JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

domingo, 19 de setembro de 2010

Quão rara é a vida?

Marcelo Gleiser http://marcelogleiser.blogspot.com/



Estamos aqui não porque o Universo seja propício à existência, mas apesar de sua hostilidade a nós

NO DOMINGO PASSADO, escrevi sobre as recentes afirmações de Stephen Hawking. Para ele, a ciência demonstrou que Deus não é necessário para explicar a criação. Outro argumento que Hawking usou é que o Universo é especialmente propício à vida, em particular à vida humana. Mais uma vez vejo a necessidade de apresentar um ponto de vista contrário. Tudo o que sabemos sobre a evolução da vida na Terra aponta para a raridade dos seres vivos complexos. Estamos aqui não porque o Universo é propício à vida, mas apesar de sua hostilidade.

Note que, ao falarmos sobre vida, temos de distinguir entre vida primitiva (seres unicelulares) e vida complexa. Vida simples, bactérias de vários tipos e formas, deve mesmo ser abundante no Cosmos.

Na história da Terra -o único exemplo de vida que conhecemos-, os primeiros seres vivos surgiram tão logo foi possível. A Terra nasceu há 4,5 bilhões de anos e sua superfície se solidificou em torno de 3,9 bilhões de anos atrás. Os primeiros sinais de vida datam de pelo menos 3,5 bilhões de anos, e alguns cientistas acham que talvez possam ter 3,8 bilhões de anos. De qualquer modo, bastaram algumas centenas de milhões de anos de calma para a vida surgir. Não é muito em escalas de tempo planetárias.

Esses primeiros seres vivos, os procariontes, reinaram durante 2 bilhões de anos. Só então surgiram os eucariontes, também unicelulares, mas mais sofisticados. Os primeiros seres multicelulares (esponjas) só foram surgir em torno de 700 milhões de anos atrás.

Ou seja, por cerca de 3,5 bilhões de anos, só existiam seres unicelulares no nosso planeta. O que aprendemos com esses estudos é que a vida coevoluiu com a Terra. O oxigênio que existe hoje na atmosfera foi formado quando os procariontes descobriram a fotossíntese em torno de 2 bilhões de anos atrás. Estamos aqui porque oxigenaram o ar.

Devemos lembrar que seres multicelulares são mais frágeis, precisando de condições estáveis por longos períodos. Não é só ter água e a química correta. O planeta precisa ter uma órbita estável e temperaturas que não variem muito. Só temos as quatro estações e temperaturas estáveis porque nossa Lua é pesada.

Sua massa estabiliza a inclinação do eixo terrestre (a Terra é um pião inclinado de 23,5), permitindo a existência de água líquida durante longos períodos. Sem a Lua, a vida complexa seria muito difícil.

A Terra tem também dois "cobertores" que a protegem contra a radiação letal que vem do espaço: o seu campo magnético e a camada de ozônio. Viver perto de uma estrela não é moleza. Precisamos de seu calor, mas ele vem com muitas outras coisas nada favoráveis à vida.

Quem afirma que o Universo é propício à vida complexa deve dar uma passeada pelos outros planetas e luas do nosso Sistema Solar.

Ademais, o pulo para a vida multicelular inteligente também foi um acidente dos grandes. A vida não tem um plano que a leva à inteligência. A vida quer apenas estar bem adaptada ao seu ambiente. Os dinossauros existiram por 150 milhões de anos sem construir rádios ou aviões. Portanto, mesmo que exista vida fora da Terra, a vida inteligente será muito rara. Devemos celebrar nossa existência por sua raridade, e não por ser ordinária

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Comentário de Flávia Muniz em 20 setembro 2010 às 0:25
Quando vi no jornal o Hawking falando de não haver espaço pra Deus comentei com o Márcio Tavares do Amaral, meu professor de filosofia e ele disse: como se Deus ocupasse espaço...

Sobre esse texto aqui eu lembrei de um poema meu chamado EVOLUÇÃO:

"Pacífico é ser oceano? Supor outra coisa é desaver avidez de maré. Escrevo para tornar-me factível e depois toda água que evapora. Toda mulher renova, quando a liberdade sabe mais de abrir portas que as chaves. Eu nunca tive idade. Cada vez que me despeço, o horizonte me abre janelas. Envolvo a vida nas asas das coisas-pés. As coisas têm vida. As pessoas, uma coisa dentro. E os cheiros têm braços. Me desfaço dos fios de lágrimas do tempo, quase cambriana. O amor presume a evolução. Do poema restam fósseis. Respiro as frases, animo os desdizeres da alma. Pelo sangue, o veículo-corpo pisa o chão da terra. Todo dia o sol nasce no peito. A imaginação não tem paredes. Estico a rede nos coqueirais da vila. As pessoas daqui tem pressa. Ser humano carrega osso. Depois de moço, a carne desfibra. O espelho é testemunha das horas. Existo agora. O que é a bússola da vida?"

abraço,
Flávia

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