nação Amalequitas (Amalek).
O segundo conceito de Guerra é de Reshut (autoridade) que é uma guerra que visa expandir o domínio do Estado para além das fronteiras da Terra de Israel, por razões políticas ou econômicas. Nesse tipo de guerra a Torá ordena poupar a vida de qualquer pessoa que esteja disposta a render-se e viver sob a ocupação israelita.
A guerra de autoridade somente poderá ocorrer com permissão dos líderes do Sinédrio. Um bom exemplo são as guerras do Rei David que são citadas no Talmud como um protótipo para guerras de Reshut (autoridade). Em contraste com uma guerra de preceito (mitzvah Israel), que não existe a necessidade de autorização do Sinédrio.
Uma das diferenças entre esses dois tipos de guerra, descrito na Torá, é que antes de qualquer cerco e do início de uma guerra de Reshut (autoridade), está escrito sobre a necessidade de clamar pela paz e negociar. Antes de sair para uma guerra essa estratégia foi usada pelo reino de Judá. Graças a isso ele sobreviveu na História, diferente do reino de Israel que, apesar de ser muito maior e mais forte, saiu para uma aventura contra o império assírio e foi totalmente exterminado.
Outra curiosidade é que numa guerra de Reshut (autoridade), o cerco deve ser iniciado pelo menos três dias antes do Shabat, enquanto em uma guerra de Preceito (mitzvah Israel) não existe isso. Não se pediu paz para a nação Amalequitas (Amalek), pois o objetivo deles era nos destruir. Esse conceito é tão forte na Torá que numa guerra contra eles foi até permitido iniciar um cerco no Shabat.
Na Torá está escrito que antes de ir para a guerra, o sacerdote tinha a função de se apresentar frente aos guerreiros. Sua fala era dividida em duas partes, a primeira antes de saírem e a segunda quando estavam perto para entrar em combate.
As palavras do sacerdote era para lembrar o que está escrito na Torá: “Você não terá medo deles” e, de acordo com alguns sábios, o mandamento "não ter medo durante a guerra" explica que a proibição do medo ocorre somente durante a própria guerra. Já nos dias de paz o homem pode ter um coração fraco e temeroso.
O que chamamos hoje de estrela de David, em hebraico esse nome é escudo de David. Ele não era usado como conhecemos hoje como um símbolo judaico. Ninguém usava a estrela de David com um colar no peito. A função do escudo de David era simplesmente militar, de encorajar os guerreiros na luta contra os Inimigos. A estrela de David era um tipo de mandala que representava, em cada escudo, que esses guerreiros estavam lutando e dispostos a morrer em nome do Deus de Israel.
Nas fontes da Torá está explícito que o serviço no exército era feito apenas por homens. Mas não existe nenhuma proibição na Torá para que uma mulher se aliste no exército. De forma geral essa era a realidade aceita nessa época, que apenas os homens se alistavam e não as mulheres.
Mas é interessante que na Torá mostra, em certas ocasiões, que mulheres participaram de guerras. Neste caso elas tinham que raspar os cabelos, cortar as unhas e se vestirem como homens. Os sábios acreditam que essa era a forma de tirar a beleza da mulher guerreira e igualá-la aos homens.
Temos também provas concretas de mulheres que se tornam guerreiras e heroínas nas guerras de Israel na Antiguidade. Entre elas temos Débora, a profetisa, que salva o povo de Israel das garras dos seus inimigos, Yael, esposa de Héber, que matou o líder cananeu Sisera e a famosa Judith Bat Marari, que conseguiu chegar diante do general Holfornes e o matou.
Hoje estamos vivendo mais uma das guerras de Israel. Uma das piores desde sua reconstrução em 1948. Para quem desejar, podemos usar a linguagem bíblica de que essa guerra contra a Hamas é uma Guerra de Preceito (Mitzvah Israel), pois apesar de estarmos num período pós-moderno, ouvimos em Israel muita gente chamar o Hamas, Irã e Hezbolah de os novos Amalequitas (Amalek).
Sempre na história judaica, quando estamos em emergências podemos ver que acontecem certas reações do povo de Israel que nos surpreendem. Uma delas é a quantidade enorme de participação de mulheres em todos as funções militares, lutando corpo a corpo nas frentes de guerra, com muitas histórias de heroísmo, sacrifícios e de bravura.
Outra é a grande mobilização dos reservistas, mesmo aqueles que já deram baixa devido a idade, que comparecem como voluntários nos campos de batalhas. Também impressiona a mobilização da sociedade civil em geral que apoia, com todos os meios possíveis, todos aqueles que estão se sacrificando por suas vidas, em defesa de Israel.
E com certeza o mais curioso, e talvez muitos de vocês devam estar se perguntando: o que está acontecendo com a comunidade ultraortodoxa? E se tudo isso está escrito na Torá, por que a maioria dos ultraortodoxos se negam a servir no Exército de Israel?
A resposta é simples. Eles não aceitam a criação do Estado de Israel moderna, realizada pelos homens. Eles ainda estão a espera do Messias para essa realização.
Mas eles, que como todos que presenciaram de perto essa terrível, trágica e a sanguinária matança realizada pelo Hamas em 7.10.23, onde mais de 1300 pessoas foram assassinadas e outras centenas raptadas, pararam para pensar. E isso os levou a uma nova reflexão.
Certos setores da ultra ortodoxia começaram a ver a realidade dentro do conceito Bíblico: Hamas = Amalequitas (Amalek) e entenderam que estamos numa guerra de Preceitos (Mitzvah Israel). Independente da chegada do Messias para fazer a Geula (A Redenção), é uma mitzvah agora nesse momento se alistar no Exército de israel.
O judaísmo é amplo e muito sábio. A Cabala interpreta a palavra hebraica AMLEK (Plural Amalekim) de uma forma muito interessante. A palavra Amalek têm o valor numérico da palavra Safek, que significa “dúvida” ou “incerteza”.
O que podemos entender com isso?
Matar o Amalek não é matar somente a nação de Amalek e sim matar também as incertezas que temos dentro de cada um de nós.
Fico aqui numa grande curiosidade sobre o percurso dessa guerra.
Me pergunto se o nosso primeiro-Ministro Benjamin Nathaniel conseguirá matar as dúvidas e as incertezas que leva dentro de si.
Será que ele terá coragem de assumir todas as responsabilidades desse caos que estamos vivendo e no final saberá se demitir?

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