JUDAISMO HUMANISTA

O Judaismo Humanista é a pratica da liberdade e dignidade humana

Seria pretensioso propor aqui objetivos, missões, metas e aquelas coisas solenes das organizações burocráticas. Mas eu gostaria de poder compartilhar aqui alguns sonhos, e o que percebo dos desafios... Tudo muito pessoal.

Por vivenciar profissionalmente o mundo Web e estar imbuído da visão das transformações que essa mídia já trouxe – e ainda está no comecinho – eu acredito que as formas tradicionais de organização comunitária, baseadas em burocracias hierarquizadas cuja sustentabilidade depende de esforço muito concentrado de poucas pessoas, vão evoluir para formas de organização em rede, viáveis pela somatória de um volume grande de pequenos esforços, e portanto mais democráticas.

Teremos um judaísmo mais plural e mais aberto para segmentos que hoje não encontram seu espaço nos ambientes que conhecemos. As minorias, seja em termos étnicos (tanto os conversos quanto os afastados), religiosos e espirituais (as correntes liberais, massorti e reformistas, e mesmo os que aderem a outros credos mas mantêm sua identidade judaica), e político-ideológicos (os que não abrem mão do compromisso universalista com a justiça, a paz e os direitos humanos para todos), quando somadas e agregadas nas várias gerações da comunidade, têm o potencial de ocuparem um espaço muito expressivo, mesmo que minoritário.

Acredito que, mesmo minoritários, se formos 20%, talvez 30% ou 40% , a visibilidade de nossa existência e vigor terá peso na formação da opinião dos judeus brasileiros, na influência da nossa comunidade em outras comunidades, e mesmo no fortalecimento de nossos irmãos em Israel que, também minoritários, estão na linha de frente defendendo bravamente um judaísmo e um sionismo éticos e respeitosos em relação aos direitos de outros povos. Eles, que hoje vivem o rolo compressor  de um macartismo judaico, precisam de nós plurais, mais do que do nós monolítico.

Não é um trabalho para meses. Tem a extensão de uma geração. Nós que passamos dos 60 vemos que a turminha de 20 é mais idealista do que as gerações que nos separam. Vemos isso em todos os lugares, não especificamente na comunidade judaica. O pêndulo mudou de posição: vêm aí gerações generosas, que cantam conosco o Imagine de John Lennon, e cantarão conosco o We Shall Overcome, de Pete Seeger e Joan Baez com Martin Luther King. E cantarão conosco o Hatikva, do nosso jeito, com a esperança da paz e do convívio num Oriente Médio em que judeus e árabes se unem pelas respectivas democracias, contra as manipulações de Estados tomados por teocratas. Eu estou certo de que essas novas gerações herdarão com orgulho os ideais que formos capazes de lhes transmitir.

Temos o desafio de construir a ponte entre essas gerações. De sermos educadores e aprendentes.

E para isso contamos com a alegria, a cultura, o cinema, a música... e a construção da memória do papel que os judeus exerceram nas grandes lutas sociais dos séculos 19 e 20, desde o Bund, o movimento sindical, o socialismo dos kibbutzim, a resistência dos guetos, o jazz, o nosso Wladimir Herzog, o nosso Salomão Malina, o nosso Jacó do Bandolim, o nosso Sholem... Enfim, uma memória que não podemos deixar de passar para nossos filhos e netos.

Não será fácil. Não é trabalho para poucos. A Internet mostrou que um Obama pôde ganhar eleições com muitas doações pequenas. Nós teremos que mobilizar muitas pessoas com pouco tempo, mas nós as teremos: médicos, engenheiros, professores, psicólogos, educadores, cineastas, músicos, publicitários. Estamos até na Academia Brasileira de Letras, com o querido Moacyr Scliar.

Toda longa marcha começa com um primeiro passo. O nosso primeiro passo foi dado pelo Jayme Fucs Bar - Kol haKavod - ao criar a rede JH. Outros pequenos passos: um cabalat shabat aqui, outro ali, pouco a pouco se contaminando e aprendendo uns com os outros como motivar, engajar e dar voz às pessoas. Mas tenho certeza: em 10 anos teremos tido um impacto forte na capacidade de nossos jovens responderem com firmeza sempre que se depararem, por um lado, com um Protocolos dos Sábios de Sião na universidade, ou por outro, com a estreiteza de concidadãos que consideram natural aceitar todas e quaisquer ações de qualquer governo israelense ou de qualquer liderança comunitária. E teremos tido um impacto forte numa Hazbará, crítica, que virá dos nossos corações, e não forçada goela abaixo por uma coalizão política qualquer que esteja eventualmente no poder em Israel.

O vigor na capacidade crítica de defendermos a vida e o direito de todos os povos à existência com dignidade é o presente que deixaremos para as gerações que virão. E fundamentados na sabedoria de nossos profetas, rebes,  filósofos, intelectuais, educadores e lutadores.

O grande desafio, que penso poder antecipar com base em experiências vividas em situações semelhantes que começaram de forma generosa mas terminaram de forma melancólica, é sermos humildes, segurarmos nossos egos, compartilharmos vitórias e fracassos, buscarmos fazer tudo com alegria e tolerância com aqueles que possam divergir de nós. Sem stress. Disposição para aprender e ensinar, na medida de cada um, sem donos da verdade.

Não será fácil. Mas é uma bênção podermos ter a oportunidade de estarmos juntos aqui agora. E teremos amigos, muitos amigos, em todos os cantos do mundo, para compartilhar nossas lutas e nossas alegrias e para somarmos nossas forças.

Estou otimista. E você?

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Comentário de Sérgio Storch em 9 fevereiro 2011 às 11:08

Marcelo, esqueci de adicionar uma coisa fundamental:

  • Desde já devemos ver os rapazes do Hashomer como sendo parte de nossas lideranças, e incluí-los no nosso planejamento de atividades. É uma bênção podermos tê-los como pontes para trazermos essa geração.
  • Acho que não devemos nos restringir ao Hashomer. Vamos buscar a Chazit, Avanhandava, Comunidade Shalom, Centro da Cultura Judaica, Hebraica, Câmara de Comércio Brasil Israel etc. Fazermos vasos comunicantes entre nós e todos eles. Não somos concorrentes, e sim mais uma força para trazermos pessoas para as atividades de cada um.
  • Acho também que você tem em casa uma liderança para a geração dos 12 aos 18:  a Marcela. Devemos todos olhar com carinho o desenvolvimento dela como líder. O que você acha? 

Um abração

Sérgio

 

 

Comentário de Sérgio Storch em 9 fevereiro 2011 às 7:35

Oi Marcelo

Suas palavras são muito generosas. Mas quero reafirmar que o grande desafio é mesmo aquele. Qualquer dia contarei aqui a história dos 3 anos de existência do Shalom Salam Paz e do Taba, dissidência do anterior. Começou tudo bem, mas conflitos de egos, camuflados por divergências ideológicas, os destruíram.  E, com humildade, confesso que um dos egos foi o meu. Precisamos ter muita fraternidade desde o início, para que sejamos sustentáveis. Porisso será vital que nós, que de uma ou outra forma estamos assumindo papeis de liderança, logo pensemos no desenvolvimento organizacional que traga outras lideranças para que haja rodízios em quaisquer das posições, definamos papeis em nível nacional (educação, cultura, marketing, mobilização de rede etc.) a serem exercidos em equipes rotativas etc.

Acho que neste momento o desafio imediato é construirmos uma programação temática nacional, que os núcleos cumpram cada um com o capital intelectual que puderem atrair (artistas, intelectuais, contadores de histórias etc.), e em seguida consigamos fazer atividades internúcleos, com visitas recíprocas, atração de figuras nacionais como o Moacyr Scliar, Jayme Lerner etc.

E desde logo fazermos nossas conexões internacionais com grupos semelhantes principalmente nos EUA e Israel. Tenho certeza de que conseguiremos patrocínios, se soubermos nos articular com instituições judaicas liberais já existentes, pois não somos concorrentes.

E nós, que neste momento estamos à frente, junto com o Jayme, que dediquemos tempo para nos conhecermos, contribuirmos para os interesses de crescimento de cada um de nós para que possamos continuar nos dedicando, e vamos buscar outros como nós para dividir as responsabilidades.

Se soubermos fazer isso, definir um modelo organizacional em rede e leve para todos, autogestionário, no qual exista apenas alegria e não competição, e

Comentário de Paulo Blank em 8 fevereiro 2011 às 23:28
Sergio me manda o teu tel e o mail para o meu cel 99660251 amanha de manha.PB
Comentário de Marcelo Barzilai em 8 fevereiro 2011 às 22:17

Amigo Sérgio. Quero dizer, de todo meu coração, que se tivermos pelo menos um Sérgio Storch em cada canto desse país, com seu otimismo e iniciativas, que já me contagiaram e a todos aqui em casa, certamente veremos o JUDAÍSMO HUMANISTA DO BRASIL impactando mentes e corações de tal forma que inegavelmente as  futuras gerações desfrutarão, não de um "novo judaísmo", mas daquele que nossos Sábios sonharam quando resolveram usar a pena e a tinta com a intenção de preservar seus conhecimentos, sua Cultura e seu Equilíbrio (Tradição) . Peço licença para copiar e colar esse trecho do seu texto:

"O grande desafio, que penso poder antecipar com base em experiências vividas em situações semelhantes que começaram de forma generosa mas terminaram de forma melancólica, é sermos humildes, segurarmos nossos egos, compartilharmos vitórias e fracassos, buscarmos fazer tudo com alegria e tolerância com aqueles que possam divergir de nós. Sem stress. Disposição para aprender e ensinar, na medida de cada um, sem donos da verdade"

                                                                    TODAH RABAH ! ACHI!

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